Categories
COVID-19 Democracia Desafios da Psicologia

PanInformação

Na mudança do “nosso” 04.09.2020 (#dianacionaldopsicologo) para hoje, o Observador publicou o “PanInformação”.

Artigo que reflecte sobre a mudança e as condições para a mudança, procurando que ao discurso cada vez mais generalizado de que “temos que nos habituar a um novo normal” se acrescente a percepção pública de que “esse novo normal não pode ser o mesmo para todos e que a forma, a capacidade e a velocidade de cada um para fazer essa transição e mudança não é, seguramente, a mesma”. Nele defendemos que o momento de incerteza que vivemos deve suscitar “uma reflexão mais profunda sobre o desenvolvimento das pessoas e a promoção de condições psicológicas e sócio-económicas que permitam e ajudem as pessoas na adaptação e mudança perante razões não razoáveis e acontecimentos de vida significativos (não apenas uma pandemia, mas uma perda, um divórcio, uma doença, uma situação de desemprego)”.

Com a série “Pan”, eu e o Miguel Ricou procuramos um maior (re)conhecimento do contributo da ciência psicológica em fenómenos hoje relevantes, advogando por uma Psicologia ao serviço da liberdade, auto-determinação, democracia e coesão social. Aqui encontram os restantes “PandÉtica”, “PanDemocracia”, “PanResposta”, “PanMemória”, “PanLegitimidade”, “PanPopulismo” e “PanConspirações”.

Categories
Debate à 5ª Desafios da Psicologia Psicologia

Psicologia em Portugal: pensar a sua história, projectar o seu futuro

A vida… A vida… “só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para a frente”. Frase atribuída a Kierkegaard, percursor do existencialismo, corrente que “implica” a pessoa na sua realização e na procura de um sentido para a sua existência.

Amanhã, com a sua 11ª edição, regressará o #debateà5a. Live da Ordem dos Psicólogos Portugueses por mim promovido e moderado que procura aprofundar temas que cruzam (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote de promover mais perspectivas. Esta edição, “Psicologia em Portugal: pensar a sua história, projectar o seu futuro”, conta com Manuel Viegas Abreu e Samuel Antunes. 

A poucas horas da comemoração (3ª após aprovação em 2018 pela Assembleia da República) do #dianacionaldopsicologo, procuraremos reflectir e compreender a Psicologia hoje, olhando o seu passado e desenvolvimento enquanto ciência e profissão. Olhando e pensando o seu passado, projectando o futuro…

Um futuro da Psicologia que nos implica nas suas realizações e na construção permanente de uma identidade, investigação e prática que, dando sentido à sua existência, responda aos complexos desafios societais contemporâneos e promova a equidade, a coesão social e o bem-estar de todos.

03.09.20; 22h; aqui.

Categories
Psicologia

simbólico.

O simbólico “caminha” connosco em toda a nossa vida, conforme caminhou e caminha na história e desenvolvimento da Psicologia enquanto ciência e enquanto profissão.

O e os símbolos – elementos concretos que representam e/ou evocam algo menos concreto – complexificam (mas embelezam) a vivência humana e são, ainda hoje, cerca de um século depois de Lacan e Jung os terem estudado e descrito, elementos importantes na Psicologia. Elementos importantes na nossa vida.

Pensar um símbolo… Uma imagem, um acontecimento, uma pessoa, um lugar, um diálogo… Uma data. Pensá-lo como “telescópio” para milhares de estrelas que, lá estando sempre, não são sempre visíveis, descritíveis, compreensíveis.

Símbolos, como esta imagem e este lugar é em e para mim.

Símbolos como o 04.09, Dia Nacional do Psicólogo desde 2018, deve ser para a Psicologia em Portugal e para as/os psicólogas/os que dia-a-dia, em múltiplos e muito diversos contextos, a construíram e constroem, a desenvolvem, investigam, ensinam, praticam e advogam. A colocam ao serviço das pessoas e do país…

Façamos da próxima sexta-feira “telescópio” para cidadãos e decisores.

Façamos do dia oportunidade para uma Psicologia a contribuir cada vez mais (e de forma mais eficaz) para a equidade, coesão social e bem-estar de todas/os.

Categories
Uncategorized

Já estamos (mesmo) a prestar atenção?

“Defeito de personalidade!”

Em 1978 Thatcher atribuiu a persistência de pobreza no UK à personalidade dos pobres. Em 2020 problemas de saúde psicológica em parte resultantes do contexto social são por vezes tratados como problema “pessoal/individual”. 2 ex. de 2 livros que recentemente li em torno dos desafios que creio mais prementes no futuro – a equidade/pobreza; as condições de vida, bem-estar, acesso e participação na sociedade e sistema.

