Por estes dias, olhamos ao nosso redor e não é difícil que, face a certos acontecimentos e fenómenos sociais, sintamos uma certa “repetição da história” e um regresso a situações que, porventura, julgávamos “impossíveis de repetir”. Da Guerra na Europa, a um certo discurso de ódio, passando por um certo recrudescimento da violência e desigualdade de género, para dar apenas alguns exemplos. Tudo a lembrar-nos que não há futuro sem passado, passado este que importa ter sempre presente e “inscrito” para um melhor futuro.
Penso-o, hoje, a propósito do vertiginoso avanço da inteligência artificial e da recente disponibilização do ChatGPT 4o, face mais visível e reconhecida de uma série de ferramentas que, a cada dia, passamos a dispor e/ou impactam a nossa vida. Em rigor, que algumas pessoas, e apenas algumas pessoas – por razões diversas, desde o conhecimento e literacia, aos receios, medos e resistência e, naturalmente, às desigualdades sociais e económicas – têm ao seu dispor, mas que impactam, significativamente, a vida de todas as pessoas.
E penso-o evocando Stephen Hawkins a partir do artigo que partilho, que publicou no “The Independent” com colegas há 10 anos (4 anos antes do seu desaparecimento). Parte da pergunta base se “estamos mesmo a levar a sério as implicações da inteligência artificial?”, alertando que é um erro (talvez “o maior erro da história humana”) pensarmos que máquinas superinteligentes sejam “mera ficção científica” quando os avanços na inteligência artificial são (eram já) tão velozes.
Hawkins escrevia-o quando surgiam as primeiras experiências de condução autónoma ou de assistentes como a Siri, portanto distante ainda do potencial que hoje reconhecemos noutras ferramentas, mas suportado nos “investimentos sem precedentes nesse desenvolvimento” e nas fundações “conceptuais e teóricas sólidas” que o faziam crer (como hoje testemunhamos) que o desenvolvimento seria tremendamente impactante e rápido.
Hawkins afirma que a IA podia ser o mais transformador acontecimento na história humana e ter, porventura, “potencial de erradicar a guerra, a pobreza ou a(s) doença(s)” mas, ao mesmo tempo, dois enormes riscos: a) de atingirmos a superinteligência e tecnologias que possam “desconstuir mercados financeiros, manipular líderes humanos ou desenvolver armas que não podemos sequer compreender”; b) de fazermos pouco para, pela investigação, preparação e regulação, influenciar positivamente estas mudanças (sobre isto, partilho este meu pequeno contributo).
Estávamos a “levar a sério” há 10 anos? E estamos hoje? Penso que não totalmente e que podemos, pensando e inscrevendo o passado, fazer mais no presente (com o contributo e reivindicação de cada um/a de nós) para um futuro. Melhor.