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Debate à 5a – Família, Trabalho, Escola… e COVID-19

O debate “Intervenções para a Saúde Psicológica: Entre o essencial e banha da cobra” que moderei com o David Neto e o Miguel Ricou foi mote para um novo formato de debate da Ordem dos Psicólogos Portugueses – o “Debate à 5a”. Um ´live´ que, também vivendo dos comentários de quem os segue, procurará aprofundar temas que cruzem (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote, simples, de promover mais perspectivas.

Esta tarde, numa co-organização com a CONFAP, estarei com Jorge Ascensão e Sofia Ramalho a pensar e discutir “Família, Trabalho, Escola… e COVID-19”.

Num momento especialmente desafiante para o país e para o mundo, com fortes impactos na educação, no mundo do trabalho e nas famílias, pensaremos o bem-estar hoje e o que podemos e devemos fazer para prevenir o aprofundamento dos desequilíbrios e da iniquidade.

No contexto da Educação, entre crianças e jovens com níveis de desenvolvimento / competências distintas, entre diferentes Escolas ou diferentes contextos sócio-económicos e suporte. No contexto da família, onde vulnerabilidades prévias se tendem a agudizar e onde questões de enorme relevância como a da disparidade de género tendem, também elas, a ser reforçadas em situação de confinamento.

Hoje, 18h, aqui…

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Estima e culpa; COVID-19 (Público; 02.05.2020)

Foi hoje publicado no jornal Público um trabalho da jornalista Sónia Trigueirão que trata as questões associadas à culpa e ao estigma relativos à COVID-19 e ao enorme desafio, de múltiplas consequências, que enfrentamos.

Nesse trabalho abordo as questões do estigma e as causas da deslocação de “o que culpar?” para “quem culpar?”, muito assente na forma como tomamos decisões (com os automatismos e enviesamentos associados) e no medo, reacção emocional hoje intensificada, propagada e generalizada. Medo que permite que adoptemos comportamentos de protecção mas que, pela irracionalidade, motiva também comportamentos discriminatórios e estigmatizantes, perigosos para a comunidade.

Reflicto ainda sobre como os próprios, cada um e a sociedade podemos contribuir para que quem sente culpa, vergonha ou estigma por ter sido infectado e poder ter infectado outros, substitua sentimentos “persistentes de discriminação e preconceito por sentimentos de integridade e respeito”.

Aqui.

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Debate – Intervenções para a Saúde Psicológica: Entre o essencial e banha da cobra

A generalidade das pessoas têm uma capacidade de adaptação e de resiliência admirável. Todos nós conhecemos histórias incríveis de superação que nos emocionam e motivam. Admirável, sim, mas não ilimitada.

Num momento de enorme incerteza e em que tantas pessoas se confrontam com tão severas adversidades, convido-vos para uma conversa que moderei entre o David Neto e o Miguel Ricou onde se procurou reflectir e distinguir aquilo que é essencial do que é “banha da cobra” quando se pensam e planeiam intervenções para a promoção da saúde psicológica. 

Ver aqui.

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PanResposta (Observador; 23.04.2020)

“Antecipar o que acontecerá para depois explicar o que não aconteceu”, assim se referia Churchill à arte da previsão. Quando passam 50 dias do primeiro doente covid-19 confirmado em Portugal, convidamo-lo a refletir como no início de março perspetivava os dias que agora vivemos e como perspetiva, neste momento, o próximo 10 de junho. Mudança, volatilidade e incerteza são marcas que cremos coletivas destes nossos 100 dias e que imaginamos presentes na sua reflexão.

Muito mudou muito rápido. Muito continuará a mudar, avolumando e tornando prolongado no tempo o enorme desafio com que nos confrontamos. Perdemos e perderemos bastante. No nosso modo de viver, na economia e emprego, na nossa saúde física e, especialmente, psicológica. Mas não apenas perdemos e perderemos. Resilientes e adaptativos que somos como indivíduos e como comunidade, rapidamente nos unimos em torno dos recursos individuais e coletivos que melhor nos podem proteger e ajudar, demonstrando uma vez mais o que é claro para a evidência científica e pouco claro para algumas opiniões. Não é o pânico generalizado que emerge em situações como as que vivemos, antes comportamentos pró-saúde e pró-sociais, de cuidado connosco, com os outros e como comunidade, acompanhados de manifestações de solidariedade e cooperação. Assistimos ainda a um positivo retomar da valorização de profissões e profissionais (jornalistas, forças de segurança, professores ou profissionais de saúde), das suas associações representativas (associações profissionais ou sindicatos) e da ciência (comportamental, económica ou da saúde).