O “Já estão a prestar atenção” escuta pessoas expondo a “raiva” latente como resposta ao estímulo (preocupação) constante. Estímulo de uma sociedade vista com pouco futuro e propósito e que no UK desde 2009 vê os jovens mais pobres que a geração anterior e a duplicação da riqueza dos mais ricos. Personalidade?

O “Tirania da escassez” reflecte como a escassez (pobreza) impacta a nossa “largura de banda” diminuindo a capacidade cognitiva e controlo executivo, afectando necesariamente a capacidade para tomar decisões. Personalidade?

É fulcral priorizar uma acção integrada de combate às inequidades com contributos da ciência psicológica. Sem ela não ultrapassaremos os enormes desafios com que nos confrontamos e não protegeremos o nosso sistema democrático e a liberdade. Não promoveremos o bem-estar de todos.

Já estamos (mesmo) a prestar atenção?

Categories
COVID-19 Desafios da Psicologia

PanConspirações

Q.

Letra normalmente associada ao nível de acesso máximo a informação classificada. Q. Assinatura utilizada por um anónimo (ou grupo de anónimos) em fóruns como o 4chan desde o final de 2017 para veicular as primeiras “informações” acerca da “tempestade”. Momento em que, por ação de Donald Trump e seus apoiantes, predestinados e únicos capazes de combater uma poderosa rede, vários democratas, incluindo Barack Obama e Hillary Clinton, a par de outras personalidades Americanas como Lady Gaga ou Tom Hanks, serão detidos pela liderança / participação numa organização secreta (um “deep state”) que promove tráfico e abusos sexuais de menores, atividades satânicas e conluios em negócios ilegais com diversos Estados, incluindo a Rússia.

Inicial de Qanon, teoria ou conspiração hoje disseminada pelos EUA por apoiantes de Donald Trump, defendida e promovida em eleições por candidatos e eleitos locais e nacionais, com marca e merchandisingdiverso associado e discutida abertamente em diversos círculos da sociedade civil e na comunicação social.

Em tempos como o que vivemos, à incerteza provocada pela evolução da pandemia, junta-se a ausência de conhecimento sobre o vírus, a ansiedade decorrente das inúmeras notícias negativas com as quais fomos confrontados nos últimos meses, e esperamos vir a ser confrontados nos próximos, e uma sensação de falta de controlo por parte dos cidadãos, tudo “condimentos” para o aparecimento de (e o envolvimento em) narrativas “contra-oficiais” que garantem uma ilusão de controlo e, habitualmente, uma explicação para ações menos adequadas de pessoas / grupos que quem as dissemina ou promove apoiam.

Narrativas que assentam em inimigos (reais ou imaginários) externos à pessoa ou ao grupo e que funcionam como cimento para o vínculo à narrativa e/ou ao grupo que a promove. Narrativas que crescem em círculos ao sabor dos medos e das vulnerabilidades de quem a elas adere, procuradas em fóruns ou espaços (reais ou virtuais) de encontro, de proximidade e de confiança cega – porque a referência e a reverência têm mais valor que a procura da verdade, a ciência ou mesmo a razoabilidade. Narrativas que se desenvolvem alicerçadas em estados afetivos indutores de mecanismos específicos de controlo cognitivo sobre o processo de escolha, que quem as espalha utiliza procurando manipular os outros.

A conspiração vive, portanto, da polarização que se previne com diálogo e com a promoção de indivíduos e comunidades mais empáticas. A conspiração vive do obscurantismo que se previne com mais conhecimento disponível e com mais literacia. A conspiração vive da vulnerabilidade de indivíduos e de comunidades que se previne com maior capacitação e menor desigualdade. A conspiração vive da repetição e procura do mesmo ângulo que se previne com atividades e algoritmos que através do “paternalismo libertário” orientem ferramentas tecnológicas para estimularem acesso ao “diferente” e ao contraditório. A conspiração vive do contágio que se previne com inoculação.

É necessário investir no (re)conhecimento das emoções, que estão no centro da nossa vida mental e dos processos de decisão. Há mais de 20 anos António Damásio fez referência aos “marcadores somáticos”, ou seja, ao que sentimos e que tantas vezes nem percebemos que sentimos, como base da orientação da pessoa nas suas escolhas. Sendo a democracia baseada em escolhas livres e conscientes das pessoas, só poderá ser plena se poucos não tiverem possibilidade influenciar muitos no sentido que desejam a partir da exploração dos seus estados afetivos.

