
Há, na língua portuguesa, verbos que têm múltiplos e muito diversos significados, podendo ser utilizados numa variedade muito ampla de situações. Reconhecer é um deles e, porque poderoso, é um verbo relevante em várias áreas científicas e que nos acompanha em momentos significativos da nossa vida pessoal, profissional e em sociedade. É um verbo essencial na forma como nos relacionamos connosco, com as outras pessoas e com o que nos rodeia.
Num nível individual, sabemos o quanto o reconhecimento pessoal, profissional ou social é importante. Sentirmo-nos ou não reconhecidas e reconhecidos pelo que somos, pelo nosso valor e valores e pelo que conseguimos, impacta a visão que temos sobre nós próprios e, nesse sentido, a construção da nossa identidade, auto-estima ou, até, o nosso compromisso e motivação no dia-a-dia. O quanto e o como somos ou não reconhecidas/os pode contribuir (decisivamente) para nos aceitarmos, para podermos mudar, tomar (melhores) decisões e para a nossa saúde e bem-estar.
Reconhecermo-nos implica procurarmos saber quem somos, como somos e porque o somos. Reconhecermo-nos é um ponto de partida importante para nos interessarmos e procurarmos saber quem são, como são e porque são assim outras pessoas.
Nesse sentido, num nível interpessoal, o auto e heteroreconhecimento promove uma maior compreensão, entendimento e uma atitude, tendencialmente, mais empática face às outras pessoas. É, portanto, um elemento preponderante à nossa abertura à e ao outro e ao que nos rodeia, facilitando o estabelecimento de relações, a co-construção, a inclusão, o envolvimento em projectos ou o trabalho em equipa. Apoia a nossa identificação em sociedade, a validação e o entendimento mútuo.
A validação e o entendimento mútuo são, por sua vez, pilares essenciais ao reconhecimento mútuo e este decisivo na construção de uma visão partilhada sobre direitos, deveres e desafios societais das pessoas, comunidades e dos países, num quadro internacional capaz de normas e acordos que, respeitando nuances culturais, sejam aceites e cumpridos. O reconhecimento social mútuo é, assim, veículo de coesão, de desenvolvimento e prosperidade social e factor protector face a formas de resolução de conflitos não construtivas. O reconhecimento social mútuo é fundamental para a construção e preservação da paz.
Quando, em Novembro de 1947, as Nações Unidas aprovaram uma resolução que pressupunha uma solução de dois Estados para a partilha da Palestina, tinham certamente presente que o reconhecimento, também político, desempenha esse papel crucial na resolução de conflitos e na promoção da paz. Infelizmente, com fases e momentos históricos apesar de tudo distintos, mas com momentos tenebrosos, como os ataques terroristas inqualificáveis, perpetrados pelo Hamas, em Israel, a 7 de Outubro do ano passado e os crimes e atrocidades cometidas pelo exército de Israel, em Gaza daí até hoje, nunca os dois Estados foram reconhecidos pela totalidade ou quase totalidade dos países, entre si e, também por isso, nunca a paz foi verdadeiramente cumprida.
Apesar da ampla aceitação da solução de dois Estados – seja pelo reconhecimento do Estado da Palestina concretizado por 152 (mais de 75%) dos países que integram as nações Unidas, seja pela defesa desta solução por Estados que não concretizaram o reconhecimento da Palestina – um conjunto de países, onde se inclui Portugal, vários outros países da União Europeia e os Estados Unidos da América, persistem num entendimento de que não chegou ainda o momento para se efectivar o que assumem defender. Paulo Rangel, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, disse, há dias, que “nunca houve nenhum Governo que fizesse tanto pelo reconhecimento da Palestina”. Falava do actual Governo, justificando, porém, a decisão de não acompanhar o reconhecimento efectuado recentemente por Espanha, Noruega e por uma Irlanda cuja história é bem demonstrativa da importância do reconhecimento e legitimação mútua, em virtude da sua participação no processo que culminou no Acordo da Sexta-Feira Santa em 1998 e no processo de construção da paz na Irlanda do Norte.
Pese embora os enormes desafios que se colocam e que determinam que este reconhecimento não seja consensual, é hoje claro que, conforme o não reconhecimento de pessoas e comunidades as impacta significativamente, o não reconhecimento do Estado da Palestina contribui para um quadro de incerteza e de confusão, por vezes propositada, entre organizações terroristas e o povo palestiniano. Contribui, também, para a diminuição das condições e contexto para que a Palestina possa criar e desenvolver as suas instituições, preservar a sua segurança, oferecer horizontes de esperança e futuro à sua população, no seu país e, com isso, fortalecer a prevenção do terrorismo e diminuir o poder, formal e informal, de organizações como o Hamas. Finalmente, diminui o papel de mediação das organizações internacionais, como é exemplo a ONU, na prossecução de uma paz duradoura na região e do respeito pelos Direitos Humanos.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, há hoje robusta evidência sobre a importância do reconhecimento e sobre o seu impacto na vida de cada um/a de nós. Reconhecermos é, portanto, uma ferramenta poderosa, ao alcance de todas e todos, local e globalmente, para construirmos mais e melhor relação connosco, com as outras e outros e em comunidade. É, também, uma ferramenta para validar, para caminharmos para uma sociedade de direitos, deveres e de maior equidade. Para nos acolhermos e construirmos paz. Comecemos por reconhecer.
Tiago Pereira
Reconhecer
in Sábado (Ao redor…); 05.06.2024
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/reconhecer