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COVID-19 Desafios da Psicologia

Posfácio – A Psicologia da Pandemia | Compreender e enfrentar a COVID-19

Quem me é mais próximo sabe que guardo momentos da minha vida e das minhas experiências de vida, sob a forma de pequenos papéis (faturas, bilhetes, cartões), no interior dos livros que estou a ler. Marcam, pelo posicionamento, páginas com passagens significativas dos livros. Marcam, no tempo, momentos significativos da minha vida. São fragmentos que me constroem e que fazem de mim o que sou.

Nas últimas décadas, a ciência psicológica e a investigação em Psicologia consolidaram-se um pouco por todo o mundo, pelo seu crescimento significativo e por uma mais evidente aplicação a diferentes fenómenos e contextos de vida. Creio que, em Portugal, embora mais tardio, este desenvolvimento se intensificou recentemente. A partilha da ciência psicológica e a sua aplicação por mais de duas dezenas de milhares de psicólogos, por todo o país, constroem uma Psicologia, hoje, mais acessível aos cidadãos (embora ainda de forma insuficiente), nas suas diferentes etapas desenvolvimentais, nos seus diversos contextos e aquando dos seus mais significativos acontecimentos de vida. Constroem uma Psicologia que pode e urge informar mais as políticas e os decisores e mobilizadores sociais, visando o bem-estar de pessoas e comunidades e a promoção da equidade e coesão social. Dezenas de milhares de psicólogos que, na investigação, na docência e formação, na promoção da literacia e na sua prática profissional quotidiana, multiplicam e disseminam fragmentos que compõem uma Psicologia ao serviço das pessoas e colocam a ciência psicológica como ciência essencial, na resposta aos complexos desafios societais contemporâneos.

Desde o passado dia 11 de março – data da então aguardada declaração, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), da passagem da epidemia de COVID-19 a pandemia, resultado dos “níveis alarmantes de propagação e inação” –, vivemos um momento histórico, que será amplamente estudado e recordado. Momento marcado pela exigência, associada à adversidade, à incerteza e às crises de saúde pública e socioeconómica global, e pelo grande desafio com que as pessoas, em especial as mais vulneráveis, se confrontaram e confrontam. Coletivamente, partilhamos imagens, sensações, emoções, comportamentos, frases do período que vivemos. São fragmentos que definem o que vem sendo apelidado de “novo normal”.

Nas páginas que antecedem estas palavras há uma síntese do que atrás refiro. De como vivemos um momento excecionalmente desafiante. De como a ciência, não apenas a ciência psicológica, mas com fortes contributos seus, e os profissionais, não apenas os psicólogos, mas com fortes contributos seus, se organizaram para, rapidamente, apoiarem as pessoas, pelo estudo e pela intervenção, particularmente as mais vulneráveis, nesta grave crise que vivemos e neste desafio societal global que, de rompante, nos interpelou. Duas dezenas de textos, em torno de diferentes fenómenos e contextos, associados à COVID-19, reunindo um conjunto de pessoas que, a partir de diferentes papéis, emprestaram o seu conhecimento, a sua determinação e o seu empenho aos cidadãos, às comunidades e ao país. Fazem-no agora, uma vez mais, disponibilizando estes fragmentos, que constroem um importante contributo para a reflexão, para a literacia e para o desenvolvimento de narrativas (individuais e coletivas), essenciais à mudança e à adaptação ao momento que vivemos. Fulcrais à viagem.

