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Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos

“Tivesse escutado aquilo que a Islândia queria mim, teria passado os anos 80 de camisola de lã a vender peixe. E não foi isso que fiz.” Não foi isso que Björk fez. “Fez da ambição, do talento e do activismo motor para ser hoje uma referência a fazer música e uma embaixadora do país”. Fê-lo e junto com outras pessoas, em circunstâncias próximas, ajudou a transformar a Islândia num “caso de sucesso e admiração. Um país que ousou, pela cooperação e co-criação, encontrar soluções criativas para se transformar e fazer o melhor possível com os recursos que existem, cuidando, em simultâneo, desses mesmos recursos e promovendo bem-estar.”

“Podermos ser o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos“, 85º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado; link abaixo) usa este exemplo para discutir como “felizmente muitas e muitos de nós, nos quatro cantos do Mundo e em diferentes momentos históricos, resistiu à pressão para se moldar às expectativas que, a partir de diversas fontes (familiares, culturais, sociais, profissionais…) cedo nos procuram “encaixar” e encaminhar, num ou noutro sentido. Cedo acabam por constranger a nossa capacidade de expressão e afirmação individual, depois colectiva.

Continua assinalando que existem diversas histórias de não-conformidade, “pessoas que o conseguem, a partir do contexto e oportunidades certas, de figuras de referências e suporte. Pessoas com suficiente segurança psicológica (…) desafiando o que delas se esperaria pela ousadia de procurarem o que desejam. São conjuntos de histórias como estas, que, com sentido de comunidade, cooperação e a partir da inovação mudam ruas, bairros, cidades e países.”

“Mas, neste caminho, importa ter sempre presente uma condição profundamente humana e pelas pessoas partilhada, o viés do sobrevivente. Ou seja, a nossa tendência para, instintivamente, distorcermos a realidade e darmos mais atenção e considerarmos mais as excepções (…) face à generalidade das pessoas que “desaparecem” (não sobrevivem) no caminho.“

Este fenómeno tem duas consequências: a) “gera processos de auto e heteroculpabilização em situações de insucesso, mesmo quando são estas as mais comuns”; b) contribui para se “negligenciarem os factores que tornam mais equitativo o caminho e a possibilidade deste sucesso. Efectivamente não partimos todas e todos da mesma linha de partida e os obstáculos (desafios), empurrões (apoios) e oportunidades para errar e falhar (suporte e aceitação) não são idênticos para todas as pessoas”.

Importa, assim, “aproximar mais os pontos de partida, com mais educação e mais eficaz intervenção social pré-gravidez e no período de gravidez, e gerar mais equidade, apoio, suporte e aceitação é fundamental para construir um caminho de transformação e, no sentido do que atrás escrevo, não conformidade e autenticidade.

Importa pensarmos “como podemos, e o que determina que possamos, ser mais o que queremos ser e não apenas o esperado que sejamos. Como pessoas. Como comunidade. Como país.”

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