“Parabéns pelo dia sem Escola!”
Foi este o primeiro cumprimento que Kate Forbes, Ministra das Finanças Públicas e Economia Digital do Governo da Escócia, recebeu de um membro do Parlamento Escocês quando assumiu funções como Ministra. Tinha 28 anos e ali sentiu aquilo que já sabia. Que sendo jovem (e mulher) teria que mostrar sempre mais (provar) para ser respeitada naquelas funções.
Ao lado de Syed Saddiq, 26 anos, Ministro da Juventude e do Desporto da Malásia, foi este o primeiro estímulo que Kate Forbes deu a quem como eu e o meu colega Duarte Zoio teve oportunidade de participar na Challenges of Government Conference 2019 promovida pela Blavatnik School of Government da Universidade de Oxford para reflectir sobre as novas gerações, as políticas de envolvimento e o papel das/os jovens, hoje, nas (e fora das) instituições governamentais.
Batool Asadi considera que “não é nada de mais” ser a primeira mulher Assistant Comissier no Paquistão, sublinhando sentir que tem atributos que não apenas ser mulher. Sim, tem. Mas, é claramente algo, ‘algo de mais’. É um ponto de viragem. Um ponto de viragem, como o que estamos a começar a discutir relativo à forma de governo e à acção nos principais desafios societais que enfrentamos, onde o comportamento e a tomada de decisão são chave para o futuro. Onde a identidade, a sua procura e a sua construção são fundamentais. Mas de que futuro falamos quando…
“No meu país há 1 milhão de novos jovens a entrar no mercado de trabalho a cada mês.”
Dizia no mesmo painel, Snigdha Poonam. 12 milhões de novos jovens trabalhadores a cada ano nesse país (mundo) que é hoje a Índia, com mais de 1300 milhões de habitantes e que se estima que a partir de 2022 passe a ser o país com mais habitantes do Mundo, ultrapassando a China.
Como pensar a identidade num mundo em mudança? Num mundo crescentemente impactado pela tecnologia, onde num ano se guardam tantos bits de dados quantos grãos de areia existem em todas as praias do mundo (estima-se que 1 elevado a 22)? Num mundo crescentemente impactado com ´novos nacionalismos´ e ´tribalismos´? Num mundo em que países antes liderantes parecem ter encontrado ´novos muros´, também no que se refere aos tradicionais indicadores de desenvolvimento, nomeadamente económicos (salário médio não sobe nos EUA desde os anos 70) ou de saúde (a esperança média de vida nos homens nos dos EUA desceu nos últimos três anos, com um contributo significativo das doenças crónicas, do consumo de drogas e do suicídio).
Mas, e o que esperar da juventude e das novas gerações?
Peter Frankopan autor do “The new silk roads” trouxe-nos pistas para pensar nesta questão ao reflectir sobre o papel das/os jovens ao longo da história, desde os antigos impérios construídos por jovens “que correram riscos” (pensemos em Júlio César, por exemplo), aos não tão antigos ´impérios´ também eles em muito dependentes de jovens (as médias de idades dos participantes no congresso Bolchevique em 1917, no congresso que lançou o partido Nazi Alemão ou dos recrutados pelo ISIS são todas inferiores a 30 anos). E pensando na contemporaneidade, em que parte da inovação e da irreverência juvenil se concentra em Silicon Valley, poderemos reflectir como a norma social de comportamento das/os jovens tem moldado o futuro e como o poderá fazer também ao nível da governação e dos seus modelos.
“E quando tudo parece impossível?”
Perguntou uma jovem do Zimbabwe a Chuka Umunna membro do parlamento e candidato pelos LibDems às próximas eleições no Reino Unido, onde o Brexit mais de três anos após o referendo se mantém como tema de debate (único). Quando olhamos para a estrutura da administração pública do Zimbabwe e não encontramos espaço para a mudança… Espaço para a esperança, espaço para jovens como ela?
“Ask yourself what is possible!”
Havia já respondido, antes, Yemi Babington-Ashaye defendendo que devem as/os jovens, em qualquer circunstância, assumir sempre a sua “representação” ainda que numa perspectiva incremental como forma de ultrapassar esta crise de representação.
A Challenges of Government Conference 2019, dedicada às novas gerações, foi em mim ainda mais impactante pelo ambiente próximo, amigável, ‘aceitante’ de todas/os criado à volta da conferência pela Dean da Blavatnik School of Government Ngaire Woods e sua equipa. Um ambiente, até certo ponto, contrastante com a polarizada sociedade em que vivemos, mesmo no Reino Unido. Durante o curioso continental breakfast organizado para discutir o Brexit no segundo dia da conferência foi mostrada esta imagem…
…que mostra bem como se polarizou a sociedade e como Londres parece uma ilha no Reino Unido (continental, neste gráfico). E, dentro ou fora das instituições, as/os jovens devem comprometer-se numa mobilização para aproximar e não extremar, não estigmatizando, antes valorizando a diferença e as diferenças.
Envolvimento, identidade, juventude, norma social, crise de representação, mobilização para aproximar e não extremar… Pistas para pensar o presente e o futuro, a juntar ao papel das ciências comportamentais (do comportamento e da tomada de decisão) para o futuro… Para o futuro do(s) governo(s) e das pessoas que os fazem. Porque, vivemos um ponto de viragem.
Um ponto de viragem como foi a marcha de Selma a Montgomery, também percorrida por Martin Luther King cujo imaginário nos recorda que o (‘bom’, permitam-me) poder não nos é dado, é (por Nós, permitam-me também) conquistado. E assim sendo…