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Hiperespecialização: Sim ou Não?

Vivemos tempos em que à complexidade crescente acrescentamos urgência. Tempos em que “a vida, exigente, quer a resposta certa ao mesmo tempo da pergunta difícil formulada” (Gonçalo M. Tavares).  Tempos de maior conhecimento e maior expectativa. De mais escolha, mais exigência. De novos desafios, exclusões e, até, de novas “pobrezas”. Tempos que me fazem questionar se hoje, Adam Smith, “pai da economia moderna”, continuaria a defender os benefícios na capacidade produtiva e progresso da ciência da divisão do trabalho, nomeadamente a sua segmentação e a especialização de trabalhadoras e trabalhadores nas áreas, tarefas ou actividades dela resultantes como o fez há 245 anos num Mundo tão diferente do actual.

“Hiperespecialização: Sim ou Não?”, 17º artigo da rubrica “Ao redor…” (Sábado) pensa os impactos do caminho da especialização até aos actuais processos próximos da hiperespecialização. Fá-lo descrevendo, exemplificando e distinguindo “ambientes acolhedores de aprendizagem”, onde a hiperespecialização parece produzir resultados, de “ambientes inóspitos de aprendizagem” onde tal não sucede. Ambientes inóspitos, comuns ao contexto de volatilidade e incerteza da sociedade presente e futura.

“A complexidade e urgência que vivemos pedem uma experiência que resulte de diversidade e não de uniformidade, de flexibilidade e não de rigidez, de versatilidade e não de constância. Pedem novas visões que resultem do aumento da possibilidade do simbólico e da abstracção e não da permanência única no concreto. Pedem novas respostas que resultem da expansão e não do entrincheiramento cognitivo. Pedem grupo e não apenas individualidade. Pedem mais prática, treino e experiência multidisciplinar precoce e ao longo da vida e não, em exclusivo, mais e maior hiperespecialização precoce e/ou ao longo da vida, como algum discurso vigente e algumas áreas da sociedade ainda favorecem.” Isto afirmo, destacando: a forma como o ensino superior não prioriza o conhecimento conceptual e transferível e a capacidade crítica; a pouca importância dada ao grupo nas organizações (com as condições certas, mais capaz e racional que as pessoas mais capazes e racionais que o constituem); a necessidade de “psicólogas e psicólogos cidadãos, capazes de, nos seus diversos papéis de vida, expandirem e amplificarem o seu contributo para uma maior possibilidade de autodeterminação e bem-estar de todas e todos, mais equidade e coesão social” e de uma prática assente numa “identidade definida e partilhada, antes da soma de conjuntos de psicólogos e psicólogas hiperespecializadas em áreas, por vezes hiperespecíficas, da psicologia”.

“A complexidade presente e futura determina que, não diabolizando os importantes processos de especialização, não sobrevalorizemos a hiperespecialização face à versatilidade e o talento individual face ao de grupos (…) Sendo bom para algumas pessoas, poucas, raramente o é para todas e para um bem-comum que exige flexibilidade, versatilidade, diversidade e grupo.”

 

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