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Cara/o colega, qual é o seu contributo enquanto psicóloga/o para um “. Final à Pobreza”? [Mailing OPP; 24.06.2022]

Um oceano, uma falésia ou uma montanha. Olhamos, contemplamos e sentimo-nos pequenas e pequenos. A guerra, a crise climática ou a pobreza. Pensamos, vivemo-las, por vezes, e sentimo-nos pequenas e pequenos. Não raras vezes, perante desafios societais complexos, quais oceanos, falésias ou montanhas de problemas, sentimo-nos desincentivadas e desincentivados por não acreditarmos terem resolução possível ou por não nos percebermos capazes de contribuir para a sua resolução. Porém, assim não creio ter de ser. Não apenas acredito que têm resolução possível, como acredito no papel imprescindível da ciência psicológica e no contributo fundamental de cada psicóloga e psicólogo, com a sua prática profissional e de cidadania.

Penso-o assim no que se refere à erradicação da pobreza e, particularmente, da pobreza extrema. Pobreza que tudo impacta. A possibilidade de bem-estar, desde logo. A dignidade, quando limita ou impossibilita o acesso a condições e necessidades (básicas) de vida. Os direitos humanos, quando restringe ou impossibilita a pessoa, entre outros, de se cumprir. É, por isso, um importantíssimo determinante da saúde e, como cada vez mais investigação comprova, pode ser causa, mas também consequência, de problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse, que se associam em ciclo com as situações de pobreza. Acresce que a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afectivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização, num e noutro caso também das próprias pessoas sobre si próprias. Aliás, diria, que se há algo que toda e qualquer pessoa, qualquer que seja o seu papel, formação ou circunstância, pode rapidamente fazer para apoiar a solução deste problema é deixar de culpar, e contribuir para que outras e outros deixem de culpar as pessoas pela sua situação de pobreza.

Porque hoje sabemos muito mais sobre as múltiplas causas destas situações e sobre os seus múltiplos impactos. Porque hoje a ciência psicológica aporta contributos a esta compreensão e, particularmente, à forma como poderemos mitigar e prevenir estes problemas. Porque a erradicação da pobreza é, não por acaso, o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável e que, por via da pandemia por COVID-19 e da Guerra que hoje se vive na Ucrânia, sofreu recentemente um retrocesso significativo no caminho percorrido nas últimas décadas. E, porque a sociedade espera de nós, enquanto profissão, um contributo decisivo na estratégia nacional de combate à pobreza em curso – a nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses lançará publicamente amanhã a campanha “. Final à Pobreza”.

Uma campanha que pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos, disponibilizados neste portal, promover um debate amplo e participado com as psicólogas e os psicólogos no sentido da recolha de contributos (também através deste formulário que convido a preencher) para o desenvolvimento de um plano estratégico de acção nesta matéria assente em quatro dimensões:

a)     Sociedade civil: promovendo literacia sobre a pobreza nas suas causas, consequências e possibilidades de erradicação, bem como sobre o potencial contributo da psicologia;

b)    Decisoras e decisores: contribuindo com conhecimento e evidência da ciência psicológica para o desenho e para a efectividade de políticas e intervenções nesta área;

c)     Profissão: estimulando e apoiando com recursos e ferramentas a prática profissional, a formação inicial e contínua e a investigação científica neste âmbito;

d)    Cooperação nacional e internacional: afirmando e promovendo redes colaborativas de reforço do contributo da psicologia para a erradicação da pobreza em Portugal e no Mundo.

Investigando, advogando e praticando a psicologia, nós, psicólogas e psicólogos, fazemos do princípio A do nosso Código Deontológico (“Respeito pela dignidade e direitos da pessoa”) razão e motivo maior da ciência e profissão que nos une. Pela dignidade, pelos direitos (humanos) e pela possibilidade de autodeterminação das pessoas, só possíveis numa sociedade de equidade, bem-estar e coesão social. Contem comigo e connosco, conforme conto e contamos convosco para, juntas e juntos e com um chão e um tecto comum, caminharmos nesse sentido, também pelo nosso contributo para um “. Final à Pobreza”.

 

Mailing Ordem dos Psicólogos Portugueses [23.06.2022]

Tiago Pereira

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Ordem dos Psicólogos Portugueses

SNS… Psicologia…

Domingo, 19 de Junho de 2022. O país acordou com o simbólico da Maternidade Alfredo da Costa não estar a receber grávidas provenientes dos CODU (INEM) para gestão dos fluxos e da pressão associada aos encerramentos de urgências de obstetrícia nos dias anteriores. Eram as primeiras horas do dia do 78º aniversário de Chico Buarque, pessoa e artista ímpar da língua portuguesa. Compositor, cantor e escritor que em 2019, ano em que recebeu o Prémio Camões, publicou o romance “Essa Gente” onde, a certa altura, escreve: “Era esperável que eu me confortasse.”

