Agnotologia: um termo desaparecido para descrever a produção cultural da ignorância (e o seu estudo). Este é o título do 1º capítulo do livro “Agnotologia: a construção e a desconstrução da ignorância”, escrito por R. Proctor e L. Schienbinger a partir, também, da reflexão sobre o potencial impacto na saúde pública das práticas da indústria do tabaco. Discute-se um memorando de 1979, primeiro secreto, hoje público, que reúne um conjunto de iniciativas de empresas – “O tabagismo e a proposta de saúde”. Nele assumia-se que “a dúvida é a melhor maneira de competir com o volume de informação que existe na mente do público em geral” e ser fundamental promover e financiar (também usando a ciência) a dúvida e intencionalizar a “criação de controvérsia” sobre os “impactos nocivos do consumo de tabaco”. Sendo este um caso “extremo” creio que temos presente que, também em 2022, talvez nunca com tantos recursos e de forma tão estrutural e complexa, a agnotologia é estimulada e alimentada, com profundas consequências na sociedade, nas relações entre pessoas e comunidades, na resposta aos principais desafios societais e na saúde (pública) e bem-estar.
E, se este movimento ocorre em muito patrocinado por organizações, empresas e até países que pretendem que os seus produtos / matérias-primas continuem a ser vendidos/utilizados, também decorre no seio político, na procura de agregação de pessoas a grupos/ideais políticos, não raras vezes usando a dúvida e as dimensões emocionais (como a raiva ou o ódio a outras/os) como força de mobilização. Num Mundo com complexidade e incerteza crescente e com redes sociais que permitem (e estimulam) a propagação “supersónica” da informação (particularmente a movida a emoções, dúvidas e “polarizadora”), creio fundamental o termos presente e, individual e colectivamente, contribuirmos para mitigação da agnotologia, algo só possível com mais e melhor ciência (inclusive nas políticas públicas), mais e melhor transferibilidade da ciência (inclusive junto das políticas públicas), mais e melhor comunicação da ciência (inclusive junto de decisoras/es) e mais e melhor informação e literacia científica da sociedade, possibilitando a reflexão consciente e a prevenção dos efeitos de grupo e massas, pela mudança de atitudes e comportamentos através da informação.
Por isso quem, por exemplo aqui, me lê/ouve sabe que, na medida das minhas possibilidades, o procuro fazer. Sabe, também, que estimulo, particularmente, psicólogas e psicólogos a fazerem-no mais, a partir da nossa ciência e prática. Sabe, ainda, que o procuro fazer junto de problemas societais complexos que muito influenciam a sociedade e a possibilidade de saúde, bem-estar e autodeterminação das pessoas. Partilho um exemplo, uma entrevista à Revista Visão (13.11) que toca estes pontos – um singelo contributo meu, focando a pobreza e a saúde mental; um estímulo a outras e outros para o fazerem/fazermos mais).
Mais e mais, individual e colectivamente. Por todas e por todos. Sim?