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COVID-19 Psicologia

Entrevista Psis21 Especial COVID-19 (Ordem dos Psicólogos Portugueses; Maio de 2020)

– Qual o objectivo da criação de um Gabinete de Crise dentro da estrutura da OPP para a pandemia COVID-19? 

Tendo em consideração a informação disponível e o desfasamento temporal face à evolução do vírus e da doença noutros países (incluindo na Europa), cedo percebemos o fortíssimo impacto que teria no quotidiano do país e as suas consequências directas e indirectas. Nesse momento já trabalhávamos com a DGS na elaboração de um primeiro documento sobre comunicação de riscos e crise baseada na percepção de riscos e entendemos que, enquanto associação pública profissional de uma área tão relevante nas áreas do comportamento, saúde pública e psicológica, teríamos que assegurar condições para reforçar a colaboração com as autoridades (de saúde, de educação, …) e com decisores; disponibilizar conteúdos e conhecimento, contribuindo para a literacia da população e para a informação do debate público sobre temas relevantes, directa ou indirectamente, relacionados com a COVID-19 e as suas consequências; manter toda a nossa resposta aos membros, sem quebra das nossas atribuições, criando / reforçando medidas de apoio e desenvolvendo e disponibilizando ferramentas de apoio à prática.

Neste sentido, entendeu-se importante a criação de um gabinete de crise como estrutura de operacionalização de um plano específico de resposta à crise que vivemos que, articulado com a Direcção da OPP, teve e tem capacidade e competência para reajustar, do ponto de vista das prioridades e da afectação de recursos, a equipa da OPP, os diferentes órgãos sociais, grupos de trabalho, mobilizando também outras colaborações com psicólogas/os ou outras entidades.

– Qual a estratégia adoptada a nível interno? 

Numa atitude que procuramos sempre de total abertura e transparência com todas/os, priorizando a segurança de cada trabalhador/a, começámos por preparar a organização para o teletrabalho, para as novas necessidades daí decorrentes e para as relacionadas com o papel da organização na situação de crise. Esta estratégia implicou a flexibilização das equipas, tendo-se criado uma Task Force específica para coordenação e apoio à produção de conteúdos para sociedade em geral e para psicólogas/os e que incluiu FAQ, documentos de apoio e propostas de conteúdo para diferentes produtos gráficos ou vídeo (coordenada pela Andresa Oliveira e que conta total, parcial ou pontualmente com a Ana Faria, Catarina Silva, Edite Queiroz, Joana Monteiro, Sara Cabaço e Sofia Nobre).

Foi também reforçada a equipa da formação coordenada pela Patrícia Vieira. Esta equipa foi responsável pela rápida passagem de toda a formação da OPP (efectivos e psicólogos juniores) para formato à distância, acompanhando o crescimento muito significativo dos números de formação e-learning (com a sua gratuitidade) e b-learning (sessões síncronas). Além das actividades de formação, a equipa passou a acompanhar os Fóruns OPP entretanto criados (10), as formações associadas às linhas de aconselhamento psicológico do SNS 24 (LAP SNS24), de informação e outras linhas de apoio e o acompanhamento e gravação dos webinars disponibilizados pela OPP (20). Finalmente, reforçou-se a equipa de comunicação e imagem, coordenada pelo Duarte Zoio, para melhorar a resposta de produção e design de documentação e outros produtos gráficos e vídeo.

Além deste reforço, sentimos necessidade de reestruturar as equipas de atendimento e apoio ao membro (coordenada pelo Bruno Soares) e área financeira (coordenada pela Esmeraldina Contramestre), no sentido de se assegurar todo o atendimento à distância, a distribuição de correio, a emissão de facturas e outros documentos de pagamento e o envio de vinhetas profissionais e outros documentos aos membros, ainda que a partir de fora das instalações da OPP. Procurámos, ainda, melhorar a capacidade de resposta aos membros em áreas relacionadas com a actividade profissional, ética ou de acompanhamento aos apoios às linhas de informação e LAP SNS24, através de uma equipa coordenada pelo Pedro Félix. Finalmente, realce para todo o suporte da equipa de informática (coordenada pelo Bruno Rodrigues), essencial ao assegurar da (infra)estrutura que permitiu disponibilizar rapidamente todas as ferramentas de apoio ao trabalho à distância à equipa da OPP, além do reforço das plataformas que permitiram, imediatamente, o incremento da resposta aos membros, por exemplo nas áreas de formação, desenvolvimento profissional ou de autocuidado (fóruns).