Era? Seria, penso a propósito da situação que vivemos. Regresso à sexta-feira, 09 de Junho de 2022, véspera de um dia de reflexão sobre o país, aqui e no Mundo. Dia em que o Fórum da TSF – Rádio Notícias discutiu a “multiplicação de alertas sobre os problemas do SNS”, antes dos encerramentos de diversas urgências que aconteceriam nos dias seguintes.

Na intervenção que fiz (que partilho), parto da ideia de que “nem tudo está mal no SNS”, para sublinhar o seu papel na melhoria dos indicadores de saúde, sociais e de bem-estar em Portugal e do capital social que hoje tem. Capital que funciona como elemento de pressão das pessoas e da sociedade civil para mais, melhores e mais rápidas respostas, também na área da saúde mental. Continuo, na intervenção, focando 4 aspectos relevantes da resposta nesta área do SNS e do contributo da ciência e prática psicológica para a sua maior sustentabilidade, acabando por (hoje assim reflicto), tocar dimensões que apoiam a compreensão da relevante e ampla crise do SNS (e da potencial resposta à mesma) que hoje discutimos.

Senão vejamos, foquei: a) a falta de recursos (na área da saúde mental e da psicologia em particular), principalmente nos cuidados de saúde primários; b) as ineficiências no sistema, que exemplifiquei através do circuito provável de uma pessoa que procure apoio psicológico no SNS (médica ou médico de família – serviço de psiquiatria e saúde mental – serviço de psicologia, quando existente), com os diferentes tempos de espera acumulados, sofrimento e problemas potenciais agravados e actos prescindíveis num quadro de acesso mais rápido e directo; c) os factores psicossociais associados ao trabalho no SNS, desde a enorme fadiga, stresse, por vezes desmotivação ao absentismo ou até abandono das e dos profissionais de saúde; d) a necessidade de reconceptualizarmos a intervenção do SNS, investindo mais na prevenção da doença e na promoção da saúde (também mental) e de estilos de vida saudáveis.

“Esperável”, diz o Fernando Alves, pessoa e jornalista ímpar da língua portuguesa, “é a formulação doce e cortês de uma ideia de espera e de uma ideia de desejo”. No caso, da minha ideia de espera, associada à esperança que tenho nesta necessária e urgente transformação e ao desejo de contribuir para que a ciência e a prática dos psicólogos e das psicólogas a possa mais e mais apoiar, estimular, promover e sustentar.

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Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal (Ao redor…; Sábado; 08.06.2022)

Uma menina de cara redonda vira a esquina, aproxima-se de dois homens que olham para um buraco que abrem no passeio e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não menina, de uma fuga de gás”, responde um dos homens. “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, vemos na imagem seguinte a Mafalda pensar. Décadas passaram sobre a publicação desta sempre actual tira que suscita em cada um e uma de nós, ou em nós em diferentes momentos, um ímpeto para substituir “raízes nacionais” por um qualquer problema, desafio ou prática e “fuga de gás” por outro qualquer problema, desafio ou prática. Hoje, “raízes nacionais”, evoca em mim a promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos. Já “fuga de gás” situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde. Em bom rigor, hoje a tira de há algumas décadas que questiona a Argentina da Mafalda faz-me pensar a prática da psicologia em contexto escolar em Portugal, hoje.

É verdadeiramente significativa a mudança que ocorreu desde que iniciei (ainda enquanto estagiário, em 2005) ou mesmo desde que interrompi (em 2013) funções como psicólogo com intervenção escolar. É verdadeiramente significativa, particularmente, no potencial impacto destes profissionais junto da comunidade educativa. Esta mudança decorreu, essencialmente, a partir de três grandes e relativamente rápidas transformações: o capital que a psicologia tem hoje na sociedade, o que representa e o seu (re)conhecimento e valorização; o crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos com intervenção em contexto escolar; a transformação conceptual dos referenciais e do seu papel, de intervenções tipicamente remediativas, apenas directas e junto de crianças e jovens com algum problema para intervenções de índole preventiva e promotora, também de consultadoria e junto de todas as crianças e jovens, professoras e professores, direcções, outros profissionais e assistentes e toda a comunidade educativa.

Impacto potencial que advém deste caminho de transição de uma intervenção quase exclusiva com as dificuldades de aprendizagem, a que se somava a orientação e desenvolvimento vocacional, para a intervenção em todo o contexto, apoiando e estimulando a criação de ambientes promotores de aprendizagem e desenvolvimento. Do caminho de intervenções quase exclusivas nos problemas de saúde mental para uma acção promotora da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar. Impacto, apenas potencial por não totalmente cumprido. Porque, se antes não existia este referencial de actuação. Porque, se antes também, já existindo referencial, não existiam profissionais em número mínimo. Porque hoje, mesmo existindo referencial e profissionais num número mais significativo, a ausência de resposta aos problemas das crianças e jovens nos serviços de saúde explica o fosso entre o potencial instalado e a forma como, concretamente, as práticas ocorrem.

