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“A psicoterapia nasce e realiza-se tipicamente num espaço individual. Mas esse encontro é estritamente ligado a uma história e a um contexto social, cultural e até político. A psicoterapia é um produto da nossa sociedade, mas também a molda. Certas ideias, que nascem ou são fortemente influenciadas pelas concepções da psicoterapia, invadem positivamente o espaço social. Os quatro exemplos discutidos são o papel da infância e da parentalidade, o enquadramento da sexualidade, a dimensão representacional dos comportamentos e afectos, e o princípio da equidade no acesso ao cuidado.

O capítulo aborda ainda a dimensão de poder que permeia as relações sociais e que, dessa forma, também está presente na psicoterapia. São refletidos os cuidados éticos que tal implica no sentido da vivência do poder nas relações de uma forma saudável. Tal como no tema anterior, procura discutir-se a relação circular entre a psicoterapia e sociedade e em que medida tal pode inspirar novas e mais positivas formas de encarar o poder socialmente.

A interacção conceptual entre a psicoterapia e a sociedade é benéfica para ambas. Por um lado, sociedade molda os clientes e a intervenção. Os pedidos e objetivos presentes não são idênticos aos motivos que traziam as pessoas à psicoterapia no passado ou noutros contextos. Por outro lado, a psicoterapia promove autonomia, autodeterminação, assertividade e respeito pelos outros – qualidades de um cidadão activo. A psicoterapia (e intervenção psicológica no geral), é por isso central na construção de uma polis de pessoas envolvidas e enquanto comunidade que procura deliberadamente o bem-estar geral.

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Resumo do Capítulo: Psicoterapia, sociedade, poder e política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis [@David Dias Neto e @Tiago Pereira]

Livro: A psicoterapia na Torre de Babel [Constança Biscaia e @David Dias Neto]

Colecção: Psicologia e Psicoterapia [@Telmo Mourinho Batista]

Editora: @Edições Silabo

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A partir do Episódio | Psicoterapia, sociedade, poder e política: https://lnkd.in/d99qQA3d [@David Dias Neto, @Telmo Mourinho Baptista e @Tiago Pereira]

Podcast | A psicoterapia na Torre de Babel: https://lnkd.in/dimudiRw [@APTCCI]

 

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Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política:

Entre o privado do encontro e o público da possível polis

(Excerto)

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política

A ideia de existir uma relação entre a psicoterapia e a sociedade é uma ideia simultaneamente evidente e estranha. Evidente no sentido em que é claro que a psicoterapia é uma prática criada, desenvolvida e implementada no seio de uma sociedade e como resposta às circunstâncias, necessidades e expectativas das pessoas que a fazem. Estranha, por ser um processo, embora relacional, eminentemente individual, em espaço reservado por oposição a processos sociais públicos que ajudam a entender a sociedade. No entanto, são vários os exemplos desta relação e do seu carácter circular. Talvez menos evidente e mais estranha, é a ligação com a política, enquanto processo de ação, de tomada de decisão e de construção e interação entre grupos envolvendo relações de poder. Afinal, a psicoterapia é vista como uma forma de ajudar pessoas e não de promoção de uma ação social. Neste capítulo abordaremos e reflectiremos as pouco evidentes, estranhas, mas profundas, interligações entre a psicoterapia e a política, enquadradas em diferentes tempos da sociedade e nas sempre presentes relações de poder.

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As ideias perigosas que partem da psicoterapia para a sociedade

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A psicoterapia e a ideia de saúde mental participam também no processo de transformação e densificação dos valores humanistas. Neles também decorre a emergência dos direitos humanos e dos objectivos globais (e.g., do desenvolvimento sustentável). Aquilo que as teorias que subjazem à psicoterapia trazem, em diferentes momentos e, por isso, de formas distintas, é uma clarificação do que está na base e do conjunto de circunstâncias que conduzem ao sofrimento humano e de potenciais contributos para o superar.

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Os vários modelos da psicoterapia sugerem que muito do que é relevante para o bem-estar (vs. Patologia) resulta ou é condicionado pelos primeiros anos de vida. A psicoterapia, a par de outras contribuições da ciência psicológica, concorre assim decisivamente para que os séculos XX e XXI tornem a infância um foco de atenção da sociedade e se consolide a ideia (e a filosofia) dos direitos das crianças.

