Aceita um desafio? Experimente escrever num motor de busca (Google, por ex.) “yes or no” [sim ou não]. No meu caso devolve-me 3 080 000 000 resultados. Os primeiros três são de ligação a sites com rodas (tipo “roda da sorte ou azar”) que, com um clique, giram para decidirem (por nós e pelo acaso) um sim ou um não para uma pergunta façamos. Simples ou complexa. Seja de sim ou não ou não seja de sim ou não.
Estou certo de que nos últimos tempos foi confrontada/o com questões para as quais lhe pediram um sim ou não, mesmo que não as considerasse questões de sim ou não. Tão certo quanto de que a crescente polarização da sociedade (de causas múltiplas mas onde as novas formas de acesso e partilha de informação assumem centralidade) e a vivência de um longo período de incerteza/imprevisibilidade, estimulam a procura de um sim ou não para questões complexas e com nuances, reforçando “sins” e “nãos” a questões que não podem dessa forma ser respondidas.
Procurei afirmá-lo à Rita Costa da TSF quando, alguns dias antes da “reunião do Infarmed” de ontem, me perguntou se deveria ou não terminar a publicação do boletim diário da situação epidemiológica em Portugal. Na intervenção, que partilho, procuro reflectir sobre a forma como, efectivamente, junto de algumas pessoas, a exposição permanente a informação sobre a COVID-19 constitui um risco para a sua saúde psicológica, potenciando situações de stress, ansiedade ou depressão. Mas, também, sobre o facto da existência, disponibilização e publicação diária dos dados não ser, por si só, desencadeadora destas situações e, ainda, que a retirada ou ausência desta informação pode, também e em certas situações, produzir efeitos perniciosos nas dimensões mencionadas, na confiança e na diminuição de comportamentos de autoprotecção (das/os próprias/os) e heteroprotecção (das/os outras/os).
Em todo o caso, defendi que existem hoje dados e motivos para que, em simultâneo com alterações previstas nas medidas de prevenção/protecção definidas, se repense estrategicamente o modelo de comunicação de risco/crise para esta fase/momento, incluindo as matrizes e boletins existentes mas, sendo decididas alterações, devem estas ser clara e cabalmente enquadradas e explicadas, estimularem previsibilidade e reforçarem o controlo pelas pessoas, não permitindo, ainda, que a ausência de (boa) informação deixe espaço para má informação.
Apesar dos 15 meses volvidos, recordo parte da pronúncia do Supremo Tribunal de Justiça do Brasil quando voltou a “obrigar” o governo à publicação diária de dados da COVID-19: “À consagração constitucional de publicidade e transparência corresponde a obrigatoriedade do Estado em fornecer as informações necessárias à sociedade. O acesso às informações consubstancia-se em verdadeira garantia instrumental ao pleno exercício do princípio democrático.”
Transparência, clareza e confiança. Responsabilidade, coesão e democracia. Em Novembro de 2020, hoje e para o futuro. No Brasil, em Portugal e para o Mundo.