É que se já pré-pandemia – também em resultado da crise social e económica do início da década anterior e da não mobilização de respostas contingentes na área da saúde mental – existia uma prevalência de dificuldades e problemas de saúde psicológica nas Escolas portuguesas, a pandemia veio agravar este cenário e acrescentou sofrimento psicológico significativo a muitas crianças e jovens, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Esta realidade foi recentemente reforçada com um importante estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos que, além do sofrimento nas crianças e dos jovens (1 em cada 3), evidencia-o também nas professoras e professores (1 em cada 2). A propósito destes indicadores, e validando as propostas de acções sugeridas no estudo, o Ministro da Educação voltou a assumir o facto das psicólogas e psicólogos serem “necessidades permanentes” das Escolas, a comprometer-se com a continuidade dos profissionais contratados nos últimos anos e a reforçar o “compromisso para com a saúde mental”, assumindo que ainda “não se investiu tanto quanto se devia”. Fê-lo tal qual António Costa havia feito, há semanas e numa conferências sobre o futuro da Europa, quando assumiu a necessidade de ser concretizado um “grande investimento” e a “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para poderem responder” aos problemas de saúde mental e disse ser necessário cumprir um programa “que está a ser desenvolvido, com muito lentidão neste caso, de introdução de psicólogos na Escola de forma a poder haver um melhor acompanhamento, uma melhor protecção e melhor resposta aos problemas de saúde mental entre os jovens”.

Ora, não poderia estar mais de acordo. Ao cumprimento do programa de reforço da psicologia em contexto escolar e transformação progressiva das suas práticas, alinhando-as com a melhor evidência científica disponível, deve corresponder a capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para responder às situações hoje já problema. Isso é essencial para assegurar que existem recursos dirigidos às “fugas de gás”, podendo estas ser intervencionadas onde devem sê-lo (em contexto e com setting clínico, particularmente nos cuidados de saúde primários) pós-sinalização, entre outros, do próprio sistema educativo. Isso é essencial para se libertar recursos para que as “raízes nacionais” sejam “procuradas” e neste caso existam recursos disponíveis para intervir preventivamente onde isso mais deve e pode acontecer – nas Escolas e acompanhando todo o percurso educativo das crianças e jovens. Esta complementaridade porque permitiria também a articulação interinstitucional entre serviços, melhoraria a resposta e torná-la-ia mais eficiente. Permitiria que a “urgência” de responder na Escola a problemas não intervencionados fora dela, por escassez ou ausência de recursos, não invalidasse a oportunidade de se intervir no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde.

Mais isto é fundamental num país ainda de forte exposição da sua população mais jovem aos principais determinantes socioeconómicos dos problemas de saúde mental (pobreza, exclusão e instabilidade nos contextos familiares). Mais isto é fundamental quando sucessivos estudos confirmam a importância do envolvimento das e dos alunos com a Escola e do seu gosto pela Escolar. Vejamos, por exemplo, resultados recentes de um novo estudo com o grupo de pais, mães e crianças que é longitudinalmente seguido desde 1991 (Avon Longitudinal Study) que demonstra que o “gosto pela Escola” de um ou uma estudante aos 6 anos é sensivelmente tão preditor do sucesso escolar aos 16 anos (10 anos depois) quanto o seu nível socioeconómico. Esta conclusão é uma importante pista para a intervenção visto ser, teoricamente, muito mais simples promover o gosto pela Escola quando comparado com a promoção de mudanças estruturais nos níveis socioeconómicos das famílias (ainda que pudessem ser desejáveis). Pista esta que se associa a outra conclusão do estudo (esta menos surpreendente), a forte relação entre o gosto pela Escola das e dos estudantes e a opinião que têm dos seus e das suas professoras, algo que sublinha a amplitude de benefícios de se avaliarem e prevenirem os riscos psicossociais dos profissionais na área de Educação e de se desenharem planos de desenvolvimento das pessoas nesta área.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, comemora-se, por estes dias e desde 1950, o Dia Mundial da Criança. Dia que pretende assinalar a importância da defesa dos direitos das crianças num Mundo onde tantos milhões de crianças e jovens são ainda deles privadas. Dia que hoje evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços” para que “tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e liberdades aqui enunciados”. A humanidade deve-o às crianças e, devendo-o, não pode apenas responder ao urgente, mas, no seu melhor interesse, também ao importante. Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.06.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/importante-vs-urgente—-o-sofrimento-psicologico-nas-criancas-e-jovens-em-portugal

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Felicidade e Bem-estar…

Para que serve o relatório anual da felicidade no Mundo? Um ranking de países, promovido desde 2011 pelas United Nations a propósito da resolução – Felicidade: Rumo a uma abordagem holística para o seu desenvolvimento. Ranking que, mencionando a felicidade (emoção associada ao cumprimento de um objectivo ou a um acontecimento percepcionado como positivo, logo temporalmente definida), procura classificar o bem-estar subjectivo de cada país, enquanto medida mais estável, mas nem por isso menos complexa de mensurar.

