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Debate à 5a – A incerteza da adolescência em tempos de incerteza

Amanhã – 48h após a divulgação dos dados sobre os comportamento de saúde em idade escolar (HBSC), que envolve mais de 227 mil adolescentes de Portugal e outros 44 países – decorrerá o 3º Debate à 5ª . ´Live´ da Ordem dos Psicólogos Portugueses, por mim promovido e moderado que, também vivendo dos comentários de quem os segue, procura aprofundar temas que cruzam (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote, simples, de promover mais perspectivas.

Esta edição, intitulada “A incerteza da adolescência em tempos de incerteza”, contará com a presença de Tânia Gaspar (psicóloga e uma das investigadoras responsáveis em Portugal pelo HBSC) e Anabela Carvalho (psicóloga coordenadora do Observatório do bem-estar dos alunos de Viseu).

Um debate que pensará as e os adolescentes em Portugal… Mais sedentários, que gostam menos da Escola e que mais comunicam online… Mas dos que sentem a Escola como mais segura, percepcionam mais suporte e, ainda que melhorando desde 2014, apresentam níveis de bem estar que nos devem inquietar. Convocar.

A todas/os, psicólogas/os, investigadoras/es, cidadãos. Pensaremos, ainda, o papel da ciência e da intervenção psicológica nos adolescentes e os desafios (mas também oportunidades) que a crise com a COVID-19 traz. 21.05.2020; 22h, aqui

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Fim-de-semana e Fase II do “desconfinamento”

Este fim-de-semana, 75 dias depois dos primeiros casos de COVID-19 no país, leva-nos à fase II de ‘desconfinamento’ e às simbólicas aberturas de Creches/Esc.Secundárias e Restaurantes.

“Se era muito difícil imaginar esta situação e o seu impacto e consequências, daqui a alguns meses não vamos conseguir imaginar o mundo sem esta pandemia e sem as alterações que ocorreram entretanto.” Excerto de uma entrevista minha à Helena Bento para o Expresso publicada no final de Abril.

Algo, creio, por todos sentido e em parte explicado pelo ‘hindsight bias’, enviesamento que justifica que consideremos como mais previsíveis acontecimentos que já ocorreram face ao que realmente eram antes de ocorrerem: hoje é difícil imaginar o mundo sem smartphones quando antes era difícil imaginá-los.

Também por ele, “governo e autoridades têm um papel na manutenção ou não dos diferentes comportamentos adotados durante a quarentena”, competindo-lhes transmitir segurança e a avaliação da “perceção do risco por parte das pessoas e tomar medidas”, considerando o equilíbrio do binómio exigências/recursos que cada pessoa faz.

Aqui… 

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Debate à 5a – Seis semanas de Linha de Aconselhamento Psicológico SNS24

Amanhã, dia em que um/a Psicólogo/a da Linha de Aconselhamento Psicológico SNS24 (LAP) atenderá a chamada 10000 desde a sua criação a 1 de Abril, decorrerá o 2º #debateà5a.

´Live´ da Ordem dos Psicólogos Portugueses, por mim promovido e moderado que, também vivendo dos comentários de quem os segue, procura aprofundar temas que cruzam (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote, simples, de promover mais perspectivas.

Esta edição, intitulada “Seis semanas de Linha de Aconselhamento Psicológico SNS24”, contará com a presença de 3 psicólogas/os vértices de um triângulo que fez e faz a LAP que, pelo alcance e, porque não, simbolismo, creio marcante do posicionamento e contributo da OPP para o desafio que vivemos com a COVID-19: Teresa Espassandim que coordena e representará a equipa de Psicólogas/os que desenvolveram o algoritmo, a arquitectura e a formação inicial da LAP; Manuel Firmo que representará a equipa de 63 Psicólogas/os que assegura 24h por dia/7 dias por semana o seu funcionamento; Catarina Vaz Velho que representará o grupo de 6 Psicólogas/os que assegura a supervisão desta equipa.

Um debate que viajará da criação ao futuro da LAP, pensando o seu papel, os seus desafios e as pessoas que dia-a-dia a procuram…e a fazem.

14.05.2020; 22h, aqui

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COVID-19 Desafios da Psicologia

PanMemória

PanMemória. Artigo que partilho com o Miguel Ricou, publicado no Observador, que procura pensar como olharemos 2020.

