
A partir de hoje contaremos 6 semanas até mudarmos de ano e chegarmos a 2022. Terminarmos (mais) um ano de muitas semanas com fortes restrições e limitações à nossa espontaneidade, à nossa forma de interagir e nos relacionarmos com o espaço e com as outras e os outros e de um significativo sofrimento para um grande número de pessoas. Mas terminaremos um ano em que, mais uma vez, resistimos e demos prova de confiança nas instituições e de coesão que, entre outros, nos permite ser líderes mundiais no importantíssimo processo de vacinação relativo à COVID-19. Terminaremos um ano em que, mais uma vez, se aprofunda e generaliza o reconhecimento da importância de promover a literacia em saúde (psicológica), a prevenção e a saúde psicológica como forma de enquanto indivíduos e sociedade estarmos mais preparados para nos adaptarmos às mudanças necessárias e respondermos à incerteza. Um ano de reconhecimento e sensibilização para a necessidade de melhorarmos a qualidade de vida e bem-estar das pessoas.
Comportando ainda incerteza, 2022 trará, apesar de tudo, um novo momento societal que coabitará na Europa com o “Ano Europeu das Cidades Verdes” que prevê a mobilização da Europa para a criação de espaços urbanos mais verdes visando benefícios “não apenas ambientais, mas relativos à saúde, cultura e educação” e, logo, com forte impacto no bem-estar.
No final da semana passada, a convite da APPP-FN, participei na conferência “Cidades Verdes – Mais saudáveis, mais sustentáveis” do projecto “Green Cities Europe” e discuti os importantes contributos da psicologia (ciência e prática) para cidades de bem-estar, sustentabilidade e coesão social. Procurei reflectir a partir da definição de Calvino (“as cidades como os sonhos são feitas de desejos e medos”) o binómio entre querer mudar mas receá-lo e a cidade como micro (o local, a pessoa) do macro (o global, a sociedade), onde os desafios societais complexos da exclusão, pobreza ou população em situação sem abrigo são os problemas da Rita, da Joana ou do António.
Onde a poluição do ar, o ruído, a temperatura e o os estilos de vida de quem as habita impactam em indicadores de saúde, retiram anos de vida saudável e provocam mortes prematuras.
Onde, contributos da psicologia, sob a forma de 1) evidências científicas e promoção da literacia; 2) informação de políticas públicas de saúde e de sustentabilidade; 3) promoção da mudança e da adaptação com bem-estar; e 4) unidades de ciências comportamentais que apoiem intervenções efectivas e com resultados, podem concorrer para a mitigação e prevenção destes problemas.
Onde, finalmente, a construção de cidades verdes, com contributo da psicologia, pode ser essencial à prevenção, promoção de saúde (psicológica) e bem-estar, biodiversidade e de importantes determinantes sociais e comportamentais da sustentabilidade e da coesão social, como são a resiliência, a conciliação da vida pessoal/profissional e autocuidado, a intergeracionalidade e a inclusão.