Quem me é mais próximo sabe que gosto de viajar e de, em viagem, ler sobre viagens. Há exatamente um ano – agosto de 2019 –, lia, no Viagens [1], uma interessante passagem, que sugeria as três perguntas do viajante (quando um encontra outro): “De onde és?”; “De onde vens?”; “Para onde vais?”. O momento viagem é, assim, descrito como uma etapa, uma transição, onde a história (és), o momento que a antecede (vens) e sucede (vais) são caracterizadores e identitários. Nos últimos meses, tenho (creio que, de uma ou de outra forma, todos temos) refletido bastante sobre esta etapa que vivo, suportado na minha história, no ponto em que me encontrava pré-pandemia e em como me vejo nas próximas semanas e meses. Nessa reflexão, uma constante: o propósito, elemento fulcral da viagem e da adaptação, não apenas, mas também a partir do meu papel, enquanto coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), e do meu pequeno (mas comprometido) contributo para o já menos pequeno (e igualmente comprometido) contributo da OPP, no momento que vivemos. Contributo expresso em múltiplas iniciativas, dirigidas a cidadãos (com a publicação de mais de duas centenas de produtos, no âmbito da promoção da literacia, ou o apoio à criação da linha de aconselhamento psicológico do Serviço Nacional de Saúde – SNS24), decisores e mobilizadores sociais (com contributos na área da comunicação de risco e crise, desinformação e bem-estar ou com a criação de uma rede de agentes, para a promoção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais), psicólogos (com reforço de medidas de autocuidado e com a disponibilização de diversos produtos de apoio à prática, reflexão e formação) e a outras entidades nacionais (com apoio à linha de aconselhamento psicológico da Câmara Municipal de Lisboa, ou da Ordem dos Farmacêuticos) e internacionais (com apoio a iniciativas em Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe).

Cerca de 50 dias depois de ler as perguntas do viajante, a “psicóloga viajante” Olga Tokarczuk era galardoada com o prémio Nobel da Literatura de 2019. Depois da Economia (Daniel Kahneman, em 2002) e da Medicina (Edvard e May-Britt Moser, em 2014), um terceiro Nobel para psicólogos(as), nas últimas duas décadas. Como uma simbólica confirmação da saliência do conhecimento da Psicologia e da sua aplicação a diferentes contextos, suportada pela sua história, pela sua evolução e que já a definia pré-pandemia. História e evolução assentes, creio, num propósito: a procura e o reforço da identidade dos psicólogos que, como Miguel Ricou, Presidente da Comissão de Ética da OPP, recentemente assinalava numa edição da OPP[2],  “facilite a comunicação com todos, (…) evite expectativas irrealistas, desmistifique a intervenção psicológica e facilite o cumprimento do papel dos psicólogos”.

Cerca de 2 meses após o anúncio do Nobel da Literatura de 2019, eram conhecidos e, depois, comunicados os primeiros casos de COVID-19. A história, as experiências anteriores e todo o conhecimento científico e tecnológico já disponível foram insuficientes para travar uma evolução que nos trouxe à pandemia, à grave crise, ao confinamento, ao sofrimento, à incerteza dos próximos meses e a um antes e depois do novo coronavírus. Contudo, trouxe também uma oportunidade para outro reconhecimento da ciência e dos profissionais de saúde, para a promoção da literacia em saúde (e em saúde psicológica), para o reconhecimento da importância do comportamento e dos processos de tomada de decisão, e para a necessidade de promover a coesão social e o apoio aos mais vulneráveis.

A Psicologia da Pandemia permite-nos, igualmente, pensar a nossa história e refletir sobre o ponto em que estamos e para o qual podemos e devemos caminhar. Pleno de oportunidade e propósito, pensa a pandemia nas suas consequências múltiplas, com enfoque na ciência e na ciência psicológica, em particular, e nos contributos dos psicólogos na advocacia e informação, junto de decisores, e na elaboração de políticas, na prevenção e no papel que podem assumir na resposta a este e a outros desafios, a partir dos seus diversos contextos de intervenção (quer seja na saúde, na educação, nas empresas, nas estruturas residenciais para pessoas idosas ou outras instituições sociais, nos estabelecimentos prisionais, nas associações ou clubes ou em instituições comunitárias). Pleno de oportunidade e propósito porque surge num momento de maior reconhecimento da Psicologia e da importância da promoção da saúde psicológica e mental para o bem-estar. Um momento de afirmação da Psicologia como principal ciência do comportamento e das ciências do comportamento como área principal na resposta aos desafios societais. Um momento de afirmação da Psicologia na saúde pública. Um momento de afirmação da Psicologia na equidade, coesão social e bem-estar, os seus propósitos últimos.

 

Tiago Pereira

Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses

 

[1] Tokarczuk, O. (2019). Viagens. Lisboa: Cavalo de Ferro.

[2] Matos, M. (2020). O futuro de quase tudo. Lisboa: Ordem dos Psicólogos Portugueses.

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Comportamento COVID-19 Desafios da Psicologia

estar ou não estar, eis a questão.

“O desinfectante acaba com o vírus (…) como injectar para dentro ou fazer uma limpeza?”.