É também necessário ter presente que a comunicação mediada pela tecnologia, particularmente as redes sociais, é distinta remetendo para estados emocionais diversos e propícios a comportamentos diferentes daqueles que adotamos na comunicação face a face com outras pessoas. Aqui o “certo”, o correto, assume-se muitas vezes como dogma percursor de clivagens “nós” vs “eles”, da linguagem dos amigos vs inimigos e as sensações do medo e da urgência. Sendo a democracia baseada na liberdade, o paradigma da verdade deve avançar da procura da “razão” e de estarmos sempre “certos” para um maior acolhimento das “verdades” dos outros.

Finalmente, sendo a democracia assente no respeito pela diversidade, é essencial o reconhecimento que os movimentos discriminatórios das pessoas são normalmente automáticos e não-voluntários. Por isso mesmo não se resolvem a partir de imposições ou acusações de ignorância ou com discussões bipolares. São resultantes de aprendizagens não-conscientes, podendo ser trabalhados, e progressivamente alterados, a partir desse reconhecimento voluntário e do acréscimo de atenção e cuidado aos processos de tomada de decisão face a pessoas “diferentes” de nós.

Muito, muito naturalmente, se tem refletido sobre as consequências sanitárias da pandemia. Também muito, muito naturalmente, se tem refletido sobre as consequências sócio-económicas da pandemia. Pouco, muito pouco, se tem refletido sobre as consequências para as democracias, liberdades e para o nosso modo de vida da pandemia. Pouco, muito pouco, se tem pensado nas vulnerabilidades individuais e comunitárias como terreno fértil ao autoritarismo, totalitarismo e às conspirações. Fenómenos promovidos por indivíduos e grupos que utilizam conhecimento, hoje significativo, de como as pessoas tomam decisões e do que determina o seu comportamento. Fenómenos que deveriam ser prevenidos pelos Estados e pela sociedade civil dos países utilizando conhecimento, hoje significativo, de como as pessoas tomam decisões e do que determina o seu comportamento.

A ciência psicológica aí está, à disposição e ao serviço da democracia e da liberdade.

Tiago Pereira & Miguel Ricou

in Visão; 05.08.2020; aqui

Categories
COVID-19 Desafios da Psicologia

RUP

No ano que empresta o número ao nome da doença cuja pandemia nos desafia (COVID-19), o 2º filme mais visto em Portugal interpelou-nos sobre a saúde psicológica e mental. Joker, filme com avaliações para todos os gostos, potenciou a discussão sobre como a sociedade se confronta e organiza perante a saúde (e doença) que não física, estimulando a reflexão individual (de quem o viu e/ou discutiu) e colectiva sobre o tema.

Sabemos fundamental a reflexão para a criação de narrativas. Creio fundamental que na questão da saúde psicológica possamos promover uma narrativa (individual e colectiva) que permita maior saliência à sua importância, mais literacia e compreensão e menos estigma. Analogamente, creio fulcral que o possamos fazer (reflectir, individual e colectivamente), com o mesmo intuito, sobre a pandemia que vivemos nas suas consequências directas mas também indirectas.

Para isso procuro contribuir nesta entrevista à RUP / ANEP (Associação Nacional de Estudantes de Psicologia) (a quem agradeço o convite e a recordação das memórias que dela tenho) porque, se como Arthur Fleck (Joker) refere no filme (“o pior de ter doença mental é as pessoas esperarem que nos comportemos como se não a tivéssemos”), também assim o é com o momento que vivemos.

Aqui. 

Categories
COVID-19 Desafios da Psicologia Política Psicologia

PanConspirações

No início da década que termina no actual contexto de incerteza, foi anunciado um cabo transatlântico entre a costa leste dos EUA (NY) e Inglaterra (LON). Objectivo: ganhar 5 milissegundos de velocidade de troca de dados; Preço: $300M; Modelo de Negócio: trocar informações da evolução das cotações nas bolsas de valores e realizar transacções antes dos concorrentes.

A utilização da informação e conhecimento sempre permitiu vantagem. Desequilíbrio. Tal sucede(u) também com o conhecimento da ciência psicológica, num e noutro sentido e nem sempre pelo bem-comum. Tenho sempre presente como se utilizaram “testes de inteligência” com fins de discriminação racial, como se desenharam programas de testemunho (e tortura) da CIA ou, recentemente, perfis (profiling) via redes sociais com fins políticos.

Com a série “Pan”, eu e o Miguel Ricou procuramos um maior (re)conhecimento do contributo da ciência psicológica em fenómenos hoje relevantes, advogando por uma Psicologia ao serviço da democracia, liberdade e auto-determinação.

