
Este ano que agora começou será particularmente importante para a Democracia no Mundo. Esta minha afirmação resulta, não apenas dos complexos desafios que enfrentamos globalmente, como a crise climática, migratória e da desigualdade ou dos conflitos armados e tensões geopolíticas em diversas regiões. Resulta, também, da sua conjugação com um 2024 com um número de eleições impressivo, com a ascensão de partidos/personalidades populistas e radicais com condições de ganharem ou influenciarem decisivamente eleições, particularmente à direita do espectro político, e, destas, com a crescente polarização da sociedade e utilização do ressentimento, do medo e do ódio, também via redes sociais, como veículos de apelo ao voto e mobilização para acções, nomeadamente de protesto ou confronto, por vezes violentas.
Ruchir Sharma sublinhava há dias no Finantial Times que 2024 será o ano desde que há registos em que mais população será chamada a votar (46% da população mundial, incluindo as legislativas em Portugal e as eleições nos EUA, Índia e Indonésia, três das “maiores” democracias). Paralelamente assinalava também ser um dos momentos históricos em que é mais prejudicial ser-se primeira/o-ministra/o ou presidente em exercício para se ser reeleita/o. É deveras impressionante a mudança dos últimos 20 anos: considerando as 50 maiores democracias, se em 2003, em média, 70% das/os incumbentes ganhava eleições, hoje são apenas 30%, algo que inverte a vantagem que historicamente existia para quem se recandidatava. Mas mais, são também historicamente baixas as taxas de aprovação no geral das/os líderes políticas/os globalmente, sendo a taxa de aprovação de Biden a mais baixa de sempre neste momento do mandato (39%, no último estudo da Gallup), mas comparável às de Kamala Harris e do “Speaker” Mike Johnson (40%), do líder Democrata no Senado (Chuck Schumer, 43%) e superior, ainda assim, à do líder Republicano (Mitch McConnell, 27%).
São diversos, complexos e interrelacionados os motivos desta alteração. Desde logo os acima expostos e sobre os quais nesta rubrica e em diferentes artigos já reflecti. Outros também já aqui tratados como são exemplo a crise da confiança e a menor proximidade percebida dos maiores partidos (“catch all parties”) às pessoas, suas necessidades, desejos e expectativas. Mas há também na sociedade, hoje, uma menor tolerância ao erro, mais elevadas expectativas e rápidas e profundas alterações sociais, culturais e demográficas. Tudo questões centradas ou que impactam no comportamento humano, nos processos de tomada de decisão e que ganham maior importância num tempo em que as novas tecnologias de informação e comunicação influenciam decisivamente como socialmente nos informamos, comunicamos, posicionamos e relacionamos.
Tudo elementos que aprofundam o facto de notícias, informações e experiências negativas terem mais relevância, serem mais recordadas e evocadas por nós e determinarem mais a nossa percepção da realidade e o nosso comportamento face a notícias, informações e experiências positivas. Um fenómeno psicológico chamado “viés da negatividade”, explorado por partidos e personalidades populistas que, ampliando e fazendo uso das causas atrás descritas, as aprofundam. Um exemplo: usam, com fins eleitorais, a desconfiança dos cidadãos nas instituições – algo que, só por si, contribui para mais desconfiança, num ciclo perigoso para a democracia, coesão social e para uma sociedade de bem-estar, direitos e possibilidade de autodeterminação para todas/os.
As consequências desta situação, particularmente (mas não apenas) em quem se recandidata, são também diversas, (potencialmente) complexas, interrelacionadas e reforçadoras destes ciclos. São, desde logo, um estímulo para uma tentativa de maior controlo do ambiente mediático e político, colocando em risco uma mais ampla participação e debate. São um incentivo para “tudo se prometer”, independentemente da capacidade ou possibilidade para se cumprir, desvirtuando programas e ideologias políticas, “fulanizando” as campanhas e diminuindo a capacidade de atração de eleitoras/es pela adesão ao projecto, reforçando-se a atração por “repulsa” aos adversários, geradora de mais conflito não construtivo, de maior volatilidade e menor comprometimento. Provocam, também, mais e maior instabilidade política, menor capacidade de desenvolvimento de políticas públicas com sucesso e desincentivam a participação na política, diminuindo o apelo e a capacidade de atração das funções públicas e, logo, a qualidade potencial média das e dos decisores e da governação.
Mas há mais. Há quem tudo isto use abundantemente e, simultaneamente, se promova, qual cereja no topo do bolo, como o “único” capaz de introduzir ética na política. Isto mesmo quando tudo o atrás é, porventura, o que mais obstaculiza a percepção da associação entre ética e (decisão) política pelas pessoas. Quem o faz, fá-lo, também, recorrendo ao viés na negatividade, explorando a situação, o caso, a dúvida e o facto de hoje, particularmente em Portugal, existir uma associação entre falhas/erros na dimensão ética e questões legais/criminais, nomeadamente com a corrupção (convido a verificarem no Google Trends a evolução do número de pesquisas dos termos e de como hoje, em Portugal, praticamente se equipararem, numa quebra progressiva e significativa das pesquisas por ética e num aumento das pesquisas por corrupção).
Também por isso, todas e todos, candidatas/os ou não, comentadoras/es ou não, jornalistas ou não, cientistas ou não, activistas ou não, temos um papel fundamental nestes 54 dias que nos levarão às eleições. O de prevenir que se utilize a desconfiança, a negatividade e se use o conceito de ética apenas com intuitos políticos e populistas, desconsiderando-os efectivamente. O de utilizar o conhecimento disponível sobre como nos comportamos e tomamos decisões como antidoto para este impulso e como força para combatermos uma política de ressentimento, de medo, de ódio, de promoção da impossibilidade de construção conjunta e de debate e conflito construtivo e salutar.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, podemos pensar e perguntar-nos sobre o que poderia ter acontecido de diferente, com comportamentos e decisões diferentes das tomadas, entre a data possível de confirmação do primeiro caso de COVID-19 em Wuhan a 01.12.2019 (data referida por entidades e organizações internacionais, mas não confirmada, sendo mesmo negada pelas autoridades da China) e o dever de recolhimento obrigatório decretado nesta região 54 dias depois, em 23.01.2020. Podemos perguntar-nos o que mudaria. Como podemos pensar de que forma podemos, enquanto pessoa e enquanto parte de uma comunidade, chamando a este tempo mais ciência, evidência, respeito, ética e centralidade às instituições, à Constituição portuguesa e aos Direitos Humanos, contribuir para 54 dias que nos levem a umas legislativas que reforcem a confiança, a esperança, o compromisso e a ética. Para 54 dias que promovam um foco, também, no bem-estar de todas e todos e no bem-comum. Que nos permitam ver outras e outros ao redor, em Portugal e no Mundo, e ter presente, sempre, o legado e a justiça intergeracional para com as gerações que nos sucederão.
Tiago Pereira
A desconfiança, a negatividade, a ética e os próximos 54 dias
in Sábado (Ao redor…); 16.01.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-desconfianca-a-negatividade-a-etica-e-os-proximos-54-dias