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COVID-19 Pobreza e Desigualdade

Pela voz das crianças…

Há umas horas recebi uma notícia que senti como o “céu a cair-me sobre a cabeça” e, logo em simultâneo, a força de um amparo, apoio e de uma partilha capazes de o começar “a empurrar de volta ao seu lugar”.

Noite dentro, pensei nesta imagem e neste receio que noutras noite, já há muitos anos, lia contado nas histórias de um conjunto de habitantes de uma irredutível aldeia de Gauleses. Um receio, permanente, de algo pensado como não reparável. Diferente, tão diferente do que senti pela não-constância, pelo suporte e pelos recursos que tenho para lidar com a situação. Igual, tão igual ao que sentem pessoas em situação de pobreza ou exclusão prolongadas, isoladas ou com determinadas vulnerabilidades. Pessoas “cujo céu lhes caí sobre a cabeça” a cada dia e sem suporte ou recursos “para o empurrarem de volta ao seu lugar”.

No passado dia 10.12, no âmbito do webinar promovido pela EAPN – European Anti Poverty Network Portugal (A pandemia pela voz das crianças) participei num debate que discutiu os resultados preliminares do estudo com o mesmo nome conduzido pela Cátia Santos, Elizabeth Santos, Fátima Veiga, Paula Cruz, com a supervisão científica da Teresa Silva Dias. Estudo que creio relevantíssimo – também porque “dá voz às crianças”, às e os invisíveis da pandemia, ao partir das suas narrativas e dos seus discursos – na compreensão do agravamento das dificuldades e problemas de saúde psicológica, física, socialização, alimentação, aprendizagem ou do maior risco de abuso e violência, isolamento, ausência de tratamentos regulares e do aprofundamentos e cristalização de situações de pobreza e exclusão social. Tudo vivido, tudo experienciado, tudo, por vezes com tanta simplicidade mas tão profundamente, contado.

Na interessante discussão, com a Beatriz Imperatori, o Manuel Sarmento e a Rosário Farmhouse, falamos de protecção das crianças, particularmente as com maiores vulnerabilidades, do seu bem-estar, da necessidade de reforçar a sua participação e de promover a equidade. Falamos de família, de cuidadoras/es e de que Escola temos. Falamos do que a pandemia revelou mas também do que potencialmente informou para o futuro e para as políticas públicas de futuro.

Astérix – nome que não por acaso deriva do grego “pequena estrela” – fazia das relações, não apenas com Obélix, da sua confiança e da poção mágica que consigo transportava, forças para enfrentar e superar os desafios e se adaptar às adversidades, festejando, partilhando e celebrando as conquistas com toda a comunidade da sua aldeia nos banquetes de final de história.

Tomemos este exemplo e invistamos, hoje, nas relações, no desenvolvimento de competências, da segurança e da confiança, de instrumentos e recursos externos (apoios) de proximidade e contingentes, quando necessários. Invistamos e permitamos mais condições a mais pessoas (a todas as pessoas, potencialmente) para melhor lidarem com as suas (más) notícias, dificuldades e adversidades.

Para as “vencerem” e para o partilharem e celebrarem.

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