Aqui neste “PanConspirações” reflectimos sobre a emergência e disseminação das conspirações, seus impactos e como se poderiam prevenir.

Aqui, neste site, encontram os restantes “PandÉtica”, “PanDemocracia”, “PanResposta”, “PanMemória”, “PanLegitimidade” e “PanPopulismo”.

 

 

 

Categories
Democracia Desafios da Psicologia Política Psicologia

Godinho fez música da expressão “homem dos 7 instrumentos” que, de frase em frase, “segue para a rosa-dos-ventos”. Imagem dos 4 pontos cardeais, volta completa ao horizonte (diferentes lados). Imagem que ampla, inclui, por oposição à da fotografia que nas palavras de Sontag enquadra, excluindo.

Penso-o ao reflectir a polarização societal Mundo fora que por cá teve ressonância no brutal homicídio de Bruno Candé. Creio as reacções paradigmáticas de 3 fenómenos: “tunelamento”– foco num determinado ponto negligenciando outros relevantes; julgamento– procura de respostas imediatas e certas não raras vezes baseadas em preconceitos estigmatizantes para os quais depois procuramos “factos”; redes sociais – algoritmos que nos dão mais do que vá vimos (conhecemos) e confirmam / aprofundam as nossas crenças.

A democracia vive do diálogo e discussão construtiva, dificultados quando se extrema e polariza. Protegê-la implica prevenir a polarização promovendo maior interesse e conhecimento do outro, mais proximidade, empatia e valorização da diversidade. Para tal, muito contribuiriam outros algoritmos das redes sociais que, inspiradas no “paternalismo libertário”, sem nos impor, nos dessem acesso ao contraditório e a outros pontos de vista. Algoritmos mais “rosa-dos-ventos”, menos “fotografia”

Categories
Uncategorized

as férias são férias são férias são férias.

As férias são férias são férias são férias.

30.7.2020, véspera (curiosamente) de uma 6ªF 31.7, habitualmente último dia pré-férias de muitos Portugueses. Socorro-me da portentosa frase de G.Stein (“Uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”) para afirmar que a) ainda que no quadro de alguma incerteza em que vivemos; b) ainda que com muitas famílias a passarem e/ou a preverem dificuldades sócio-económicas; c) ainda que,pelas razões anteriores, impossibilitados de cumprir as férias que previram para este período e sem possibilidade de “sair”; é urgente quebrar rotinas, desligar, reduzir o nível activação / stresse, descansar, desfrutar. São urgentes férias, férias. Talvez, mais que nunca neste momento atípico que vivemos e mais que nunca para quem cuida de crianças e para elas próprias.

Isto mesmo discuti no webinar “Acabaram as aulas. E agora?” organizado pelo Espaço Pais & Alunos da Porto Editora com a Joana Appleton Figueira e Pedro Strecht com a moderação do Paulo Farinha.

Momento rico que sublinhou a importância das relações e da sua qualidade no desenvolvimento precoce de competências sócio-emocionais e cognitivas, preditivas da qualidade das relações futuras.

Com um “desfrutem” das férias, aqui deixo…

Categories
COVID-19 Desafios da Psicologia

Auto-estradas cooperantes…

Acabado de mudar de ano de vida, ocorre-me uma expressão (“ainda sou do tempo”) ao pensar o trabalho de S. Simard.

Uma ecologista florestal que estuda a comunicação das árvores e cujo trabalho tem contribuído para avançarmos de um paradigma em que as árvores nas florestam supostamente competiriam pela água/nutrientes disponíveis (ainda sou desse tempo), para uma imagem da floresta enquanto uma colecção de árvores que comunicam e cooperam formando uma “autoestrada escondida” de sistemas com feedback e com apoio das árvores (momentaneamente) mais fortes às árvores (momentaneamente) mais frágeis, principal riqueza (pela resiliência) da floresta.
Pensei muito nesta imagem quando reflectia sobre a minha participação na 2ªF passada, na 3ª sessão do Encontro do Urbanismo 2020 – Preparar as cidades para os riscos globais, coordenado pelo João Ferrão e organizado pelo CIUL/Câmara Municipal de Lisboa.

Nesta 3ª sessão (“Compreender a cidade a partir das emoções geradas pela pandemia”) reflecti com a Clara Cardoso, o Jorge Barroso Dias e com a Teresa Caldas de Almeida como se organizou a cidade no tempo que vivemos e como poderemos promover “autoestradas cooperantes” a partir dos lugares, cidades. Aqui deixo caso tenham interesse.