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Antes das perspetivas psicológicas subjacentes à psicoterapia, e influenciada pela religião, a sexualidade era, quando não negada, vista de forma desarticulada do resto do funcionamento humano, resquício da nossa animalidade, devendo pois ser coartada ou ignorada. Com a psicoterapia, em primeiro lugar pela psicanálise, a sexualidade começa a ser encarada como uma faceta humana indissociada da relação, que devia ser vivida de forma saudável e plena. Passou a associar-se a coartação da sexualidade ou a sua vivência “desequilibrada” a psicopatologia. Estas ideias foram social e politicamente muito influentes. A ideia de não só descriminalizar a homossexualidade, mas também penalizar a sua discriminação nasce destas ideias. A emancipação da mulher e a igualdade de direitos, independentemente do género ou orientação sexual também é fortemente influenciada por estas ideias de sexualidade e dos seus impactos no comportamento. A sexualidade feminina é equiparada em termos de valor à masculina e o caminho da independência desta da função reprodução é particularmente relevante. A condenação do abuso sexual, independentemente do contexto, é outro exemplo do desvio do foco da censura social.

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Mais uma vez, os modelos psicológicos em que assentam algumas psicoterapias salientam duas dimensões que são importantes como determinantes do comportamento. Primeiro, as representações ou as crenças associam-se a determinados comportamentos. Estas representações envolvem dimensões atitudinais e afetivas que se relacionam com outro tipo de representações (e.g., visão de si, visão dos outros, emoções predominantes) e podem ter como base a falta de literacia. Segundo, a dimensão representativa não ser desligada de aspetos de processo (e.g., perceção, atenção, memória) que influenciam de forma relevante o comportamento

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A quarta ideia tem que ver com a equidade, com o acesso e com uma ideia e um princípio da possibilidade de uma “psicoterapia para todas as pessoas”. A evolução do conceito de saúde para uma visão que inclui a saúde psicológica e o bem-estar, traz à sociedade este desafio referente à possibilidade de permitir acesso a cuidados de saúde psicológica e psicoterapêuticos mais amplos. Este princípio traz à psicoterapia alguma pressão para se repensar no sentido de poder chegar e impactar mais pessoas. Pensar um e outro movimento e esta tensão entre possibilidade, necessidade e justiça apoia a reflexão acerca de novas soluções.

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O Poder na Psicoterapia

Muito se tem escrito sobre a psicoterapia envolver uma relação de poder. Esse poder é influenciado pela natureza da relação, pelas características do contexto e clientes, frequentemente a vivenciar períodos de maior vulnerabilidade. Essa vulnerabilidade aumenta o potencial impacto de más práticas e diminui a capacidade de os clientes as reconhecerem e agirem sobre elas.

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Os psicoterapeutas agem no sentido de promover a mudança dos clientes de formas que não são necessariamente conhecidas ou conscientes para os últimos. Não se trata de um processo de manipulação, porque os objetivos da mudança são definidos pelos clientes no quadro do contrato e relação estabelecidos. Sê-lo-á quando, num registo de má prática, os psicoterapeutas procuram mudar os clientes em dimensões que estes não solicitaram. São abusos de poder, mesmo quando justificados como a interpretação do melhor para os clientes, a promoção de formas particulares de ser, de crenças, de tomadas de decisão específicas ou de formas de relacionar que vão para além dos pedidos.

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Face a estas características, a prática de psicoterapia deve ser pautada por um conjunto relevante de cuidados éticos. Adicionalmente, esses cuidados éticos devem responder à evolução dos pedidos que chegam aos psicoterapeutas e à sociedade nas suas normas formais ou menos formais. Nomeadamente, estes cuidados devem ser acautelados nos processos de formação, desenvolvimento pessoal e enquadramento profissional dos psicoterapeutas. Estes processos são fundamentais na prestação de cuidados nesta área e, por isso, também são social e politicamente determinados porque dependentes de normativos legais. Os referidos cuidados éticos balizam os psicoterapeutas, protegem os clientes e apoiam o bom resultado do processo.

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O exercício do poder no contexto da psicoterapia deve ser consciente, ciente das suas limitações, dos princípios éticos que o norteiam e centrado no respeito da autonomia dos clientes. Para que este objetivo seja cumprido, em termos da relação, o exercício de poder deve ser atento aos outros. Também num registo empático, mas também numa contínua apreciação dos impactos da intervenção ou da posição interpessoal dos psicoterapeutas e da construção da relação no processo psicoterapêutico.

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Se a psicoterapia é o catalizador da mudança nos indivíduos e se os indivíduos fazem a polis – enquanto comunidade de cidadãos ativos – então a psicoterapia pode assumir o seu papel na construção de uma possível polis desejada pelos seus cidadãos.

Psicoterapia e Sociedade, Poder e Política: Entre o privado do encontro e o público da possível polis in A psicoterapia na Torre de Babel

David Dias Neto & Tiago Pereira

[Outubro de 2023]

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