Ricardo Araújo Pereira costuma afirmar que, mesmo quando se tem essa pretensão, um/a humorista “não consegue controlar totalmente o efeito do [seu] humor”. E o humor, como sabemos, tem um papel muito importante e diverso na sociedade. Porque nos diverte e faz sentir bem. Porque nos aproxima e permite sintonizar com outras e outros e começar/continuar conversas. Porque nos permite olhar, criticamente, o que nos rodeia. Em Portugal, como noutros países, diferentes gerações têm beneficiado do humor e, num certo momento da minha vida, o Herman José (e toda a sua equipa), particularmente no Herman Enciclopédia, marcaram-me muito. Entre tantas outras personagens recordo o “Artista Bastos”, personagem inspirada no Baptista-Bastos e que ajudou a projectar para os nossos dias a pergunta “Onde estava/s no 25 de Abril?”.
“Onde estava na transição digital”, 65º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) usa duma apropriação da pergunta ao processo de transição digital em curso, processo “com poder transformador e que, queiramos ou não, será profundamente significativo na nossa vida presente e futura”. Fi-lo, pois, “julgo ser fundamental reflectirmos o momento actual como particularmente relevante” (…) dado que com “a evolução rápida da realidade virtual e, particularmente, da inteligência artificial generativa, existirão alterações profundas e visíveis no nosso dia-a-dia” que “requererão da parte de cada pessoa, grupos e comunidades, a par do desenvolvimento de novas competências, a necessidade de uma rápida adaptação e de gestão dos impactos emocionais e no bem-estar desta transformação.”
Mas, não existindo apenas benefícios perspectivados desta transição em curso (também desafios e riscos que procuro, também, reflectir no artigo), devemos advogar e contribuir para “desenvolvimentos suportados em dimensões éticas e sociais, alinhando a tecnologia com os valores da humanidade. Apenas orientações que o impliquem, em conjunto com o reforço do multilateralismo, poderão, com sucesso, contribuir para que estes riscos sejam mitigados e para que esta transformação contribua para o desenvolvimento e para a redução das iniquidades a uma escala global, com instrumentos e ferramentas globais.”
“Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, infelizmente de forma não equitativa, a inteligência artificial generativa disseminar-se-á rapidamente. Não sem riscos, não sem obstáculos, não sem medos, terá o potencial no futuro curto que se pode prever de nos tornar melhores estudantes e profissionais, nas mais diversas áreas, sendo nosso copiloto e ferramenta auxiliar aos processos de tomada de decisão e realização de tarefas, quando e se alinhada com as dimensões éticas e de segurança e com os valores do humanismo e dos direitos humanos. Este alinhamento, não apenas, mas também depende de cada um de nós e de onde estamos e queremos estar na transição digital.”