A cara de Birx, quando viu Trump dizê-lo e sugerir a “irradiação do corpo com luz ultravioleta” como tratamentos da COVID-19, diz tudo do momento que viveu e que vivemos.

Momento em que apesar (?) do acesso crescente a informação, a desinformação galopa e pessoas por todo o Mundo morrem por ingerirem metanol ou dióxido de cloro com este fim.

Momento em que as redes sociais, vivendo como Christakis & Fowler assinalam no “Connected” da conexão e contágio, propagam a uma velocidade até 6 vezes superior desinformação face (à aborrecida) informação.

Momento em que mediadores como jornalistas,cientistas ou médicos são ultrapassados pelo suposto “igual para igual” e “tudo é válido” do motor de busca.

Junte-se-lhe, como reflectido no “the social dilemma”, softwares com fins discutíveis que a cada dia melhoram com base em dados e no conhecimento sobre as “vulnerabilidades”, tomada de decisão e comportamento das pessoas.

Urge que promovamos literacia comportamental, de tomada de decisão e potencial de inoculação aos cidadãos. Sem eles, sem decisores sensibilizados e sem psicólogos a contribuir (até pela nossa responsabilidade nesta matéria), a balança não se equilibrará a mal das pessoas e da sociedade.

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COVID-19 Debate à 5ª Desafios da Psicologia

Debate à 5a – “A Psicologia nos Cuidados de Saúde Primários – Uma Psicologia próxima”

Keep calm and carry on.

Esta frase – e a imagem do cartaz com a coroa tão alterada para diversos and – foi criada e impressa com o objectivo de ser colocada nas ruas das cidades inglesas como elemento motivacional caso a Alemanha conseguisse invadir o país na 2ª Guerra Mundial. Mantenha(mos) a calma e…

Amanhã decorrerá o 13º #debateà5a. Live da OPP por mim promovido e moderado que procura aprofundar temas que cruzam (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote de promover mais perspectivas. Esta edição – “A Psicologia nos Cuidados de Saúde Primários (CSP) – Uma Psicologia próxima” – conta com Rita Correia e Sandra Oliveira.

Na semana em que se comemora o 41º aniversário do SNS, reflectiremos sobre a Psicologia nos CSP a partir das suas dificuldades, desafios e potencial. Da carência de profissionais (hoje agudizada pela crise que vivemos e viveremos), ao desafio de se investir e edificar uma Psicologia próxima.

Próxima, por acessível aos cidadãos, particularmente os com maiores vulnerabilidades; por capaz de responder de forma contingente (precoce) ao problema; por relacionada com outras áreas/serviços; por de futuro, assumindo o seu papel na prevenção, desenvolvimento das pessoas, coesão social e bem-estar.

Assim… continue(mos).

17.09.20; 22h; aqui

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COVID-19 Desafios da Psicologia Educação

A cidade como espaço de aprendizagem ao longo da vida

No “O Futuro por contar”, Krastev afirma que a ciência psicológica tem demonstrado que as pessoas voltam a falar as suas línguas maternas em momentos de grande perigo ou incerteza. Recorda e recordou-me um livro que li há muito que focava um dos principais perigos para as espiãs soviéticas colocadas na Alemanha governada pelo “partido nazi”: o parto, porque, involuntariamente, “falavam” / “gritavam” o seu russo materno.

Voltamos à língua materna. Voltamos a “casa”. Ao que nos é seguro. Ao que nos serve de referência e, não raras vezes, confere o propósito essencial a darmos significado à experiência (por vezes limite) que, desafiando-nos, nos traz incerteza.

Na dialética possível da imensa “perda” associada ao período que vivemos, em particular para as pessoas com maiores vulnerabilidades, algum do “ganho” que a situação que vivemos poderá permitir advirá da reflexão sobre a importância do retorno ao que nos serve de referência e ao lugar (cidade) que pode construir-se e desenvolver-se enquanto espaço (cidade) educador(a). Sobre isso e com o mote (“A cidade como espaço de aprendizagem ao longo da vida”) reflecti em Setúbal na passada semana, moderando uma mesa onde o Luís Oste apresentou o impactante e sólido projecto de Mação e a Ana Luísa Pires a complexidade dos fenómenos educativos.