Serve, a meu ver, 3 propósitos. Reflectir sobre que dimensões, considerando a melhor evidência científica disponível, surgem mais correlacionadas com o bem-estar subjectivo – aqui são usados o PIB, suporte social, esperança média de vida, possibilidade de escolhas livres, generosidade e a confiança nas instituições/percepção de corrupção. Para, mais do que nos (país) compararmos com outros, perceber onde estamos ou não a evoluir e como o podemos fazer. Serve o propósito de falarmos sobre o tema e… Falar é importante.

Foi o que a Judite de Sousa e eu fizemos no Jornal da CNN Portugal, conversa que partilho. Sobre o relatório de 2022. Sobre a Finlândia ser, pelo 5º ano consecutivo, o país 1º classificado apesar de estar fora do top10 no PIB e na esperança média de vida (onde está abaixo de Portugal), mas se destacar no suporte social, possibilidade de escolhas livres e confiança nas instituições/não percepção de corrupção. Sobre a 56ª posição de Portugal, penalizado pela baixa confiança nas instituições/elevada percepção de corrupção e por uma, a meu ver, frágil avaliação do indicador generosidade (valor doado a uma instituição no mês anterior), onde estamos em 124º. Isto, apesar de resultados relevantes nas restantes 4 dimensões e do país ter crescido no indicador total todos os anos desde 2011 e recuperado significativamente posições no ranking nos últimos anos.

Falamos, ainda, das expectativas das pessoas quando procuram (e conseguem, considerano os obstáculos e iniquidades persistentes no acesso) psicólogas/os e do que considero serem 5 pontos essenciais à nossa evolução: combate feroz à pobreza e exclusão, prevenindo impactos da escassez na (im)possibilidade de bem-estar; aprofundar a aposta na educação e promoção de competências sócio-emocionais; maior apoio quando uma pessoa falha, erra ou tem um acontecimento negativo imprevisto, permitindo rede e que ninguém fique para trás; promover a confiança nas pessoas e instituições; caminharmos de maior competitividade para maior cooperação e suporte social, considerando menos os rankings (Finlândia estaria nos últimos lugares num potencial ranking de rankings).

Uma conversa que tocou a importância e centralidade do bem-estar e o papel que pode desempenhar no presente e futuro do país, como aqui defendi.

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Democracia Desafios da Psicologia Pobreza e Desigualdade

Que Portugal?

Que Portugal? Quem me ouve e/ou lê sabe que me (pre)ocupa uma inquietante ligação entre a desconfiança, o autoritarismo e a aculturação.

Como hoje, no Mundo mas também cada vez mais em Portugal, sem pudor, se exploram casos e pessoas, instigando o medo e/ou o ódio, polarizando para, de forma mais eficaz, gerar e propagar desconfiança, fragilizando outras pessoas e instituições com fins políticos.

Fins que começam e acabam no desrespeito e na ameaça aos valores da liberdade, da equidade, da democracia e do bem-comum e que conduzem, hoje, também a um interromper num caminho de maior democratização dos sistemas de governo no Mundo com o regresso ao autoritarismo tácito, que acresce ao conjunto de manifestações da progressão do autoritarismo implícito.

Mas não termina aqui. Este “tudo posso” e esta ausência de “limites” e de “respeito e consideração pelas e pelos outros”, sejam pessoas ou países, traz a necessidade de mais e mais, de crescer, expandir, aumentar e de aculturar tudo e todos e todas. Traz o desejo da “América novamente grande”, da “Rússia se reerguer” ou da “China Global 2049”. Traz as significativas implicações destas ambições para a Paz, para a possibilidade de bem-estar no Mundo e para uma ideia de cooperação e partilha entre países pelo planeta e pelos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Mas, que Portugal neste Mundo? Um Portugal de, inexistentes mas persistentes, “raças”, na crença e no sentir de algumas pessoas? Um Portugal que nada deve e tudo lhe é devido? Um Portugal que “culpa” as pessoas pelas suas circunstâncias, por exemplo de pobreza? Um Portugal em que cada pessoa julga e desconfia de outra pessoa e com “medo de existir”?