Sempre existiu no mundo quem explorasse medos, expectativas e sonhos dos outros. Sempre existiram vendedores de banha da cobra e de loções milagrosas que resolviam todos os problemas. Sempre existiu quem lucrasse com a manipulação dos outros e se aproveitasse da sua necessidade de acreditar em algo. Nada disso acabou, mas tem vindo a transformar-se. Nos últimos anos, caminhamos de “curandeiros” (que continuam a existir em algumas sociedades, onde, como seria de esperar, logo se descobriram variadas e miraculosas soluções simples para a covid-19) para “curandices”, a partir de personalidades carismáticas que conseguem fazer do placebo tratamentos milagrosos, vendidos como valiosos segredos de vida. Desde alguns tipos de coaches e outros especialistas com termos anglófonos, com a indução de uma ligação propositada à psicologia, até “terapeutas”, com enorme diversidade, cujos pontos comuns são as intervenções não baseadas na prova científica e a não regulação das suas atividades.

Paralelamente, assistimos à forte pressão da União Europeia, em conjunto com outros países, para a liberalização dos atos das profissões de saúde, atendendo mais a razões económicas e de mercado do que à proteção dos cidadãos ou da saúde publica. O alicerce dessa pressão é o pressuposto de respeito pela auto-determinação individual assente num também pressuposto de ampla literacia para as questões de saúde dos cidadãos. Um pouco como se todas as pessoas tomassem todas as suas decisões de forma informada, ponderada e totalmente consciente. Como se o papel dos intervenientes atrás descrito não fosse exatamente o de manipular as dificuldades, expetativas e crenças de cada um, vendendo soluções fáceis e mágicas para problemas complexos, tendo em vista objetivos que, não raras vezes, não são o melhor interesse de cada pessoa ou a saúde pública.

A sociedade existe em função da necessidade de nos apoiarmos uns aos outros face à complexidade dos seus desafios. O papel dos profissionais e das profissões é esse, o de apoiar ou orientar as pessoas nas suas decisões. O seu valor central é promover o bem das pessoas com quem trabalham, não podendo ser apenas o mercado e o lucro as prioridades do seu exercício profissional. Esse será sempre, aliás, o papel primordial das associações profissionais: garantir que o exercício profissional vai no sentido de promover o interesse público, compromisso esse estabelecido com o Estado e condição central para a sua existência.

E porque ninguém consegue, sozinho, tomar as melhores decisões (na saúde, justiça ou no desenho de uma futura habitação), precisamos uns dos outros, e sobretudo precisamos de confiar uns nos outros. Esta pandemia, com todo o seu lado negativo, tem tido um retorno positivo no reforço da confiança nos profissionais. Vemos as pessoas mais próximas dos professores, dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos, dos agentes da autoridade, dos bombeiros e até dos políticos. Vemos o reconhecimento da importância da psicologia e dos psicólogos. E vemo-lo quando mais disso necessitamos, numa situação onde não há certezas, muitas vezes nem certos e errados claramente definidos, e em que urgem decisões informadas e plurais, construídas colegialmente por quem reconhece dúvida e por isso está disponível para discutir com outros. Aliás, Desconfiemos, portanto, quem nunca tem dúvidas.

António Costa disse recentemente que “os políticos têm de evitar que a sua vontade se sobreponha ao conhecimento da ciência, precipitando decisões de que depois se arrependam”. Invistamos, portanto, na ciência, na sua valorização e transferibilidade. Nos profissionais e nas suas organizações representativas. Que sejam suporte sólido, sério e confiável para que os Antónios de cada país e de cada momento encontrem os seus kairos (momento oportuno) nas decisões, algo que cidadãos, na procura de segurança, estão agora a fazer. Se assim for, estaremos sempre mais próximos de com menos perda, iniquidade e sofrimento vencermos desafios, epidemias e pandemias diversas. Os desafios destes 100 dias e os múltiplos e também exigentes dos dias que se lhes seguirão.

Miguel Ricou e Tiago Pereira

in Observador; 23.04.2020; disponível aqui

 

 

 

 

 

 

 

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PanDemocracia (Público online; 16.04.2020)

Vivemos um tempo novo, que esperamos provisório, mas pleno de incerteza. Não sabemos quanto tempo mais durará o nosso isolamento ou a pandemia. Qual o seu real impacto na saúde ou na economia do país e do mundo. Que sociedade resultará, que alterações ao nosso modo de vida, à forma de nos relacionarmos ou à nossa privacidade.

