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Ainda a Guerra…

“A incerteza cai com a tarde no limite da praia.” Começa assim o poema de Nuno Júdice (A incerteza) que termina como termina este texto: “cai-me da página(…)para dentro da própria alma”. A incerteza, que “cai com a tarde”, é hoje e para o futuro, tão presente na nossa vida como cada umas das tardes e inscrita “dentro” da na nossa “própria alma”. Basta pensarmos quando, ao incerto, acrescentamos espanto, olhando 3 acontecimentos de 3 dias 29 de Março de 3 dos últimos anos: 2004 – 7 países, incluindo 3 com fronteira com a Rússia (Estónia, Letónia e Lituânia) aderem à NATO; 2017 – Reino Unido invoca o artigo 50 do Tratado da União Europeia (UE) e inicia, formalmente, o processo de saída da UE; 2022 – 36ª dia de uma Guerra que resulta da ilegítima invasão da Ucrânia pela Rússia. 3 acontecimentos que, se recuássemos 3 anos a cada um deles, dificilmente poderíamos prever. Um pouco como hoje não podemos, com segurança, prever o que sucederá no Mundo nos próximos 3 anos ou não podemos, com segurança, prever o que sucederá na Guerra na Ucrânia nos próximos 3 meses ou, até, 3 dias.

Quando assim é, creio relevante reflectirmos sobre o presente, pensando e inscrevendo o passado, para nos projectarmos com a maior segurança e controlo possível no futuro. Também por isso, partilho, uma participação no programa Corpo Clínico (10.03.22) do Canal S+ conduzido pelo Vasco Domingos e que, tratando a Guerra, juntou-me a Anna Sukhoviy, Joao Antunes, ao Gustavo Tato Borges, ao Gonçalo Gonçalves Órfão, ao Hugo de Sousa e à Catarina Martins Bettencourt.

Nele reflitco sobre como a complexa crise que vivemos acrescenta imprevisibilidade e incerteza à imprevisibilidade e incerteza que já resultava de outras crises (não apenas da pandemia) e como a guerra nos afecta a todas e todos. Reflicto sobre o encorajamento e a esperança que decorre da mobilização das pessoas, incluindo as psicólogas e psicólogos, que continuam na Ucrânia a apoiar outras pessoas num momento particularmente exigente das suas vidas e que em tantos países procuraram organizar respostas de acolhimento, integração e recuperação de pessoas forçadas a emigrar. Procurei realçar a importância da comunicação com crianças e jovens. Também do propósito, do significado e do agenciamento no lidar com as emoções que naturalmente sentimos e da importância dos primeiros dias e dos primeiros momentos de acolhimento, incluindo os primeiros socorros psicológicos, para processos de integração bem-sucedidos, independentemente das pessoas virem a escolher (ou ter que) estar em Portugal poucos meses, poucos anos ou mais tempo. Falei de medo e da forma como o medo foi, é e será utilizado para explorar vulnerabilidades e construir narrativas que promovem e suportam tomadas de decisão e comportamentos. Falei, finalmente, de trauma, de trauma colectivo, da possibilidade de reparação e de construção de paz.

E…“Então, a incerteza cai-me na página, e arrasta-se pelo poema, até me escorrer pelos dedos para dentro da própria alma.”

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