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Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação (Ao redor…; 02.07.2024)

Lisboa, 14 de Maio de 2024: O governo português, reunido em Conselho de Ministros, aprova uma resolução que determina “o desenvolvimento de um novo aeroporto internacional de Lisboa, com a designação de Aeroporto Luís de Camões, localizado no Campo de Tiro de Alcochete”. Copenhaga, 14 de Maio de 2024: Ursula von der Leyen, numa intervenção no Congresso da Democracia de Copenhaga, defende que a “Europa tem de lutar pelos seus valores e pelas suas democracias sob pena de serem pirateadas por autoritarismos que procuram corroer e erodir tudo o que se construiu nos últimos 70 anos”.

Estávamos em 1969 quando se iniciou em Portugal o debate sobre a relocalização do Aeroporto da Portela. Processo cuja concretização da resolução acima referida pode concluir, mais de 60 anos depois e após múltiplas e diversas decisões e possibilidades de relocalização. Vivia-se, em 1969, tal como se vivia em Espanha, numa das últimas ditaduras que resistiam enquanto ditadura na Europa do pós II Guerra Mundial e seria certamente inimaginável que esta decisão pudesse demorar 60 anos a ser concretizada. Um inimaginável que, dia-a-dia, pelos avanços e recuos nas decisões e não-concretizações, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “novo aeroporto” e que fez com que, necessariamente, desviássemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos.

Não precisamos de recuar tantas décadas para considerarmos inimaginável o momento que vivemos na Europa. Momento que, conforme von der Leyen bem refere, se caracteriza por um forte questionamento dos valores da União Europeia e das suas Democracias. Um pouco como observamos com a ascensão de populismos e políticas iliberais Mundo fora – com o exemplo dos EUA e dos estados tradicionalmente autoritários sempre presente – parece já não surpreender a vitória e a possibilidade de sermos governados por partidos da direita populista, radical ou extrema na Europa. Um inimaginável que, dia-a-dia, foi limitando a novidade, a nossa resposta ao estímulo “populista” e fez com que, necessariamente, desviemos a atenção desse foco para nos concentrarmos noutras novidades ou em desafios mais significativos. Fez com que nos habituássemos. Com que naturalizássemos. Fez, portanto, com que o efeito de sobressalto colectivo de grande parte da sociedade, sentido aquando da passagem de Jean Marie Le Pen à segunda volta das presidências de 2002 de França, tenda a não se repetir hoje a caminho de uma segunda volta das Legislativas de 2024, onde o partido herdeiro das suas ideias – o Rassemblement National – poderá garantir uma vitória.

Com que naturalizássemos, também, a mentira em política. Com que naturalizássemos que, pese embora um desempenho confrangedor de Biden, seja possível, hoje, considerar-se que o primeiro debate das presidenciais de 2024 dos EUA foi vencido por um político como Trump, cujo valor da verdade e dos factos não reconhece ou respeita e que, por isso, normalmente (como foi o caso) não cumpre regras mínimas para debater em democracia, logo, para vencer qualquer debate democrático.

Aqui chegados, reconhecendo-se este caminho e história, sabendo-se os impactos da perda de valores e do enfraquecimento das instituições democráticas na coesão social e na saúde e bem-estar, particularmente de pessoas em situação de vulnerabilidade, e compreendendo-se o comportamento humano e como decorrem os processos descritos, importa desenvolver estratégicas que mitiguem a habituação e mobilizem a população para a não naturalização destes processos.

Reforçarmos o pensamento crítico e a capacidade individual e colectiva de questionar e de compreender o Mundo, também pela promoção da partilha e diálogo entre países e culturas e pela capacitação e literacia científica e mediática em todas as idades. Promover o diálogo, também, entre diferentes sectores da sociedade e não o encerramento e polarização, validando posições diversas e discutindo temas e procurando construir pontes e pontos de encontro a partir dessa validação mútua. Garantindo que contribuímos para a preservação da confiança nas instituições e para o empoderamento das estruturas de vigilância e garantia do conjunto de valores da nossa democracia e constituição. Também, procurando garantir maior inclusão e diversidade na representação política e nas estruturas da sociedade civil no sentido da maior identificação e do sentido de representatividade.

Tudo isto. Tudo isto e utilizarmos a ciência e a melhor evidência disponível para garantir mais possibilidade de protecção e resiliência da população aos fenómenos que mais têm contribuído para que alguns inimagináveis se estejam a tornar realidade. Conforme o Fórum Económico Mundial – que considera a má informação e a desinformação o risco global mais severo no curto prazo – von der Leyen, no mesmo discurso que atrás referi, deu-nos um importante exemplo do que podemos e devemos fazer quando refere que “é essencial que as pessoas saibam qual é a influência da má informação e da desinformação e quais são as técnicas por detrás delas, pois à medida que o conhecimento aumenta, as hipóteses de sermos influenciadas/os diminuem, e isso fortalece a resiliência da sociedade”. Disse-o para depois defender que, “se pensarmos na manipulação da informação e na desinformação como um vírus, ao invés de tratarmos uma infecção depois de desenvolvida (“debunking”), é muito mais eficaz vacinarmo-nos para que o corpo fique imunizado”. Dito de outra forma, é muito importante expormos, controladamente, a população ao fenómeno da desinformação, educando para a forma como é utilizada, preparada e difundida para que, a partir dessa literacia e conhecimento, as pessoas desenvolvam capacidade de pré-refutação (“prebunking”) dessa informação, ficando mais imunes e menos expostas aos seus impactos e à possibilidade de sermos cadeias de transmissão e reforço. A este propósito, e caso tenham interesse, aconselho os trabalhos do psicólogo Sander van der Linden e das equipas com quem tem trabalhado no desenvolvimento de recursos e jogos pedagógicos de combate à desinformação e aos seus impactos negativos nas pessoas e sociedade, como é o caso do “Bad News Game”, com evidência científica promissora.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, não desistirmos da verdade e da informação factual e defendermos os valores da União Europeia e as Democracias na Europa implica que não permitamos que nos habituemos aos fenómenos que contribuem, muitas vezes por dentro dos sistemas democráticos, para que a coesão social e a integridade das instituições democráticas sejam enfraquecidas. Enfrentar o desafio do populismo exige proactividade e uma actuação multifacetada, que considere o tempo presente, mas pense também a história e os seus exemplos e pense o futuro e a forma como, numa perspectiva de legado, podemos contribuir para um país e um Mundo de Direitos e com maior possibilidade de autodeterminação para todas as pessoas no futuro.

 

Tiago Pereira

Ai habituamo-nos, habituamo-nos ou o importante papel da mobilização e da inoculação

in Sábado (Ao redor…); 02.07.2024

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/ai-habituamo-nos-habituamo-nos-ou-o-importante-papel-da-mobilizacao-e-da-inoculacao

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