Parte da ideia de que é hoje “difícil acreditarmos que nos próximos anos possamos considerar algo em 2020 como mais marcante para a humanidade que a COVID-19”. Recorda que isso decorre da inexistência de distanciamento histórico e de uma “visão clara do que sucederá nos próximos meses e anos relativamente ao vírus, às consequências sócio-económicas e psicológicas do isolamento (..), aos impactos nas democracias e organizações internacionais e (…) aos impactos da introdução de sistemas de monitorização e rastreabilidade de contactos entre cidadãos”. Reflecte sobre estes sistemas e o que poderão implicar no “modelo ético” de sociedade, nas pessoas e nas suas instituições”. Conclui que poderão “quando olharmos 2020 com distanciamento histórico, competir com a COVID-19 em torno do seu impacto na humanidade”, algo incompatível com a “volatilidade e falta de clareza na discussão/decisão” relativamente ao seu desenvolvimento e gestão.

Artigo parte de um conjunto de reflexões por nós publicados onde se incluem o “PandÉtica” (https://lnkd.in/gu8ANgB),o “PanDemocracia” (https://lnkd.in/g6AQJD5) e o “PanResposta” (https://lnkd.in/gptF9ZJ).

Disponível aqui.

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há mar e mar…

“Há mar e mar, há ir e voltar.”

Frase, tratado, do poeta Alexandre O’Neill para lema de uma campanha da década de 80 de prevenção de afogamentos do Instituto de Socorros a Náufragos.

Lema elevado a provérbio e a parte da Língua Portuguesa. Lema hoje partilhado, reconhecido, colectivizado. Passado tornado presente que faz futuro.

Assim é com o que fomos, tornado presente que faz futuro.

É assim que regresso ali, agora nesta minha condição e com esta singela contribuição, gravada no início de Abril e que aqui partilho.

Obrigado.

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Debate à 5a – Família, Trabalho, Escola… e COVID-19

O debate “Intervenções para a Saúde Psicológica: Entre o essencial e banha da cobra” que moderei com o David Neto e o Miguel Ricou foi mote para um novo formato de debate da Ordem dos Psicólogos Portugueses – o “Debate à 5a”. Um ´live´ que, também vivendo dos comentários de quem os segue, procurará aprofundar temas que cruzem (desafios da) sociedade e contributos da ciência psicológica com o mote, simples, de promover mais perspectivas.

Esta tarde, numa co-organização com a CONFAP, estarei com Jorge Ascensão e Sofia Ramalho a pensar e discutir “Família, Trabalho, Escola… e COVID-19”.

Num momento especialmente desafiante para o país e para o mundo, com fortes impactos na educação, no mundo do trabalho e nas famílias, pensaremos o bem-estar hoje e o que podemos e devemos fazer para prevenir o aprofundamento dos desequilíbrios e da iniquidade.

No contexto da Educação, entre crianças e jovens com níveis de desenvolvimento / competências distintas, entre diferentes Escolas ou diferentes contextos sócio-económicos e suporte. No contexto da família, onde vulnerabilidades prévias se tendem a agudizar e onde questões de enorme relevância como a da disparidade de género tendem, também elas, a ser reforçadas em situação de confinamento.

Hoje, 18h, aqui…

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COVID-19 Psicologia Uncategorized

Estima e culpa; COVID-19 (Público; 02.05.2020)

Foi hoje publicado no jornal Público um trabalho da jornalista Sónia Trigueirão que trata as questões associadas à culpa e ao estigma relativos à COVID-19 e ao enorme desafio, de múltiplas consequências, que enfrentamos.

Nesse trabalho abordo as questões do estigma e as causas da deslocação de “o que culpar?” para “quem culpar?”, muito assente na forma como tomamos decisões (com os automatismos e enviesamentos associados) e no medo, reacção emocional hoje intensificada, propagada e generalizada. Medo que permite que adoptemos comportamentos de protecção mas que, pela irracionalidade, motiva também comportamentos discriminatórios e estigmatizantes, perigosos para a comunidade.

Reflicto ainda sobre como os próprios, cada um e a sociedade podemos contribuir para que quem sente culpa, vergonha ou estigma por ter sido infectado e poder ter infectado outros, substitua sentimentos “persistentes de discriminação e preconceito por sentimentos de integridade e respeito”.