A flexibilidade, atrás referida, foi chave no redesenho da estrutura e na reafectação dos recursos, viabilizando a capacitação da resposta específica da OPP à situação de crise sem que isso pusesse e ponha em causa qualquer das suas atribuições, mantendo-se todos os principais processos e apoios aos membros operacionais e tendo-se mesmo criado, reforçado e facilitado outros – também ao nível da gratuitidade de minutas, da facilitação de processos de mudança de estado ou de pedido de declarações.

– E do ponto de vista externo – quais foram os eixos estratégicos e de que forma se articularam?

A separação interno vs externo poderá não ser a mais descritiva da forma como estamos hoje organizados. Em todo o caso, além do reforço de ferramentas para a prática profissional das/os psicólogas/os nesta fase, procurando dar um contributo para o desafio que se lhes colocavam e colocam, foram estabelecidas parcerias estratégicas que permitiram reforçar o impacto, a eficácia, a disseminação e o alcance da nossa acção.

Além das autoridades e decisores (a seguir detalhadas), procuramos colaborações estratégicas com órgãos de comunicação social (OCS), como foram exemplo as parcerias com a TSF (Sem medo do medo) ou Rádio Renascença (Quarto do fundo), que acresceram às diversíssimas participações de psicólogas/os nos OCS neste período. Procuramos, também, parcerias com entidades para a produção de documentação específica para determinadas áreas ou ‘populações’, como são exemplos as associações patronais ou sindicatos, a Federação Nacional de Associações Juvenis, o SICAD ou a FENACERCI. Ainda, colaboramos com instituições na criação de linhas de aconselhamento psicológico, potenciando a formação preparada e disponibilizada para a LAP SNS24 e apoiando a identificação de psicólogas/os com as características solicitadas, como as linhas criadas pela Ordem dos Farmacêuticos, pela Associação de Profissionais Licenciados de Optometria e Câmara Municipal de Lisboa. Finalmente, reforçámos parcerias com associações internacionais, como as nossas congéneres de Angola, Cabo Verde e Moçambique, a EFPA ou um grupo informal de mais de 50 associações profissionais dos cinco continentes, resultante da SummitInternacional realizada em Novembro de 2019, em Lisboa.

Uma nota final para o investimento realizado no reforço dos Diálogos da Psicologia e na criação de três novos formatos live da OPP (Conversa à 3ª; Debate à 5ª e País em Pandemónio) com o último destes programas a ser claramente dirigido para a sociedade.

– De que forma foi feita uma concertação do trabalho da OPP com as entidades oficiais, nomeadamente Ministério da Saúde e Direcção Geral da Saúde?

Foram várias as formas e os momentos dessa concertação. Como atrás referido, desde antes dos primeiros casos em Portugal existiu uma colaboração directa com a DGS, trabalho que continuou e que se intensificou dando origem a documentos conjuntos da DGS / OPP sobre comunicação para decisores e mobilizadores sociais, autocuidado de profissionais de saúde, horários de actividades para crianças e adolescentes e  um webinar conjunto sobre o papel das/os psicólogas/os na crise que vivemos. Além destes contributos, a OPP procurou adoptar uma postura responsável de agente promotor de comportamentos pró-saúde e pró-sociais, seguindo sempre as recomendações das autoridades e sublinhando a importância de que todas/os assim o fizessem.

A colaboração com o Ministério da Saúde (MS) não se restringiu à DGS, tendo sido desenvolvidos trabalhos com a SPMS (Linha de Informação COVID-19 e LAP SNS24) e com o próprio MS, com quem articulámos em áreas políticas, apresentando contributos específicos sobre a estratégia seguida nas áreas da saúde psicológica / mental relativamente à situação que vivemos e viveremos e tendo a OPP estado representada pelo seu Bastonário nas reuniões periódicas do MS de acompanhamento e discussão da situação do país. Destaque ainda para colaborações com o Ministério da Educação visando a partilha de documentação, a criação de produtos conjuntos (autocuidado de professores e educadores) e um produto vídeo para o projecto #EstudoemCasa), com o Instituto de Segurança Social e para a participação de inúmeras/os psicólogas/os em representação da OPP em órgãos de consulta que têm contribuído para este momento do país, como é o caso do Conselho Nacional de Saúde.

– Esperava uma adesão tão grande dos psicólogos/as aos reptos que foram sendo lançados, nomeadamente no que diz respeito à angariação de profissionais para a Linha de Informação COVID-19 do SNS24 e depois para a Linha de Aconselhamento Psicológico do mesmo SNS24, criada de raiz ou para a rede de Agentes OPP para a Promoção de Comportamentos Pró-Saúde e Pró-Sociais?