Vivemos um tempo, a todos os níveis, desafiante. Enquanto ainda tentamos perceber como foi possível isto acontecer e esboçamos algumas reações na procura de quem culpar, unimo-nos na busca de respostas e soluções para um problema complexo e disruptivo. É curioso e reconfortante ver a confiança nos médicos e enfermeiros reforçada, a procura da ciência psicológica e dos psicólogos para nos orientar no labirinto de desafios que enfrentamos, o retomar do jornalismo de facto com um desvio do olhar das pessoas em relação à desinformação ou à pseudociência promovida por vendedores de emoções e disseminada por quem crê em soluções rápidas muitas vezes assentes em ‘estados de espírito’. Mesmo a confiança nos líderes políticos cresce ao ritmo da segurança que nos confere confiarmos nas nossas autoridades e na forma como gerem o medo, relegando para segundo plano aqueles que vendem ter, sozinhos, todas as respostas certas para tão complexa situação.

Vivemos num tempo de incerteza. Um tempo que, sem meio termo, contribuirá para o reforço da democracia representativa, da confiança entre as pessoas e nações ou, pelo contrário, aumentará o número e tamanho dos muros entre nós. Sabemos, porém, que o tempo que vivemos será por nós sempre lembrado e que como Thomas Friedman identificou, há um novo a.C / d.C – um antes e depois da COVID-19.

Um estudo do ICS e ISCTE, recentemente publicado, traz-nos dados interessantes para refletirmos sobre o futuro neste contexto de incerteza. Diz-nos que em Portugal são os mais jovens os que menos confiam na resposta das autoridades à pandemia e os que julgam que mais rapidamente ela será ultrapassada, trazendo ainda uma pista para o porquê deste aparente contrassenso: são também os mais jovens que exigem e estão disponíveis para medidas de restrição e controlo mais apertadas. Ou seja, os mais jovens parecem estar mais disponíveis para abdicar, em função do retomar de parte do quotidiano a.COVID-19 e da segurança da sua saúde. Efetivamente, com os dados que hoje possuímos, e antes de uma vacina eficaz e generalizada ou de um nível de imunidade que além de distante é também incerto, as medidas de restrição surgem como a propagada TINA (‘there is no alternative’) desta pandemia. As medidas de restrição, não o isolamento em que hoje cerca de metade do mundo se encontra.

Em todo o caso, as medidas parecem ser, para já, bem aceites pelos cidadãos, ainda que qualquer delas impacte significativamente o bem-estar da população e a economia. Também por isso, importa atender a outras duas condições fundamentais para a sua eficácia: (1) Os fatores psicológicos associados à condição de isolamento (tensão entre a necessidade de terminar o isolamento e o medo daí resultante e exaustão do processo de isolamento); (2) a perceção e aceitação do risco pela capacidade de adaptação humana (vejam-se as comunidades que habitam sopés de vulcões ativos ou a identificação com agressores – ‘síndrome de Estocolmo’). Estes fatores psicológicos e a necessidade de reabilitar a economia farão com que, mais cedo que tarde, decisores, mobilizadores sociais, agentes económicos e cidadãos pressionem para que haja um levantamento de restrições. E as soluções possíveis já se vislumbram e avizinham. Para proteger o bem maior da saúde e da vida e prevenir a falência da economia e os efeitos de confinamentos prolongados, começar-se-ão a colocar em pratos de balança restrições (hoje em Portugal ainda ‘pesadas’, amanhã veremos) vs propostas de registo e controlo digital de indicadores de saúde, movimentos ou contactos dos cidadãos (hoje em Portugal ainda ‘leves’, amanhã veremos).

Provavelmente com maior apoio entre os mais jovens, poderemos caminhar para uma vertiginosa “normalização dos instrumentos de vigilância”, conforme define Yuval Harari, que, se não cuidada, atentará contra valores chave da democracia como a liberdade e a privacidade. Conforme advertem Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no livro hoje obrigatório “Como morrem as democracias”, a democracia depende, entre outros fatores, da auto-contenção dos eleitos. Ou seja, é necessário que os líderes reconheçam a importância dos seus adversários políticos, não limitando o contraditório, o direito à diferença e não utilizando instrumentos democráticos para enfraquecer o bom funcionamento das diversas instituições que fazem a democracia.