Não. Não. Não. Espero e luto para que não. Antes, por um Portugal que, sensível às vulnerabilidades e crente no potencial das suas pessoas, não tenha o “medo de existir” que o seu José Gil tão bem define. Um Portugal a inscrever todo o seu passado, na celebração e na reparação, para compreender e actuar no presente e se projectar no futuro. Um Portugal na antítese de uma ideia de grandeza que, em bom rigor, vive da desconfiança, do autoritarismo e da tentativa de aculturação de tudo e de todas e todos.

Um Portugal de equidade, inclusivo, aberto a si e ao Mundo… Um Portugal, qual, “grito que vem de longe e ainda não se calou” que Saramago descreveu na sua “Viagem a Portugal”.

Um Portugal com passado, de presente e para o futuro. Um Portugal, também, farol do Mundo.

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Ao redor... (Revista Sábado) Educação Psicologia

Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal

Quase 70 anos depois, é ainda célebre o discurso onde Eisenhower, ex-presidente dos EUA, disse: “Eu tenho dois tipos de problemas: os urgentes e os importantes; os urgentes, não são importantes; os importantes nunca são urgentes.” Anos mais tarde, Quino revisitou esta dicotomia através de uma tira onde a sua Mafalda se aproxima de dois homens que abrem um buraco e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais? | Não menina, de uma fuga de gás | Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, acaba por dizer.

“Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal”, 34º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre esta dicotomia transportada para prática da psicologia nas Escolas em Portugal, hoje. Sobre como a importante “promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos” é condicionada pela urgência das “situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde”.

O artigo pensa as rápidas e profundas transformações dos últimos anos na prática da psicologia em contexto escolar, particularmente pelo maior capital social e reconhecimento da psicologia; pelo crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos nestes contextos; e pelas alterações conceptuais na sua intervenção, de intervenções quase exclusivamente remediativas para uma prioridade a intervenções de índole preventiva e promotora. Transformações infelizmente não totalmente cumpridas porque a “ausência de resposta aos problemas de saúde mental das crianças e jovens nos serviços de saúde” não permite, muitas vezes, o foco da intervenção no importante e nos novos referenciais dos contextos escolares. Mais quando 1 em cada 3 alunas e alunos manifestam sofrimento psicológico, segundo dados de um estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos (com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses).

António Costa disse recentemente ser necessário um “grande investimento” com vista à “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde na resposta aos problemas de saúde mental”. No fundo, às situações hoje já problema, permitindo intervir-se no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde”.

O Dia Mundial da Criança evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços”. “Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.”

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Desafios da Psicologia Ordem dos Psicólogos Portugueses Pobreza e Desigualdade Psicologia

. final à pobreza

Imagine que esta manhã não tinha qualquer roupa lavada para vestir. Como seria? Que impacto teria no seu dia? Quão menos segura/o ou confiante se sentiria? Ou imagine que não tinha como se deslocar onde precisasse ou quisesse ir, que não podia aceder a um serviço de saúde de que necessita ou ter condições de minimamente aquecer-se em dias frios… Ou, até, que estava a dias do aniversário do seu filho e não tinha como assinalar a data, fazendo uma pequena festa de aniversário ou sequer comprando um pequeno presente.

Estas são situações do quotidiano de muitas e muitas pessoas Mundo fora e também em Portugal. Situações muito mais próximas de todas e todos nós do que por vezes parece ou, simplesmente, do que gostaríamos e que nos lembram que a pobreza não se restringe à gravíssima pobreza extrema. Nos EUA, com indicadores não particularmente distantes dos de Portugal, 6 em cada 10 pessoas viverão pelo menos 1 ano da sua vida em situação de pobreza relativa. Mais de metade das pessoas, realidade certamente próxima da portuguesa e autoexplicativa do porquê da erradicação da pobreza ser o 1º dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.

Este foi o mote para uma conversa com a Carla Rocha, para a rúbrica Quarto do Fundo, parceria da Renascença com a Ordem dos Psicólogos Portugueses, que partilho. Conversa que versa o “. final à pobreza”, projecto da OPP que será muito brevemente lançado e que visa a definição de uma estratégia e a implementação de um plano de acção para um mais efectivo contributo da ciência psicológica e das psicólogas e psicólogos para um ponto final à pobreza. Para um ponto final a um dos principais determinantes da (ausência de) saúde e, conforme hoje abundante e robusta evidência científica demonstra, para o mitigar da circularidade existente entre problemas de saúde psicológica (particularmente stresse, ansiedade e depressão) e situações de precariedade, exclusão e pobreza.

