“Não é nenhum mistério a razão pela qual as taxas de ansiedade e depressão nos EUA aumentaram em 2020, no auge da pandemia. Mas, entretanto, a vida começou a voltar lentamente ao normal. Assim sendo, porque é que as taxas de sofrimento psicológico não voltaram também ao normal?”
Foi esta a chamada de uma recente newsletter do “New York Times” que justifica estes dados no facto de “a proporção de jovens adultas/os que relatam ansiedade e depressão vir a aumentar há cerca de uma década antes da pandemia por Covid-19”, de assim se ter mantido durante toda a pandemia e, [ao contrário do que sucedeu com outras faixas etárias], “não ter diminuído rapidamente quando as vacinas foram disponibilizadas” ou quando a pandemia terminou.
“A política e os determinantes sociais da saúde (mental)”, 89º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte destes indicadores para, afirmando que “infelizmente em Portugal não temos uma recolha verdadeiramente sistemática destes dados”, discutir a proximidade das potenciais causas para eles apontadas: “a precariedade económica, a crise imobiliária, o isolamento social e a turbulência política”.
Do artigo que partilho destaco 3 elementos a este propósito, nele detalhados: a) que os factores que sintetizo numa “maior incerteza face ao presente e futuro e, com ela, a menor previsibilidade e segurança” são comuns às e aos jovens portugueses; b) que penso faltar a “perda de algum sentido e significado de vida, também, pela perda de alguma envolvência na comunidade”; e c) que a turbulência política mencionada “tem características bastante diversas da que vivemos em Portugal”, mas penso importante não ser desconsiderada, particularmente porque o seu impacto “é mais severo junto de grupos populacionais com maiores vulnerabilidades” e “é desproporcionalmente sentido na população mais jovem”.
Deixo depois alguns exemplos dos EUA com ressonância em países na Europa (e tentativas em Portugal), desde a proibição de programas na área das competências sócio-emocionais, do ensino da ciência relacionada com a evolução ou relacionadas com a interrupção voluntária da gravidez. Mas sublinho portugueses, das “culpas colectivas e na generalização de comportamentos a determinadas comunidades”, a propostas de “confinamento de comunidades” ou outras “anti-científicas de penalizar bebés e crianças no acesso a um estabelecimento educativo público, ou jovens no acesso a apoios sociais, apenas pelo estatuto social, económico ou de empregabilidade da sua mãe ou pai”.
Concluo afirmando que não “podemos ser displicentes com a situação que vivemos e devemos advogar, lutar, no presente pelo futuro, para que decisoras e decisores considerem a promoção da segurança psicológica (e não o seu contrário) e da equidade (e não do seu contrário) nos seus processos de tomada de decisão e que aportem às políticas públicas dimensões de prevenção e promoção”, também pela saúde (mental) no presente e no futuro.