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54 anos das cheias de 1967 e impacto da pandemia nas/os bombeiras/os e outros agentes de protecção civil

“Foi a maior catástrofe do país depois do terramoto de 1755.” Esta noite (e madrugada) passam 54 anos das cheias de 1967. Nessa noite, em alguns concelhos da “Grande Lisboa”, a chuva atingiu 170L/m2/hora (entre as 19h e as 00h a precipitação correspondeu a 1/5 do que choveu em todo o ano de 1967) dizimando aldeias nas zonas mais pobres e “abandonadas” (20.000 casas totalmente destruídas), provocando centenas de mortes (462 “oficiais” embora se estimem 700) e muito sofrimento nas famílias e comunidades. Apesar da onda de apoio (particularmente do movimento estudantil face a um regime “inoperante” que, essencialmente, procurou “esconder” a dimensão da tragédia e as suas causas – a pobreza (extrema) e as condições de vida das populações), o sofrimento estendeu-se a quem naquele e nos dias seguintes procuraram ajudar as “suas pessoas”, aldeias e comunidades com recursos limitados, nomeadamente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil. “Quando vim para baixo a ponte já tinha sido levada pela água e o quartel estava cheio de mortos. Foram 63 só no 1º dia. Passaram-me todos pelas mãos antes de serem levados para o Inst. Medicina Legal”, contava em 2017 à Renascença o à época bombeiro de Odivelas Abílio Silva. Descrição que nos convida a pensar nestas pessoas e profissionais, no seu papel e condições, na incerteza perante e nos impactos do seu trabalho no seu bem-estar.

Coincidentemente, hoje passam 50 dias de uma conversa que aqui partilho no Porto Canal (06.10) a propósito do documento produzido conjuntamente entre a ANEPC (um cumprimento especial ao Bruno Vaz por todo o empenho) e a Ordem dos Psicólogos Portugueses – “Os bombeiros e a saúde psicológica em tempos de pandemia”. Nela reflecti sobre o impacto da pandemia (e o prolongamento desse impacto), mas não apenas, nas e nos profissionais de primeira linha, particularmente bombeiras e bombeiros e outros agentes de protecção civil, em muito devido ao contacto permanente com situações de perda, luto e sofrimento, stresse, a necessidade de mudança de rotinas, protocolos e equipamentos e com a incerteza. Também sobre a importância da literacia, auto-cuidado e conciliação das dimensões pessoais e profissionais com propósito nestas e nestes profissionais ou a necessidade de reforço das redes de apoio entre pares e da ajuda profissional, quando necessária, contingente aos problemas e dificuldades.

As cheias de 1967 impactaram, além das comunidades afectadas, a consciência colectiva, estimulando tensão de mudança na sociedade. De certa forma, espero que as catástrofes/crises dos últimos anos nos impelem a uma reflexão tendente à valorização e apoio às pessoas que, com dificuldade, se dedicam a ajudar outras nestes momentos. Isso e a reflectirmos sobre o que, enquanto pessoas, comunidades e sociedade, podemos fazer para as prevenir, mitigar e vivermos com maior (potencial de) bem-estar para todas e todos.

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