Falamos do porquê neste momento, ainda numa pandemia e quando se desenvolve uma absurda guerra, situações que invertem hoje um caminho de décadas de melhorias dos indicadores neste âmbito. Falamos do porquê do contributo da psicologia, pela dignidade, direitos humanos, equidade e coesão social e de como a compreensão do impacto das situações de pobreza no planeamento e tomada de decisão e da (auto)estigmatização e culpa associadas, são fundamentais às intervenções neste âmbito.

Falamos, ainda, das quatro dimensão e âmbitos da estratégia e do futuro plano de acção, com medidas e acções dirigidas à profissão; sociedade civil; decisoras e decisores; e cooperação nacional e internacional. Falamos, finalmente, no quanto creio possível um país e um Mundo sem pobreza e no papel que a mobilização da profissão e das psicólogas e dos psicólogos pode assumir enquanto contributo fundamental para um ponto final à pobreza.

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Ragusa. Urban Future, 2022.

Junho. Aproxima-se o Verão e, em conversas ou pesquisas, é possível que nos cruzemos com Dubrovnik. Esta cidade croata é hoje um dos principais destinos turísticos do Adriático, conhecida pela sua costa e pelo seu centro histórico, património mundial da UNESCO. É, hoje, menos conhecida por ter sido uma vibrante cidade, particularmente a partir do século XIV, quando se tornou cidade-Estado da República da Ragusa.

Com autogoverno, era uma cidade liberal e humanista à época, fazendo da ideia da liberdade das pessoas e na economia, princípio de organização incomum naquele tempo. Foi dos primeiros Estados a abolir a escravatura, a acolher pessoas refugiadas, a não encerrar o governo da cidade a um conjunto fechado de representantes e foi mesmo a primeira a criar uma estrutura de saúde pública, incluindo nas suas medidas períodos de quarentena, algo que salvou muitas vidas e foi fundamental para prosperar mesmo no período da peste negra.

Liberdade. Liderança. Abertura, acolhimento e inclusão. Ciência. Saúde e bem-estar. Inovação. Pessoas… Mudança. Alguns dos factores-chave para uma Ragusa vibrante, líder e exemplo para tantas cidades (por ex., no seu modelo de saúde pública) são, grosso modo, os mesmos factores-chave que cerca de 700 translações depois do Planeta Terra ainda determinam a mudança.

Adiadas que foram as edições de Lisboa (2020) e Roterdão (2021), estou em Helsingborg na conferência Urban Future. (https://urban-future.org), integrada na H22 City Expo (https://www.h22cityexpo.com). Exposição que nos apresenta uma Helsingborg que procura a cada dia aprofundar o seu caminho e investimento no sentido da sustentabilidade, inclusão e inovação, como sublinha o seu presidente de câmara, Peter Danielsson. O seu caminho para uma cidade mais inteligente e amiga das pessoas. Caminho que implica mudança. Que implica as pessoas, a sua mobilização e o seu envolvimento. Que implica “City Changers by Heart”, mote da conferência.

Uma oportunidade para (me) inspirar, primeiro, para “expirar” depois. Para sentir e partilhar. Para (me) impactar. Para (me) expandir. Para enfrentar a mudança e as barreiras e obstáculos que a ela se colocam. Para reforçar que, ao contrário do que muitas vezes se pensa, a mudança é premiada pelos e pelas eleitoras, não penalizada, particularmente quando ligada à sustentabilidade ambiental e mobilidade. Para contactar e conectar-me com a inovação, as boas práticas e exemplos que, contagiosos que são, podem e devem ser transladados (por isso a expressão atrás), com as devidas adaptações, para Portugal e para todo o Mundo. Para acreditar (ainda mais) e advogar (ainda mais) por cidades com mais qualidade de vida e possibilidade de bem-estar para todas e todos.

Foi a cidade (também Ragusa), enquanto lugar das pessoas e das comunidades, que ajudou a criar e influenciar o Mundo moderno, com tudo quanto de menos bom, mas também de bom, tem.

Mobilizemo-nos e envolvamo-nos na mudança da (nossa) cidade para mudarmos o (nosso) Mundo.

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O bem-estar em todas as políticas (Ao redor…; Sábado; 20.05.2022)

Foram três atletas que representaram Portugal nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, edição particularmente marcada pela possível invasão da Ucrânia pela Rússia, concretizada com a intensidade e brutalidade que hoje conhecemos apenas quatro dias após o seu final. Creio não errar se afirmar que não serão muitas as leitoras e leitores deste texto que conseguem nomear três cidades do país mais medalhado desses Jogos Olímpicos. Com pouco mais de metade dos e das habitantes de Portugal e com uma comitiva de atletas consideravelmente mais pequena face a outros países, a Noruega manteve-se como o país mais medalhado (já o fora em 2018), batendo o recorde de medalhas de ouro nuns só Jogos Olímpicos de Inverno.

