Elephant. Filme de Gus Van Sant, (parcialmente) baseado no massacre na Escola de Columbine, sobre o qual passaram 24 anos ontem. Quem, como eu, frequentava à época uma Escola como a de Columbine não esquece(rá) o massacre. Quem, como eu, vive o cinema, não esquece(rá) o filme, extraordinário. Quem, como eu, gosta de metáforas, do simbólico, de pormenores, não esquece(rá) a associação, via título e forma do filme, entre um assunto particularmente difícil e complexo (a realidade dos tiroteios nas Escolas nos EUA e a violência no geral) e a “parábola do(s) cego(s) e do elefante”, onde cada pessoa consegue descrever uma parte do objecto/fenómeno, mas ninguém consegue percepcioná-lo na sua totalidade e integridade.
Ontem, não por acaso quando passavam 24 anos de Columbine, acordamos com a discussão pública via comunicação social de um assunto antes em discussão privada (em grupos de mensagens) e pública, mas via redes sociais. Falo da “apelidada” ameaça de massacre em Escolas em Portugal, propagada e reproduzida via uma mensagem numa rede social e ao longo do dia classificada pelas autoridades como “brincadeira de mau gosto”, conforme aliás o título desta peça da SIC, na qual tenho um pequeno contributo/participação.
A peça abriu ontem o Jornal da Tarde, considerando algum alarme com a situação e procurando garantir informação sobre um fenómeno complexo, com diversas partes. O medo e como, enquanto emoção, influencia a nossa tomada de decisão e comportamento. O desconforto associado à imprevisibilidade, insegurança e falta de controlo, particularmente quando se trata de crianças e jovens, e a necessidade de procurarmos controlo e previsibilidade. A forma como a informação se propaga, se reproduz, se “refina” (ganhando pormenores e exemplos) via redes sociais, particularmente a que “joga” com emoções como o ódio, a raiva e o medo. Também, a forma como o viés da negatividade nos influencia para darmos mais atenção a eventos/acontecimentos negativos e, portanto, os considerarmos mais prováveis/possíveis.
Mais, a forma como em ambientes digitais mais despersonalizados, anonimamente ou não, pessoas (e pessoas mais jovens) são capazes de comportamentos que noutros contextos não existiriam, como forma de afirmação e/ou chamada de atenção. Ainda, a importância da literacia digital e da boa informação ocupar o espaço potencial da má ou da desinformação, particularmente quando a boa informação provém de mediadores/referências, como a comunicação social, personalidades públicas e autoridades que devem, como aconteceu, sem alarme, mas sem complacência, atender a estes fenómenos e procurar garantir o possível controlo e segurança.
Um elefante, portanto. Complexo, cheio de partes, ângulos, pormenores, difícil de descrever na sua totalidade e integridade e, até por isso, a necessitar que todos o olhemos, pensemos e previnamos.