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Ambição Moral

Fórum Philea, Gent, Maio de 2024. Rutger Bregman, que acabara de publicar o seu novo livro intitulado “Ambição Moral – Como parar de desperdiçar o talento e começar a fazer a diferença”, sobe ao palco e afirma que a própria filantropia vem-se “confrontando com uma ambição moral que resulta da mistura de algum activismo com espírito empreendedor, dirigidos ao desmantelar de barreiras sistémicas” que persistem na sociedade. Mais, diz que para ser bem-sucedida nessa missão a filantropia deve reimaginar-se a partir de uma mudança fundamental: que as pessoas em situação de maior vulnerabilidade deixem de ser receptoras de caridade e surjam como parceiros [acrescento promotores] da mudança.

É. Num momento em que, apesar da abundância de conhecimento e da utilização de recursos, a desigualdade cresce em parte significativa do Mundo… Em que se assiste a alguma quebra das pequenas doações e de alguma “filantropia” comum/quotidiana e de maior proximidade Mundo fora, importa que a (excelente) notícia da presente expansão da filantropia em Portugal possa co-existir com a mudança que Darren Walker propõe: que a filantropia avance do foco exclusivo no que (what) se passa, concentrando-se, também, no como (how) e no porque é que (why) assim se passa. Isto, em cada desafio societal complexo. Isto no Mundo, em Portugal e em cada uma das suas regiões, concelhos, lugares.

Penso que este movimento é fundamental para garantir maior confiança nas organizações sociais e filantrópicas e chave para uma mobilização comunitária que resulte na inscrição de que o nosso bem-estar individual está intimamente relacionado com a possibilidade de bem-estar colectivo e que, como Bregman propõe neste seu novo livro, caminhemos de uma definição de sucesso baseada maioritariamente em ganhos pessoais/individuais para uma que inclua o benefício da comunidade/sociedade.

Curiosamente – e curiosamente começa por “c” – a confiança, a par da competência, conexão, caracter e compaixão é parte de um modelo proposto por R. Lerner relativo ao desenvolvimento positivo (saudável) da população mais jovem. O modelo, originalmente apelidado de 5 “C” e recentemente utilizado pela Teresa Raquel Pereira no seu excelente trabalho de doutoramento, recebeu mais tarde um novo “c” relativo ao contributo (para a sociedade). Eu ouso acrescentar dois outros “c”: criatividade e comunidade.

Ficamos com 8 “C” que nos ajudam a posicionar aquilo que, a partir da visão, sonho e generosidade do Carlos Goncalves, temos agora enquanto oportunidade e missão da Fundação Mendes Gonçalves. A busca deste benefício da comunidade e, a partir dela, da sociedade. De uma filantropia de proximidade, que estimule e inspire outras e outros e focada no como e no porquê dos desafios, para neles intervir. Contribuir. Com a ambição moral de ter as pessoas como agentes promotores da mudança. Necessária. Fundamental.

Um 8 que + ou – 90 graus vira infinito… Porque infinito é o caminho da Golegã para o Mundo. O caminho a percorrer.

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Quantos sou?

“Quantos sou?”, interpela-nos aquele cantinho, daquela casa – hoje Museu – outrora habitada e vivida por Fernando Pessoa, escritor e poeta português que mais sentido deu a esta pergunta. Ali resta certamente um poema de Álvaro de Campos, um dos seus eus, que assim começa: “Sim, sou eu, eu mesmo, tal qual resultei de tudo”.

Por estes dias foi comunicado que sou, desde o início do ano, CEO da (nova) Fundação Mendes Gonçalves. Uma honra e um privilégio tremendos. Uma responsabilidade imensa. Mas… “Tal qual resultei de tudo”.

Um tudo que começa na pessoa ímpar do Carlos Goncalves. Desenvolveu com tantas e tantos, como sempre diz, e a partir de uma ideia e vontade sua e do seu Pai, aquilo que é hoje a Casa Mendes Gonçalves, dos seus princípios e valores aos produtos que produz e à forma como os produz, sempre com as pessoas, a comunidade e ao redor como foco.

Tudo o que (se) construiu foi, também, porque, ousou pensar o presente a partir do futuro ao contrário de muitas e muitos que pensam o futuro a partir do presente. Isto não compreendi logo, naquele dia em que o conheci, talvez nem nas vezes seguintes, mas compreendo-o agora. Não é só por isso, mas é, creio, também muito por isso que, com uma generosidade incrível, criou e é o fundador da Fundação Mendes Gonçalvesque nasce com o propósito maior de assegurar o legado permanente da Casa Mendes Gonçalves ligado ao impacto positivo na sua comunidade e da sua comunidade para o Mundo, pela doação da sua parte à Fundação. Algo incomum e de uma generosidade incrível, dizia. Acrescida da de, com a Conceição Zagalo, me confiarem este papel e esta enorme responsabilidade.

A Conceição Zagalo é outra das pessoas incríveis que este nosso país e Mundo têm. Uma humanidade sem limites, uma forma de ser próxima, relacional, de nos e tudo suportar. Uma energia e inquietude boas a que junta um traço incomum por estes dias: um optimismo e uma vontade de viver a vida contagiantes. Uma Mulher incrível, dizia, que se juntou ao Carlos na ideia e no cerzir de todos os pensamentos para a consolidação da obra maior de uma Fundação e para ser a Presidente do seu Conselho Executivo. A Conceição que em mim confiou e que lá estava quando conheci o Carlos Goncalves. Juntos.

Mas há mais. Foste tu Liliana Valpaços, que sentiste, certamente primeiro, que a Conceição Zagalo e eu nos gostaríamos de conhecer (estavas certíssima) e que, eventualmente, haveria mais em comum que apenas aquela proximidade boa entre os seus Riachos e as minhas Lapas. Foste tu, e por isso muito te agradeço (bem sabes), que estimulaste a tal serendipidade e que lá estavas quando conheci a Conceição Zagalo e que lá estavas quando conhecemos o Carlos Goncalves. Juntos.

E agora? Juntos, só porque juntos, e juntos com quem mais se juntou, vamos fazer o que ainda não foi feito, da Golegã para o Mundo.

Obrigado. Como vos agradeço.