Aqui deixo, a quem possa interessar (a partir do minuto 74).

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COVID-19 Debate à 5ª Desafios da Psicologia

Debate à 5a – Saúde Psicológica – O “conteúdo essencial” do novo ano lectivo

“Esta geração”, dizia o Primeiro-Ministro em Junho, “não só não perdeu o ano, como não perdeu a oportunidade de aprender”, referindo-se ao ano lectivo que terminava.

A geração “C” (Krastev) vive um enorme desafio que interrompeu um modo de vida e um dos principais organizadores da vida em sociedade e em relação – o “ir à Escola”. Aprendeu,aprenderá mas…

Amanhã decorrerá o 12º #debateà5a. Live da OPP por mim promovido e moderado que procura aprofundar temas que cruzam (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote de promover mais perspectivas. Esta edição – “Saúde Psicológica – O “conteúdo essencial” do novo ano lectivo” – conta com Diana Alves e Vanessa Neves.

A poucos dias do regresso à Escola de centenas de milhares de alunas/os e restante comunidade educativa (professoras/es, psicólogas/os, famílias,…) debateremos o “outro lado” e os impactos no desenvolvimento e saúde psicológica, focando o mais saliente que nunca papel das/os psicólogas/os em contexto escolar e a importância da conciliação das (ainda fundamentais) medidas “sanitárias” com as (agora ainda mais fundamentais) medidas de saúde psicológica.

“As Escolas”, dizia o primeiro ministro esta semana, “não podem voltar a encerrar”. Pela equidade. Pelo bem-estar de todas/os.
10.09.20; 22h; aqui

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COVID-19 Psicologia

VI Encontro Anual de Educação de Setúbal

Outubro de 2007, Santa Maria da Feira.

Amanhã, Setúbal.

321km, 672 semanas e uma inesperada pandemia de distância. A representação de Évora no II Congresso da Rede de Cidades Educadoras apresentando o projecto que enquanto psicólogo, ainda no meu 1º ano de actividade profissional, coordenava. A moderação que farei do debate “A cidade como espaço de aprendizagem ao longo da vida”, enquanto psicólogo coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da OPP. Cidades castelo, fortaleza. Cidades Educadoras.

O que diferencia e o que une, a grande riqueza e factor de desenvolvimento da comunidade, da cidade que educa, da nossa “casa”. Casa (Cidade Educadora) significativa a que regresso num momento em que, de uma ou de outra forma, na incerteza que vivemos e na adversidade com que nos confrontamos, todos procuramos voltar. Casa, espaço de referência, representação, segurança. Espaço de propósito, chave nestes momentos.

Conforme o preâmbulo da Carta das Cidades Educadoras, não se procuram “soluções unilaterais simples” antes se “aceita a contradição e propõe processos de conhecimento, diálogo e participação como o caminho adequado à coexistência na e com a incerteza”. Nada mais adequado ao que (e como) amanhã discutiremos, no momento que vivemos.

09.09.2020, aqui

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COVID-19 Democracia Desafios da Psicologia

PanInformação

Na mudança do “nosso” 04.09.2020 (#dianacionaldopsicologo) para hoje, o Observador publicou o “PanInformação”.

Artigo que reflecte sobre a mudança e as condições para a mudança, procurando que ao discurso cada vez mais generalizado de que “temos que nos habituar a um novo normal” se acrescente a percepção pública de que “esse novo normal não pode ser o mesmo para todos e que a forma, a capacidade e a velocidade de cada um para fazer essa transição e mudança não é, seguramente, a mesma”. Nele defendemos que o momento de incerteza que vivemos deve suscitar “uma reflexão mais profunda sobre o desenvolvimento das pessoas e a promoção de condições psicológicas e sócio-económicas que permitam e ajudem as pessoas na adaptação e mudança perante razões não razoáveis e acontecimentos de vida significativos (não apenas uma pandemia, mas uma perda, um divórcio, uma doença, uma situação de desemprego)”.

Com a série “Pan”, eu e o Miguel Ricou procuramos um maior (re)conhecimento do contributo da ciência psicológica em fenómenos hoje relevantes, advogando por uma Psicologia ao serviço da liberdade, auto-determinação, democracia e coesão social. Aqui encontram os restantes “PandÉtica”, “PanDemocracia”, “PanResposta”, “PanMemória”, “PanLegitimidade”, “PanPopulismo” e “PanConspirações”.