Aqui.

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Debate – Intervenções para a Saúde Psicológica: Entre o essencial e banha da cobra

A generalidade das pessoas têm uma capacidade de adaptação e de resiliência admirável. Todos nós conhecemos histórias incríveis de superação que nos emocionam e motivam. Admirável, sim, mas não ilimitada.

Num momento de enorme incerteza e em que tantas pessoas se confrontam com tão severas adversidades, convido-vos para uma conversa que moderei entre o David Neto e o Miguel Ricou onde se procurou reflectir e distinguir aquilo que é essencial do que é “banha da cobra” quando se pensam e planeiam intervenções para a promoção da saúde psicológica. 

Ver aqui.

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PanResposta (Observador; 23.04.2020)

“Antecipar o que acontecerá para depois explicar o que não aconteceu”, assim se referia Churchill à arte da previsão. Quando passam 50 dias do primeiro doente covid-19 confirmado em Portugal, convidamo-lo a refletir como no início de março perspetivava os dias que agora vivemos e como perspetiva, neste momento, o próximo 10 de junho. Mudança, volatilidade e incerteza são marcas que cremos coletivas destes nossos 100 dias e que imaginamos presentes na sua reflexão.

Muito mudou muito rápido. Muito continuará a mudar, avolumando e tornando prolongado no tempo o enorme desafio com que nos confrontamos. Perdemos e perderemos bastante. No nosso modo de viver, na economia e emprego, na nossa saúde física e, especialmente, psicológica. Mas não apenas perdemos e perderemos. Resilientes e adaptativos que somos como indivíduos e como comunidade, rapidamente nos unimos em torno dos recursos individuais e coletivos que melhor nos podem proteger e ajudar, demonstrando uma vez mais o que é claro para a evidência científica e pouco claro para algumas opiniões. Não é o pânico generalizado que emerge em situações como as que vivemos, antes comportamentos pró-saúde e pró-sociais, de cuidado connosco, com os outros e como comunidade, acompanhados de manifestações de solidariedade e cooperação. Assistimos ainda a um positivo retomar da valorização de profissões e profissionais (jornalistas, forças de segurança, professores ou profissionais de saúde), das suas associações representativas (associações profissionais ou sindicatos) e da ciência (comportamental, económica ou da saúde).

Sempre existiu no mundo quem explorasse medos, expectativas e sonhos dos outros. Sempre existiram vendedores de banha da cobra e de loções milagrosas que resolviam todos os problemas. Sempre existiu quem lucrasse com a manipulação dos outros e se aproveitasse da sua necessidade de acreditar em algo. Nada disso acabou, mas tem vindo a transformar-se. Nos últimos anos, caminhamos de “curandeiros” (que continuam a existir em algumas sociedades, onde, como seria de esperar, logo se descobriram variadas e miraculosas soluções simples para a covid-19) para “curandices”, a partir de personalidades carismáticas que conseguem fazer do placebo tratamentos milagrosos, vendidos como valiosos segredos de vida. Desde alguns tipos de coaches e outros especialistas com termos anglófonos, com a indução de uma ligação propositada à psicologia, até “terapeutas”, com enorme diversidade, cujos pontos comuns são as intervenções não baseadas na prova científica e a não regulação das suas atividades.

Paralelamente, assistimos à forte pressão da União Europeia, em conjunto com outros países, para a liberalização dos atos das profissões de saúde, atendendo mais a razões económicas e de mercado do que à proteção dos cidadãos ou da saúde publica. O alicerce dessa pressão é o pressuposto de respeito pela auto-determinação individual assente num também pressuposto de ampla literacia para as questões de saúde dos cidadãos. Um pouco como se todas as pessoas tomassem todas as suas decisões de forma informada, ponderada e totalmente consciente. Como se o papel dos intervenientes atrás descrito não fosse exatamente o de manipular as dificuldades, expetativas e crenças de cada um, vendendo soluções fáceis e mágicas para problemas complexos, tendo em vista objetivos que, não raras vezes, não são o melhor interesse de cada pessoa ou a saúde pública.