Apesar da neve abundante e das condições propícias à prática de desportos de Inverno, que aliás partilha com muitos outros países, muitos deles com muito mais população e atletas, este sucesso não se esgota nestas modalidades (veja-se, entre outros exemplos, Erling Haaland no futebol). Antes resultará, em muito, de políticas diversas e da sua carta dos Direitos das Crianças no Desporto, orientação que define que as crianças devem ter experiências positivas sempre que praticam desporto, que sugere a prática e a experimentação de diferentes modalidades e que não permite, antes dos 13 anos, classificações, pontuações ou rankings, procurando estimular a alegria, a relação e o bem-estar associado ao Desporto para todas e para todos ao longo de toda a vida.

A promoção e o investimento na alegria, na relação e no bem-estar, por oposição à rápida especialização, profissionalização e competitividade, como pista para o sucesso desportivo. Como para o sucesso educativo, como cada vez mais evidência científica confirma, desde os ciclos de estudos iniciais ao ensino superior. Como para a (nossa) produtividade laboral, como todas e todos já sentimos. Como para o desenvolvimento das nossas sociedades e para a confiança das pessoas e das comunidades nas suas instituições e nas pessoas.

Já nos últimos dias de 2019, aquando da sua primeira candidatura a presidente do PSD, Luís Montenegro dizia “crer que a política tem de ser medida precisamente pelo bem-estar” propondo “a adesão de Portugal a um novo índice: o Índice de Felicidade Interna Bruta”. Na nova candidatura que hoje abraça, volta ao tema, discordando do facto de hoje “medirmos o bem-estar das pessoas com base apenas no Produto Interno Bruto (PIB)”, dizendo não “temer a palavra felicidade” e reafirmando a intenção de criar um “Índice de Felicidade”. Acompanho Luís Montenegro na perspectiva de que a política e as políticas (públicas) devem, essencialmente, atender ao bem-comum e à possibilidade de bem-estar para todas e para todos e na consideração de que o PIB de um país é uma medida insuficiente para avaliar o nível e o progresso (ou não) no bem-estar das populações. Manifesto, porém, as minhas reservas, também conceptuais, em torno de índices referentes à felicidade e, neste âmbito, creio mais sustentada a posição do seu adversário nestas eleições (Jorge Moreira da Silva) que, além de apontar à melhoria considerável do posicionamento do nosso país no ranking do Desenvolvimento Sustentável e do Desenvolvimento Humano, ambos da ONU, aponta também como meta (ambiciosa, é certo, mas que nos guia) que Portugal possa vir a ocupar uma das 3 primeiras posições no Índice de Bem-Estar da OCDE, organização junto da qual trabalhou nos últimos anos.

Este índice resulta da combinação de 11 dimensões e, até simbolicamente, permite uma visão mais clara do quão complexo e muito impactante é o conceito de bem-estar. Das condições de habitação, ao rendimento; do trabalho e emprego de qualidade, à conciliação entre vida pessoal e profissional e ao suporte e conexão social; da educação e formação à qualidade do meio ambiente; do envolvimento cívico e participação democrática ao acesso a cuidados de saúde de qualidade; da percepção de satisfação com a vida à segurança. 11 dimensões que respondem a uma questão simples, mas chave do bem-estar: “como vai a (sua) vida?” 11 dimensões que tornam clara a multidimensionalidade do conceito, tal como tornam claro que o bem-estar (e o impacto das políticas públicas nele) vai além do Produto Interno Bruto sendo, naturalmente, por ele condicionado, mas também condicionando-o. Que o bem-estar é mais que a felicidade da pessoa ou das pessoas num determinado momento sendo, naturalmente, por ela condicionado, mas condicionando-a.