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COVID-19 Desafios da Psicologia

PanConspirações

Q.

Letra normalmente associada ao nível de acesso máximo a informação classificada. Q. Assinatura utilizada por um anónimo (ou grupo de anónimos) em fóruns como o 4chan desde o final de 2017 para veicular as primeiras “informações” acerca da “tempestade”. Momento em que, por ação de Donald Trump e seus apoiantes, predestinados e únicos capazes de combater uma poderosa rede, vários democratas, incluindo Barack Obama e Hillary Clinton, a par de outras personalidades Americanas como Lady Gaga ou Tom Hanks, serão detidos pela liderança / participação numa organização secreta (um “deep state”) que promove tráfico e abusos sexuais de menores, atividades satânicas e conluios em negócios ilegais com diversos Estados, incluindo a Rússia.

Inicial de Qanon, teoria ou conspiração hoje disseminada pelos EUA por apoiantes de Donald Trump, defendida e promovida em eleições por candidatos e eleitos locais e nacionais, com marca e merchandisingdiverso associado e discutida abertamente em diversos círculos da sociedade civil e na comunicação social.

Em tempos como o que vivemos, à incerteza provocada pela evolução da pandemia, junta-se a ausência de conhecimento sobre o vírus, a ansiedade decorrente das inúmeras notícias negativas com as quais fomos confrontados nos últimos meses, e esperamos vir a ser confrontados nos próximos, e uma sensação de falta de controlo por parte dos cidadãos, tudo “condimentos” para o aparecimento de (e o envolvimento em) narrativas “contra-oficiais” que garantem uma ilusão de controlo e, habitualmente, uma explicação para ações menos adequadas de pessoas / grupos que quem as dissemina ou promove apoiam.

Narrativas que assentam em inimigos (reais ou imaginários) externos à pessoa ou ao grupo e que funcionam como cimento para o vínculo à narrativa e/ou ao grupo que a promove. Narrativas que crescem em círculos ao sabor dos medos e das vulnerabilidades de quem a elas adere, procuradas em fóruns ou espaços (reais ou virtuais) de encontro, de proximidade e de confiança cega – porque a referência e a reverência têm mais valor que a procura da verdade, a ciência ou mesmo a razoabilidade. Narrativas que se desenvolvem alicerçadas em estados afetivos indutores de mecanismos específicos de controlo cognitivo sobre o processo de escolha, que quem as espalha utiliza procurando manipular os outros.

A conspiração vive, portanto, da polarização que se previne com diálogo e com a promoção de indivíduos e comunidades mais empáticas. A conspiração vive do obscurantismo que se previne com mais conhecimento disponível e com mais literacia. A conspiração vive da vulnerabilidade de indivíduos e de comunidades que se previne com maior capacitação e menor desigualdade. A conspiração vive da repetição e procura do mesmo ângulo que se previne com atividades e algoritmos que através do “paternalismo libertário” orientem ferramentas tecnológicas para estimularem acesso ao “diferente” e ao contraditório. A conspiração vive do contágio que se previne com inoculação.

É necessário investir no (re)conhecimento das emoções, que estão no centro da nossa vida mental e dos processos de decisão. Há mais de 20 anos António Damásio fez referência aos “marcadores somáticos”, ou seja, ao que sentimos e que tantas vezes nem percebemos que sentimos, como base da orientação da pessoa nas suas escolhas. Sendo a democracia baseada em escolhas livres e conscientes das pessoas, só poderá ser plena se poucos não tiverem possibilidade influenciar muitos no sentido que desejam a partir da exploração dos seus estados afetivos.

É também necessário ter presente que a comunicação mediada pela tecnologia, particularmente as redes sociais, é distinta remetendo para estados emocionais diversos e propícios a comportamentos diferentes daqueles que adotamos na comunicação face a face com outras pessoas. Aqui o “certo”, o correto, assume-se muitas vezes como dogma percursor de clivagens “nós” vs “eles”, da linguagem dos amigos vs inimigos e as sensações do medo e da urgência. Sendo a democracia baseada na liberdade, o paradigma da verdade deve avançar da procura da “razão” e de estarmos sempre “certos” para um maior acolhimento das “verdades” dos outros.