A sociedade existe em função da necessidade de nos apoiarmos uns aos outros face à complexidade dos seus desafios. O papel dos profissionais e das profissões é esse, o de apoiar ou orientar as pessoas nas suas decisões. O seu valor central é promover o bem das pessoas com quem trabalham, não podendo ser apenas o mercado e o lucro as prioridades do seu exercício profissional. Esse será sempre, aliás, o papel primordial das associações profissionais: garantir que o exercício profissional vai no sentido de promover o interesse público, compromisso esse estabelecido com o Estado e condição central para a sua existência.

E porque ninguém consegue, sozinho, tomar as melhores decisões (na saúde, justiça ou no desenho de uma futura habitação), precisamos uns dos outros, e sobretudo precisamos de confiar uns nos outros. Esta pandemia, com todo o seu lado negativo, tem tido um retorno positivo no reforço da confiança nos profissionais. Vemos as pessoas mais próximas dos professores, dos médicos, enfermeiros e farmacêuticos, dos agentes da autoridade, dos bombeiros e até dos políticos. Vemos o reconhecimento da importância da psicologia e dos psicólogos. E vemo-lo quando mais disso necessitamos, numa situação onde não há certezas, muitas vezes nem certos e errados claramente definidos, e em que urgem decisões informadas e plurais, construídas colegialmente por quem reconhece dúvida e por isso está disponível para discutir com outros. Aliás, Desconfiemos, portanto, quem nunca tem dúvidas.

António Costa disse recentemente que “os políticos têm de evitar que a sua vontade se sobreponha ao conhecimento da ciência, precipitando decisões de que depois se arrependam”. Invistamos, portanto, na ciência, na sua valorização e transferibilidade. Nos profissionais e nas suas organizações representativas. Que sejam suporte sólido, sério e confiável para que os Antónios de cada país e de cada momento encontrem os seus kairos (momento oportuno) nas decisões, algo que cidadãos, na procura de segurança, estão agora a fazer. Se assim for, estaremos sempre mais próximos de com menos perda, iniquidade e sofrimento vencermos desafios, epidemias e pandemias diversas. Os desafios destes 100 dias e os múltiplos e também exigentes dos dias que se lhes seguirão.

Miguel Ricou e Tiago Pereira

in Observador; 23.04.2020; disponível aqui

 

 

 

 

 

 

 

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PanDemocracia (Público online; 16.04.2020)

Vivemos um tempo novo, que esperamos provisório, mas pleno de incerteza. Não sabemos quanto tempo mais durará o nosso isolamento ou a pandemia. Qual o seu real impacto na saúde ou na economia do país e do mundo. Que sociedade resultará, que alterações ao nosso modo de vida, à forma de nos relacionarmos ou à nossa privacidade.

Vivemos um tempo, a todos os níveis, desafiante. Enquanto ainda tentamos perceber como foi possível isto acontecer e esboçamos algumas reações na procura de quem culpar, unimo-nos na busca de respostas e soluções para um problema complexo e disruptivo. É curioso e reconfortante ver a confiança nos médicos e enfermeiros reforçada, a procura da ciência psicológica e dos psicólogos para nos orientar no labirinto de desafios que enfrentamos, o retomar do jornalismo de facto com um desvio do olhar das pessoas em relação à desinformação ou à pseudociência promovida por vendedores de emoções e disseminada por quem crê em soluções rápidas muitas vezes assentes em ‘estados de espírito’. Mesmo a confiança nos líderes políticos cresce ao ritmo da segurança que nos confere confiarmos nas nossas autoridades e na forma como gerem o medo, relegando para segundo plano aqueles que vendem ter, sozinhos, todas as respostas certas para tão complexa situação.

Vivemos num tempo de incerteza. Um tempo que, sem meio termo, contribuirá para o reforço da democracia representativa, da confiança entre as pessoas e nações ou, pelo contrário, aumentará o número e tamanho dos muros entre nós. Sabemos, porém, que o tempo que vivemos será por nós sempre lembrado e que como Thomas Friedman identificou, há um novo a.C / d.C – um antes e depois da COVID-19.