Esta auto-contenção implicará que quaisquer medidas que venham a ser pensadas no sentido do registo e controlo digital de indicadores de saúde, movimentos ou contactos dos cidadãos (porque no cenário atual essa discussão tenderá a ser possível) impliquem também a discussão da criação de uma estrutura que coordene e faça a gestão de todos os dados a obter. Algo próximo de um ‘sindicato de dados pessoais´ que, nesse cenário, geriria eventuais dados sempre e só em função do melhor interesse dos seus proprietários – os cidadãos. Esta estrutura teria obrigatoriamente que assegurar a informação e o consentimento de utilização de dados por parte dos cidadãos, bem como ser profundamente independente de quem governa ou procura o lucro e por isso  organizada em torno de três eixos fundamentais: a) integrar as/os melhores numa perspetiva científica e ética, congregando as áreas das ciências da saúde e comportamentais; b) integrar as/os melhores da cibersegurança prevenindo o cibercrime que advirá da reorganização do crime e do crime organizado nesse cenário; e c) a necessidade de preservar os valores da democracia introduzindo democracia na própria estrutura – permitindo por isso representatividade e, com rotatividade e limitação de mandatos, a eleição das/os melhores que o assegurem.

Vivemos um tempo de incerteza. Mas, a democracia e os seus valores não podem cair na incerteza. Aqui, urge certeza. Urge convicção, coragem e ação para os defender de demagogos, autoritários e populistas que, pandémicos, não se farão rogados no aproveitamento das nossas hesitações, inseguranças e receios, contrapondo soluções ´rápidas´ e ´simples´ que nunca resultam positivas.

Tiago Pereira e Miguel Ricou

in Público Online; 16.04.2020; disponível aqui

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Antimeridiano.

Antimeridiano.

Local do mundo onde, passando uma linha imaginária, mudamos de data, de dia. Inspirador da “perda” na aposta de Fogg no livro “Volta ao mundo em 80 dias” de J.Verne, pela decisão de ganhar ou perder tempo, navegando de oeste para este ou de este para oeste. Um paradoxo.

Todos sentiremos que vivemos nos últimos 80 dias uma autêntica ‘volta do mundo’. A pandemia COVID-19 impacta decisivamente o nosso dia-a-dia e modo de viver. Expõe-nos a um dos mais complexos desafios das nossas gerações tendo para mim um pequeno, mas reconfortante, paradoxo: a redescoberta da importância do jornalismo de factos por oposição à desinformação; a redescoberta da importância da ciência e dos profissionais de saúde, incluindo os psicólogos, face à pseudociência e aos vendilhões, conforme Carlos Fiolhais classifica.

Há dias apresentei um webinar resultante da colaboração entre Direcção Geral da Saúde e a Ordem dos Psicólogos Portugueses da responsabilidade do Miguel Arriaga, acerca do papel da psicologia e dos psicólogos na COVID-19. No meu curto enquadramento inicial reflecti sobre qual tem procurado ser o papel e o contributo da OPP nesta crise.

Aqui partilho convosco na certeza de que todos temos um papel a desempenhar neste desafio e que dele nos recordaremos amanhã.

Talvez, sempre.

Webinar

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Violência Doméstica e COVID-19 (TSF; Sem medo do Medo; 30.03.2020)

13.03.2020. A OMS declara a Europa como o novo epicentro da pandemia COVID-19. Neste dia passaram 56 anos da madrugada do esfaqueamento, violação e assassinato de Kitty Genovese. A este crime, profundamente marcante na sociedade Americana, atribui-se parte do sobressalto que conduziria à criação do famoso 911 (o nosso 112) como resposta rápida a emergências. É-lhe ainda atribuído um longo debate em torno da má informação a propósito da peça sobre o crime publicada pelo New York Times, anos mais tarde questionada pelas suas inconsistências, que referia que 38 pessoas assistiram ou ouviram o crime (longos minutos, na rua) sem nada fazerem. Finalmente, a partir dele foi descrito o efeito bystander (difusão de responsabilidade) que aponta para que a pessoa seja menos propensa a ajudar uma vítima numa situação em que outras pessoas estão presentes.

Ao isolamento social determinado pela pandemia CODIV-19 deve corresponder um isolamento com direitos e tal só poderá suceder se, tal como no combate à propagação do vírus, decisores e cidadãos trabalharem e adoptarem comportamentos no sentido de conter o crime público de violência doméstica.

Esta situação, um pouco como o crime daquela madrugada, deve implicar:

a) Que se atenda à informação e à evidência científica que demonstra que a violência doméstica, seja ela sob a forma de maus-tratos físicos ou psíquicos, ameaças, difamação ou crimes de natureza sexual, aumenta significativamente com as situações de isolamento. Isto deve-se, por um lado, ao conflito e tensão nas dinâmicas relacionais e comunicacionais disfuncionais decorrentes da partilha continuada e permanente do mesmo espaço físico, e, por outro, ao papel do medo, ansiedade e raiva no despoletar directa ou indirectamente (por exemplo, pelo aumento do consumo de álcool) de actos de violência.

