“Penso que tudo quanto considerava sólido se apresenta hoje como instável, líquido.” P. Pomerantsev há muito estuda (e pensa) o fenómeno da desinformação. Tem, na sua vida, um conjunto de experiências familiares (perseguição do KGB aos seus pais) e pessoais (viveu na Rússia entre 2001-2010) que certamente acrescentam pontos de reflexão e lhe permitem afirmar, com propriedade, a volatilidade do tempo que vivemos e que “os dramas e rupturas na sua vida pessoal e familiar” o ajudam a compreender como começam e acabam os processos de (des)informação, tal qual sistemas de forças.
“9 décadas Vs. 9 meses – A saúde mental como matéria-prima do tempo que vive(re)mos”, 31º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) procura reflectir sobre a volatilidade do tempo que vive(re)mos a partir da sua aceleração (olhando os últimos 9 meses por comparação a 9 décadas, a partir da genealogia do meu filho mais novo), transformação e do impacto dos acontecimentos de vida (dramas e rupturas, mas não apenas, na vida pessoal e familiar, mas também na social e profissional) enquanto sistemas de forças com poder de mudança do presente, de condicionar o futuro e impactar diferentes dimensões de vida, incluindo a saúde (também mental), o bem-estar ou a produtividade.
O artigo reflecte, também, a necessidade da inscrição desta realidade na perspectiva de que a saúde mental é hoje um enorme factor de protecção e da necessidade de reflectirmos sobre as “competências mais úteis para o nosso futuro pessoal e profissional, de produtividade e bem-estar”, nomeadamente estimular o Ensino Superior (ES) a responder “à sobrevalorização de competências técnicas” com “a promoção de competências socioemocionais e facilitadoras (autoestima, autorregulação emocional, empatia e altruísmo, capacidade de trabalho em equipa, …), hoje, embora já menos, ainda subvalorizadas.
Procura, ainda, enaltecer a premência e coragem do investimento da FLAD – Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (com apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses) pelo programa dirigido a serviços de saúde/psicologia do ES, baseado no conceito de saúde mental, investindo (até 100.000€) em projectos que visem a sua promoção, a promoção da literacia, de competências socioemocionais e da resiliência (não apenas na recuperação, mas na resiliência). Um programa responsivo às necessidades da sociedade, de presente e futuro, e à evidência científica que confirma a sua premência/pertinência. Um programa que responde à forma desproporcional como a população jovem foi afectada pela pandemia, tem ainda lacunas na literacia em saúde (mental) e a uma “sociedade líquida” que nos deve mobilizar para um desígnio colectivo: “acreditar que seremos capazes de construir um futuro com maior produtividade, equidade e possibilidade de bem-estar de todas e todos no qual a população jovem é essencial”.
Um futuro com pessoas, afinal, mais do que a (tentarem) cumprir regras e procedimentos, preparadas e motivadas para (tentarem) tomar boas decisões.