Um estudo do ICS e ISCTE, recentemente publicado, traz-nos dados interessantes para refletirmos sobre o futuro neste contexto de incerteza. Diz-nos que em Portugal são os mais jovens os que menos confiam na resposta das autoridades à pandemia e os que julgam que mais rapidamente ela será ultrapassada, trazendo ainda uma pista para o porquê deste aparente contrassenso: são também os mais jovens que exigem e estão disponíveis para medidas de restrição e controlo mais apertadas. Ou seja, os mais jovens parecem estar mais disponíveis para abdicar, em função do retomar de parte do quotidiano a.COVID-19 e da segurança da sua saúde. Efetivamente, com os dados que hoje possuímos, e antes de uma vacina eficaz e generalizada ou de um nível de imunidade que além de distante é também incerto, as medidas de restrição surgem como a propagada TINA (‘there is no alternative’) desta pandemia. As medidas de restrição, não o isolamento em que hoje cerca de metade do mundo se encontra.

Em todo o caso, as medidas parecem ser, para já, bem aceites pelos cidadãos, ainda que qualquer delas impacte significativamente o bem-estar da população e a economia. Também por isso, importa atender a outras duas condições fundamentais para a sua eficácia: (1) Os fatores psicológicos associados à condição de isolamento (tensão entre a necessidade de terminar o isolamento e o medo daí resultante e exaustão do processo de isolamento); (2) a perceção e aceitação do risco pela capacidade de adaptação humana (vejam-se as comunidades que habitam sopés de vulcões ativos ou a identificação com agressores – ‘síndrome de Estocolmo’). Estes fatores psicológicos e a necessidade de reabilitar a economia farão com que, mais cedo que tarde, decisores, mobilizadores sociais, agentes económicos e cidadãos pressionem para que haja um levantamento de restrições. E as soluções possíveis já se vislumbram e avizinham. Para proteger o bem maior da saúde e da vida e prevenir a falência da economia e os efeitos de confinamentos prolongados, começar-se-ão a colocar em pratos de balança restrições (hoje em Portugal ainda ‘pesadas’, amanhã veremos) vs propostas de registo e controlo digital de indicadores de saúde, movimentos ou contactos dos cidadãos (hoje em Portugal ainda ‘leves’, amanhã veremos).

Provavelmente com maior apoio entre os mais jovens, poderemos caminhar para uma vertiginosa “normalização dos instrumentos de vigilância”, conforme define Yuval Harari, que, se não cuidada, atentará contra valores chave da democracia como a liberdade e a privacidade. Conforme advertem Steven Levitsky e Daniel Ziblatt no livro hoje obrigatório “Como morrem as democracias”, a democracia depende, entre outros fatores, da auto-contenção dos eleitos. Ou seja, é necessário que os líderes reconheçam a importância dos seus adversários políticos, não limitando o contraditório, o direito à diferença e não utilizando instrumentos democráticos para enfraquecer o bom funcionamento das diversas instituições que fazem a democracia.

Esta auto-contenção implicará que quaisquer medidas que venham a ser pensadas no sentido do registo e controlo digital de indicadores de saúde, movimentos ou contactos dos cidadãos (porque no cenário atual essa discussão tenderá a ser possível) impliquem também a discussão da criação de uma estrutura que coordene e faça a gestão de todos os dados a obter. Algo próximo de um ‘sindicato de dados pessoais´ que, nesse cenário, geriria eventuais dados sempre e só em função do melhor interesse dos seus proprietários – os cidadãos. Esta estrutura teria obrigatoriamente que assegurar a informação e o consentimento de utilização de dados por parte dos cidadãos, bem como ser profundamente independente de quem governa ou procura o lucro e por isso  organizada em torno de três eixos fundamentais: a) integrar as/os melhores numa perspetiva científica e ética, congregando as áreas das ciências da saúde e comportamentais; b) integrar as/os melhores da cibersegurança prevenindo o cibercrime que advirá da reorganização do crime e do crime organizado nesse cenário; e c) a necessidade de preservar os valores da democracia introduzindo democracia na própria estrutura – permitindo por isso representatividade e, com rotatividade e limitação de mandatos, a eleição das/os melhores que o assegurem.

Vivemos um tempo de incerteza. Mas, a democracia e os seus valores não podem cair na incerteza. Aqui, urge certeza. Urge convicção, coragem e ação para os defender de demagogos, autoritários e populistas que, pandémicos, não se farão rogados no aproveitamento das nossas hesitações, inseguranças e receios, contrapondo soluções ´rápidas´ e ´simples´ que nunca resultam positivas.

Tiago Pereira e Miguel Ricou

in Público Online; 16.04.2020; disponível aqui