b) A situação de isolamento acentua e junta a possibilidade de maior controlo pelo agressor sobre a vítima e a menor capacidade desta para denunciar ou pedir ajuda. Assim, é crucial que as vítimas se protejam, procurando prever comportamentos violentos e preparar uma resposta adequada, identificando áreas seguras da casa, acordando planos ou códigos de denuncia com pessoas de confiança (uma peça de roupa ou um vaso à janela, por exemplo) e preparando-se para denúncias de emergência ou mesmo uma potencial necessidade de ´fuga’. Implica ainda que amigos, familiares, vizinhos e profissionais de saúde ou de serviço social assumam um papel central na protecção de potenciais vítimas, estando intencionalmente mais atentos e vigilantes a sinais de alerta, promovendo um acompanhamento mais próximo, oferecendo ajuda e cuidado, não culpabilizando e motivando para que a vítima possa solicitar apoio. Denunciando.

c) Implica, finalmente, um reforço da quantidade e da qualidade das respostas de emergência. Numa situação como a que se vive, uma resposta imediata, decidida e eficaz pode, no limite, significar uma vida. Vidas.

Não diluamos responsabilidades. Intencionalizemos o cuidado e contribuamos para ambientes de confiança e entreajuda, preventivos da violência, protectores das vítimas. Como à pandemia COVID-19, o combate à violência doméstica a todos compete.

Amanhã podemos ser nós ou alguém muito próximo de nós.

TSF (Sem medo do Medo); 30.03.2020; Áudio aqui

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Da crise.

Manhã cedo, telefone vibra e… num segundo ia visitar a Quinta da Regaleira, no seguinte o mundo desaba e um grito interior invade-me: “nós nunca sabemos”. Sentimos, pensamos que sim, mas…

Passaram 10 anos deste meu dia. Uma perda significativa em circunstâncias não menos significativas. De lá para cá, muito mudou na minha vida. Da ´crise´, questionamento e adaptação, resultou mais pessoa. A dor (que perdura) promoveu mudança, crescimento e criou um antes e depois daquele 28.02. T. Friedman referiu-se à crise que vivemos como o novo a.C / d.C, um antes / depois do coronavírus. Como aquele antes / depois para mim, o COVID-19 terá para o mundo o seu antes / depois.

Às recomendações e aos comportamentos pró-saúde que, por todos, devemos cumprir, juntemos comportamentos pró-sociais de solidariedade, altruísmo e empatia. Da crise ao crescimento há um caminho ardiloso, onde recursos e resiliência são fundamentais e no qual a coesão social e apoio aos mais vulneráveis será fundamental.

Nos últimos já largos dias, a partir do gabinete de crise da OPP, tenho procurado fazer tudo o que está ao meu alcance para que, juntos, ultrapassemos este enorme desafio e dele saíamos mais pessoa e mais coesos.

Hoje vivo perto de Sintra mas não mais voltei à Regaleira. Assim deixará de ser no momento em que isso acontecer.

Vamos juntos?

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Lei de Gresham, ansiedade e Covid-19 (Artigo Rádio Renascença; 15.03.2020)

https://rr.sapo.pt/2020/03/15/pais/lei-de-gresham-ansiedade-e-covid-19/noticia/185400/

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TotoVírus

“Dou-te 20 valores; és um 13 no Totobola”.

Parte do “brilhozinho nos olhos” (Sérgio Godinho), toca no meu imaginário também ao referir-se ao emblemático 1Xis2 do jogo que permite escolher uma tripla garantindo à partida o acerto numa das 13 apostas.

Ao Totobola associo o que chamo ‘atitude Totovírus´ de algumas pessoas face ao COVID-19.

Pela abordagem de jogo (não-científica) à situação, confundindo prevenção com contenção (ex. mortes por AVC vs COVID-19), comparando os seus efeitos com os de outros vírus com vacina ou utilizando acriticamente médias, negligenciando grupos vulneráveis (ex. seniores).

Porque utilizam leituras 1X2 (ganhas à partida) face às medidas implementadas: se a situação vier a ter pouco impacto, foram excessivas; se vier a ter muito impacto, foram insuficientes/tardias; se forem um sucesso, não foram mais do que a ‘obrigação’ das autoridades.

Precisamos de adoptar uma atitude de fairplay social: optimismo factual, comportamentos de segurança e autocuidado (também emocional) e de heterocuidado (amigos, familiares, outros cidadãos).

Precisamos mutuamente de nos proteger e de confiar e cuidar de quem, pessoas como nós, tem hoje a dura missão de, dia-a-dia, transferir e aplicar o conhecimento (científico) do vírus e da sua propagação para a resposta a este grande desafio.