Penso claro para todas e todos que as questões da saúde mental estão hoje muito mais presentes no espaço/debate público face ao que acontecia há muitos, alguns e, até, há poucos anos. São diversos os fenómenos que para isso contribuem e que tornam relevantes projectos de comunicação nesta área que promovam a literacia, a personalização/concretização da informação e, fundamentalmente, a credibilidade, factualidade e cientificidade da mesma.
Penso claro, também, que este movimento beneficia do envolvimento de todas as pessoas. Que a secção do Observador dedicada à Saúde Mental é um excelente exemplo, pelo envolvimento de diversas entidades, projectos, profissionais de saúde e cidadãos. Que o título escolhido para a newsletter da secção (“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental”), da responsabilidade do Paulo Farinha, é profundamente significativo e representativo disso mesmo.
Há dias foi publicado o artigo/contributo meu para o projecto, que partilho. A propósito do título da newsletter chamei-lhe “Temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social” e, destacando a importância de “aceder[mos] a informação de qualidade, cientificamente validada e ajustada aos nossos conhecimentos, experiências e necessidades para que possamos melhor reconhecer o que estamos a vivenciar, atribuir-lhe significado e promover mudanças”, reflicto sobre o facto de “falar sobre saúde mental implica[r] falar também sobre o que a influencia e, muitas vezes, determina”, particularmente da pobreza e exclusão social.
“Cresci numa aldeia que durante muito tempo via partir pessoas, demasiadas pessoas, e com elas, “partia” famílias, relações e a comunidade. Pessoas que, como o meu avô (e depois os meus 2 tios), saiam da aldeia e depois do país a pé, boleia aqui, boleia ali, a caminho de diferentes cidades e países (…) Eu sei o quanto a pobreza impacta a possibilidade de saúde, de bem-estar, de autodeterminação. Eu sei o quanto a pobreza e a exclusão limitam e obstaculizam a saúde mental. Eu sei e você sabe-o. Se queremos falar sobre saúde mental temos (mesmo) de falar sobre pobreza e exclusão social.”
Mas “todas as pessoas que vivem em situação de pobreza têm ou vão ter uma dificuldade de saúde mental ou mesmo desenvolver doença mental? Ou, todas as pessoas com doença mental vivem ou viveram em situação de pobreza e exclusão?”, questiono. “Não. E não. Mas, não sendo uma inevitabilidade, há uma relação forte entre a vivência em situação de pobreza e exclusão e os problemas de saúde mental, principalmente o stresse, a ansiedade e a depressão.”
“Temos (mesmo) de falar sobre saúde mental. De pessoas, da vida dessas pessoas por trás dos impressionantes números. De acesso e de equidade e qualidade no acesso a literacia, recursos e serviços na área da saúde mental, certamente. Mas, se queremos falar de saúde mental, temos também de falar sobre como combater a pobreza e os seus ciclos geracionais e de como construir uma sociedade mais inclusiva e mais sensível à diversidade.”