Saudando a relevância de ambos os candidatos a líder do maior partido hoje na oposição afirmarem central nas políticas públicas e na avaliação do seu impacto o bem-estar, e o que daí também pode resultar para o debate público e para a acção do governo e dos parceiros sociais, creio importante sublinhar três transformações relevantes na sociedade portuguesa neste domínio. Desde logo o capital social presente e futuro relativo à aspiração das populações a maior possibilidade de bem-estar para todas e todos e a pressão que isso traz e trará à sociedade e aos decisores e decisoras para o considerarem nas suas propostas e acção. Também o caminho de mudança de paradigma de medidas e políticas sociais que visam e apontam limites mínimos (de quotas, de rendimentos, de acesso), ainda absolutamente fundamentais, para uma narrativa, medidas e políticas de promoção do bem-estar. Medidas e políticas avaliadas pelos seus impactos no bem-estar, e não apenas por indicadores económicos ou de acesso, logo mais dirigidas às especificidades e aspirações da sua população alvo e mais desenhadas considerando o envolvimento em todas as fases das e dos seus destinatários. Finalmente, o evoluir para um modelo e para uma abordagem às políticas públicas onde a cada nova proposta, qualquer que seja a área, seja considerado e estudado o impacto na dimensão do bem-estar, numa perspectiva da possibilidade de bem-estar em todas as políticas. Bem-estar a que acrescento a saúde mental, nele fundamental. Bem-estar num país que poderá ter factores menos facilitadores de um crescimento significativo (e continuado) do PIB nos próximos anos, mas que tem inúmeros factores facilitadores de um crescimento significativo da possibilidade de bem-estar de todas e de todos e, até, deste alavancar o seu PIB.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, pensar o desenvolvimento de um país face aos desafios do presente e do futuro, e até à necessidade de alteração de paradigmas de comportamento e consumo da sua população, tendo por referência principal o seu Produto Interno Bruto é potencialmente falacioso e promotor de “águas de bacalhau”. Ao contrário, além do Bacalhau (da Noruega), feito produto nacional de qualidade e cartão de visita, sugiro importarmos a centralidade do bem-estar das políticas (da Noruega), fazendo-o, também, produto nacional e cartão de visita. Desenvolvendo-o a partir de uma estratégia onde todos os sectores de governação o considerassem e priorizassem, onde se estabelecessem parcerias com entidades, organizações da sociedade civil e empresas, onde se pensasse o quão determinante é hoje o bem-estar na prevenção e na promoção nas áreas económicas, sociais ou ambientais. Onde se apostasse no seu valor na captação de pessoas e investimentos para o país, na promoção da qualidade de vida, da equidade e da coesão social e, afinal, no quão decisivo é na resposta à pergunta chave: “como vai a (sua) vida”?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 20.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/o-bem-estar-em-todas-as-politicas

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Enough is enough.

“March for our lives”. Na sequência do massacre numa Escola de Parkland (Flórida), a 24 de Março de 2018, participei numa das maiores marchas de sempre advogando por alterações legislativas no acesso a armas de fogo nos EUA. Com cerca de 1 milhão de pessoas – e integrando uma iniciativa da American Psychological Association | “Gun Violence is a Public Health Crisis” – percorri a Pennsylvania Avenue (Washington) com um propósito e uma esperança forte de que nada poderia ficar igual depois de Parkland. “Never again”, gritava-se, sentia-se, mas…

Podia. Ontem, 24 de Maio de 2022 (4 anos e 2 meses depois), morreram pelo menos 19 crianças e 2 professoras num novo massacre numa Escola do Texas, que se sucede a outros, em diferentes contextos e com diferentes motivações. Massacre que nos confronta com as palavras de Rick Santorum, outrora Senador e concorrente à nomeação a candidato presidencial Republicano, quando, no dia da “March for our lives”, disse que as/os estudantes deveriam “aprender como lidar com um atirador em vez de pedir aos legisladores para resolver os seus problemas”. Nos confronta com as/os representantes da NRA que, também nesse dia, nos apelidaram de “manipuladoras/es” e que nos e me chamaram “radical” por participar na marcha. Radical…

A violência resultante do uso de armas (de fogo) é uma crise de saúde pública. Provoca perda, dor, sofrimento, luto. Impacta o sistema de relações da comunidade, é potencialmente traumática, a curto, mas também a médio e longo prazo, tem determinantes e existem acções que, também potencialmente, a podem prevenir ou mitigar. É hoje impossível, até pela coincidência de datas (exactamente 3 meses após o início da nova e brutal invasão pela Rússia da Ucrânia), não associarmos à perda, dor, sofrimento e luto resultantes da Guerra e aos eventos potencialmente traumáticos que dela resultam para diferentes pessoas que de diferentes formas a vivenciam.

Sobre isso e sobre “quem largou tudo para ajudar refugiados” (https://onovo.pt/internacional/o-impacto-em-quem-largou-tudo-para-ajudar-os-refugiados-IB10557834), conversei com a jornalista Sílvia Abreu do NOVO Semanário discutindo os impactos sociais e emocionais, potenciais consequências destes processos e qual o contributo possível da psicologia. Como fiz em entrevista ao Porto Canal (https://youtu.be/Onwh3MPmrDY) a propósito do acolhimento de pessoas em condição de refugiadas, da importância de atendermos às nossas próprias condições e à necessidade de nos adaptarmos aos ritmos/vivências e guardarmos espaço e tempo de cuidado, atenção e validação das pessoas numa situação de especial vulnerabilidade.

“Já chega!”, disse Kamala Harris, acrescentando: “Como nação temos de ter a coragem para agirmos e percebermos o nexo daquilo que é uma política pública razoável e sensata, para garantirmos que algo assim nunca mais volta a acontecer.” Que estas perdas, que este sofrimento, resultado da Guerra ou de um Massacre, não se repita.

Ideia “radical” dizem…