Finalmente, sendo a democracia assente no respeito pela diversidade, é essencial o reconhecimento que os movimentos discriminatórios das pessoas são normalmente automáticos e não-voluntários. Por isso mesmo não se resolvem a partir de imposições ou acusações de ignorância ou com discussões bipolares. São resultantes de aprendizagens não-conscientes, podendo ser trabalhados, e progressivamente alterados, a partir desse reconhecimento voluntário e do acréscimo de atenção e cuidado aos processos de tomada de decisão face a pessoas “diferentes” de nós.

Muito, muito naturalmente, se tem refletido sobre as consequências sanitárias da pandemia. Também muito, muito naturalmente, se tem refletido sobre as consequências sócio-económicas da pandemia. Pouco, muito pouco, se tem refletido sobre as consequências para as democracias, liberdades e para o nosso modo de vida da pandemia. Pouco, muito pouco, se tem pensado nas vulnerabilidades individuais e comunitárias como terreno fértil ao autoritarismo, totalitarismo e às conspirações. Fenómenos promovidos por indivíduos e grupos que utilizam conhecimento, hoje significativo, de como as pessoas tomam decisões e do que determina o seu comportamento. Fenómenos que deveriam ser prevenidos pelos Estados e pela sociedade civil dos países utilizando conhecimento, hoje significativo, de como as pessoas tomam decisões e do que determina o seu comportamento.

A ciência psicológica aí está, à disposição e ao serviço da democracia e da liberdade.

Tiago Pereira & Miguel Ricou

in Visão; 05.08.2020; aqui

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COVID-19 Desafios da Psicologia

RUP

No ano que empresta o número ao nome da doença cuja pandemia nos desafia (COVID-19), o 2º filme mais visto em Portugal interpelou-nos sobre a saúde psicológica e mental. Joker, filme com avaliações para todos os gostos, potenciou a discussão sobre como a sociedade se confronta e organiza perante a saúde (e doença) que não física, estimulando a reflexão individual (de quem o viu e/ou discutiu) e colectiva sobre o tema.

Sabemos fundamental a reflexão para a criação de narrativas. Creio fundamental que na questão da saúde psicológica possamos promover uma narrativa (individual e colectiva) que permita maior saliência à sua importância, mais literacia e compreensão e menos estigma. Analogamente, creio fulcral que o possamos fazer (reflectir, individual e colectivamente), com o mesmo intuito, sobre a pandemia que vivemos nas suas consequências directas mas também indirectas.

Para isso procuro contribuir nesta entrevista à RUP / ANEP (Associação Nacional de Estudantes de Psicologia) (a quem agradeço o convite e a recordação das memórias que dela tenho) porque, se como Arthur Fleck (Joker) refere no filme (“o pior de ter doença mental é as pessoas esperarem que nos comportemos como se não a tivéssemos”), também assim o é com o momento que vivemos.

Aqui. 

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PanConspirações

No início da década que termina no actual contexto de incerteza, foi anunciado um cabo transatlântico entre a costa leste dos EUA (NY) e Inglaterra (LON). Objectivo: ganhar 5 milissegundos de velocidade de troca de dados; Preço: $300M; Modelo de Negócio: trocar informações da evolução das cotações nas bolsas de valores e realizar transacções antes dos concorrentes.

A utilização da informação e conhecimento sempre permitiu vantagem. Desequilíbrio. Tal sucede(u) também com o conhecimento da ciência psicológica, num e noutro sentido e nem sempre pelo bem-comum. Tenho sempre presente como se utilizaram “testes de inteligência” com fins de discriminação racial, como se desenharam programas de testemunho (e tortura) da CIA ou, recentemente, perfis (profiling) via redes sociais com fins políticos.

Com a série “Pan”, eu e o Miguel Ricou procuramos um maior (re)conhecimento do contributo da ciência psicológica em fenómenos hoje relevantes, advogando por uma Psicologia ao serviço da democracia, liberdade e auto-determinação.

Aqui neste “PanConspirações” reflectimos sobre a emergência e disseminação das conspirações, seus impactos e como se poderiam prevenir.

Aqui, neste site, encontram os restantes “PandÉtica”, “PanDemocracia”, “PanResposta”, “PanMemória”, “PanLegitimidade” e “PanPopulismo”.