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Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Psicologia

A democracia e os debates (democráticos)

Há poucos dias passou um ano de um triste e, até há pouco tempo, impensável acontecimento: a invasão do Capitólio aquando do processo de ratificação da eleição do actual presidente dos EUA. “Colocaram uma faca no pescoço da democracia americana”, disse Biden numa intervenção que assinalou a data e num momento onde se debatem mudanças na legislação, que condicionam direitos de voto de minorias, e se verifica uma profunda polarização da sociedade americana que coloca em causa a confiança nas instituições, nas eleições e o “chão comum” da democracia. Como aqui chegamos e que reflexões para democracias com riscos para já mais mitigados como a Portuguesa?

“Debater, construir (não destruir), ganhar (não perder)”, 24º artigo da rubrica “Ao redor” (Sábado) parte da narrativa hoje dominante à preparação e análise aos debates: “Debater, destruir (adversárias/os), ganhar”. Narrativa que responde às novas formas de acesso à informação e à velocidade, falibilidade e ferocidade das redes sociais, particularmente centrada em emoções “ditas negativas” (raiva, ódio ou medo). Narrativa tendente em 4 características que empobrecem (se extremadas, que colocam em risco) a democracia: a simplificação e generalização excessivas, promotora de populismos; a polarização, promotora de antagonismos; o tratamento das e dos adversários como inimigas ou inimigos; e a obstaculização dos espaços de diálogo, compromisso e partilha.

No artigo enquadro estas questões e afirmo que “defender a democracia implica usar as ferramentas da democracia para a aprofundar e não para a enfraquecer”, portanto, “utilizar os debates (democráticos) para construir e não para destruir” podendo ganhar-se. Tal implica que “mediadoras e mediadores (comentaristas, jornalistas, líderes societais) não nos deem, também em questões políticas, apenas aquilo que queremos, conhecemos e/ou nos conforta, mas também oportunidade de contactar com o que necessitamos, desconhecemos e/ou nos confronta. Implica que as pessoas, e a sociedade no geral, valorizem e validem a construção, incentivando-a, apoiando-a e nela participando.”

No artigo realço a importância “do conflito (não violento), da crítica (construtiva) e da capacidade de estabelecer conversas e diálogos (desafiantes)” e de que melhorar a comunicação e as formas de entendimento depende de investirmos no desenvolvimento das pessoas, das suas competências (nomeadamente relacionais e sócio-emocionais) e da sua “abertura ao e à outra, ao Mundo, à diversidade e à cidadania e o interesse pelo seu redor, com especial enfoque pela história que nos permite reflectir sobre o passado, pensar o presente e projectar o futuro”. Factores hoje fulcrais porque, no momento complexo que vive(re)mos, o reforço da confiança e da coesão social, pilares fundamentais da democracia, depende da possibilidade de construção de soluções conjuntas e partilhadas para os problemas das pessoas e da sociedade e não da destruição do espaço comum de entendimento que representa a democracia.

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