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A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência (Ao redor…; 11.07.2023)

Eis-nos no Verão. Tempo propicio a pensarmos em nós, no nosso corpo e mente, na nossa saúde e bem-estar. Tempo propicio a associarmos o calor, por vezes extremo, a “bom tempo”. Os alimentos orgânicos ou biológicos a algo “mais saudável”. Tudo quanto é natural a algo “que faz bem”, é seguro e eficaz. Nada mais simples. Nada mais, sistematicamente, aprendido. Nada mais errado.

Não, calor, por vezes extremo, não é “bom tempo”. Não, os alimentos orgânicos ou biológicos não são sempre “mais saudáveis” e seguros. Não, há alimentos naturais que “não fazem bem” e que podem, potencialmente, ser mais perigosos que outros, não biológicos ou orgânicos. Não, há produtos químicos ou sintéticos que são muito mais benéficos face a naturais na promoção da saúde e do bem-estar.

A complexidade desta questão reside no facto dos produtos naturais serem associados a algo “saudável” e “seguro” estando hoje, e na nossa sociedade, abundantemente disponíveis e intensa (por vezes, eficazmente) promovidos e “marketizados”. Podemos, hoje, sem grande dificuldade quando existe poder de compra, alimentarmo-nos todo o dia com produtos orgânicos ou naturais, considerando que desde 2019 mais de 60% dos novos produtos alimentares colocados no mercado mencionam ser “orgânicos”, “naturais” e/ou “sem aditivos”.

O viés pró-natural conjuntamente com o viés desta crescente disponibilidade, reforça a preferência pelo natural e, de certa forma, a “falácia do apelo pelo natural” que justifica, também, porque acabamos a aceitar pagar mais por estes produtos (face a convencionais) e porque inferimos benefícios para a saúde e bem-estar destas escolhas, alimentando todo o ciclo atrás descrito. No entanto, estas nossas escolhas não resultam, necessariamente, de recomendações oficiais e, como Alexandra Bento, Bastonária da Ordem dos Nutricionistas, recentemente afirmou “a evidência científica até à data não corrobora que o consumo de alimentos biológicos possa estar associado a menor incidência de doenças crónicas associadas ao estilo de vida”.

Esta “falácia do apelo pelo natural” tem dois riscos que importa ter presentes. O primeiro relativo a uma potencial generalização da ideia de que os alimentos / produtos convencionais ou químicos são menos saudáveis ou prejudiciais, algo que poderá conduzir a que sejam menos consumidos / utilizados, penalizando particularmente as pessoas e famílias com maiores dificuldades económicas ou com menor acesso a estes produtos (por exemplo, também por viveram em zonas mais remotas).

O segundo relacionado com a associação entre o apelo pelo natural e a negação da ciência, muito expressa, por exemplo, na crescente desconfiança e recusa de terapêuticas químicas (antibióticos e medicação no geral, quimioterapia, …), de terapêuticas baseadas na evidência como a psicoterapia ou outras intervenções psicológicas ou na desconfiança e negação das vacinas, apesar de terem sido e serem algo absolutamente preponderante na melhoria global de bem-estar e qualidade de vida, no aumento da esperança média de vida e diminuição da mortalidade infantil ou na prevenção e erradicação de um conjunto de doenças nas últimas largas décadas.

Mesmo na União Europeia (noutros países os dados são ainda mais significativos), e mesmo ainda em período pré-pandemia (na pandemia alguns destes problemas foram agudizados), mais de 1 em cada 3 cidadãos diziam que as vacinas poderiam “causar as doenças para as quais criam imunidade” e quase 1 em cada 3 “diminuir o sistema imunitário”, sendo a confiança na imunidade natural associada a ideias pró-naturalistas e um dos factores que mais contribuem para a hesitação na vacinação.

Estamos no terceiro ano, da terceira década do terceiro milénio e, num Mundo onde a ciência e conhecimento estão mais acessíveis que nunca, o espaço e o debate público é profundamente influenciado por teorias da conspiração, desinformação ou notícias falas e promessas acientíficas ou pseudocientíficas de resolução dos problemas, dos mais simples aos mais complexos. Como Steven Pinker refere, mesmo para problemas muito complexos e com muito sofrimento associado para pessoas, famílias e comunidades, “o problema é que as pessoas aceitem (e utilizem) as soluções encontradas para os problemas”, vencendo-se o obscurantismo, missão fundamental da sociedade hoje.

Missão fundamental, mas exigente, quando existe um valor monetário e comercial significativo associado a esta situação e cultura. Nos EUA, o sector da saúde mental foi no final de 2022 a área com maior investimento na saúde digital e, ao investimento, não correspondeu o desenvolvimento e a necessária utilização da ciência e da melhor evidência científica, algo particularmente notório na proliferação de “aplicações de saúde mental”, não baseadas em evidência científica. Aplicações que, não raras vezes, prometem soluções para problemas complexos como a ansiedade ou a depressão com apelativas, também por simples, “terapias naturais ou orgânicas” (falar com amigas/os, sair de casa, …), importantes certamente, mas nunca substitutas de intervenções convencionais baseadas na evidência como a intervenção psicológica ou psicofarmacológica, quando necessárias. Significativo valor monetário e comercial, portanto, que vive dos desafios do presente e para o presente, mas que impacta verdadeiramente o futuro de todas as pessoas, seja no fomento do discurso anticiência, seja no fomento da desconfiança, seja no fomento de discursos mais populistas, antipolítica e políticos. Todos, em todo o caso, têm em simultâneo e paralelo a colocação dos interesses pessoais de alguém, de algum movimento ou partido, de alguma empresa ou negócio, acima do bem-comum e uma não preocupação com as pessoas em situação de maior vulnerabilidade, com um futuro de confiança, de ciência e de coesão. Com um futuro mais potencialmente promotor e possibilitador de bem-estar para todos.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, passou a ser necessário “marchar” pelos factos, como assinalava recentemente um cartaz de um jovem numa manifestação por acções face à crise climática [“I can’t believe in marching for facts”]. Pelos factos, pela saúde pública e por acções contra a falácia do apelo pelo natural e contra a negação da ciência.

 

Tiago Pereira

A falácia do apelo pelo natural, a desigualdade e a negação da ciência

in Sábado (Ao redor…); 11.07.2023

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/a-falacia-do-apelo-pelo-natural-a-desigualdade-e-a-negacao-da-ciencia

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