Esta é talvez a pergunta mais simples de responder. Sim, sinceramente esperava. E esperava na medida em que desde cedo recebemos inúmeras manifestações de psicólogas/os no sentido de se disponibilizarem para algum apoio, em linha, com o que já havíamos assistido aquando dos graves incêndios de 2017 e com uma dimensão identitária da profissão – a procura de apoio ao outro, em particular nos momentos de especial dificuldade ou vulnerabilidade. Este movimento resultou em 800 colegas a manifestarem interesse em menos de 24h para reforçar a Linha de Informação COVID-19 do SNS24 (a SPMS seleccionou 200 e destes 63 transitaram para a LAP SNS24) e em termos hoje mais de 550 agentes OPP para a promoção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais.

Devem realçar-se os mais de 80 projectos submetidos à via verde de apoio à investigação sobre o que vivemos, criada pela OPP, parte deles provenientes das instituições de ensino superior que, em Portugal, estão a formar as/os futuras/os psicólogas/os e sinal da participação da ciência psicológica na construção de evidência nesta área. Tal como creio devermos reconhecer o conjunto significativo de projectos que vimos serem criados por ou tendo a participação de psicólogas/os, numa clara demonstração do envolvimento da nossa classe profissional na resposta às necessidades das pessoas, das comunidades e do país.

– No que diz respeito à sociedade civil, o que foi feito? Considera que depois do trabalho realizado pela OPP e pelos psicólogos a nível nacional, que houve um aumento da percepção da relevância da Psicologia na gestão de crises como esta?

Devemos ter presente que a nossa leitura, a este nível, será sempre enviesada, ainda que existam elementos factuais que devem ser reflectidos. Desde logo, o número de iniciativas da OPP neste período (cerca de 650), a capacidade de produção e disponibilização de documentos ou outros produtos (cerca de 200) e os dados relativos a notícias e ao alcance das mesmas – os melhores números de sempre da OPP.

Estes dados corresponderão, certamente, a um reconhecimento da ciência psicológica no apoio à compreensão dos fenómenos que vivemos, do seu papel nas questões relacionadas com o comportamento dos indivíduos e da sociedade (incluindo a percepção do risco e as dimensões emocionais) e com a importância da saúde psicológica. No entanto, a este reconhecimento, também dos decisores, continua a não corresponder a existência de recursos condizentes com o potencial e a importância da resposta, sendo necessário um significativo crescimento do número de psicólogas/os nos cuidados de saúde primários onde existem hoje 2,5 (!) por cada 100.000 pessoas.

Ao reconhecimento deveria, ainda, corresponder uma maior participação da Psicologia ao longo de todo o ciclo de vida e contextos das pessoas, pois é promovendo competências e recursos (psicológicos) – na primeira infância, na Escola/Universidade, na comunidade/cidade, no local de trabalho, na prática desportiva ou em qualquer instituição onde esteja inserida, no contexto da saúde e em momentos de maior vulnerabilidade – que se preparam as comunidades para serem mais resilientes às adversidades e as pessoas para vivenciarem e ‘resistirem’ aos acontecimentos de vida mais negativos.

– Do ponto de vista pessoal, qual a maior lição que retirou do trabalho realizado enquanto coordenador deste Gabinete de Crise da OPP para a pandemia COVID-19?

É uma “lição prática”, no sentido em que guardarei sempre em mim como um exemplo concreto, adaptado a uma organização, do que atrás referi. Que quando existem competências (instaladas) e recursos (internos, de cada trabalhador/a; e externos, com as ferramentas disponibilizadas e com o reforço do trabalho em equipa, dos canais de comunicação e até dos momentos conjuntos de lazer) estamos mais capazes de enfrentar as adversidades e de nos adaptarmos às situações daí decorrentes. Assim foi com a equipa da OPP e creio que, assim tendo sido, tivemos mais e melhores condições de cumprir o papel que penso competir a uma associação pública profissional de Psicologia num desafio de saúde pública como o que enfrentamos e cujas consequências perdurarão. Guardarei esta equipa, as suas competências, resiliência, energia e empenho e, com ela, um exemplo concreto da importância da prevenção e da promoção de desenvolvimento e competências, objecto maior da Psicologia. Guardarei o seu e nosso contributo que, sendo muito distinto da exigência do das/os psicólogas/os dos Hospitais, das Estruturas Residenciais de Pessoas Idosas ou dos que trabalham directamente com as populações com maiores vulnerabilidades, julgo poder orgulhar-nos… Orgulhar-nos e, bem, representar a Psicologia e as/os psicólogas/os portuguesas/es.

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