Lembram-se da moeda de dois e quinhentos? Pela dimensão e pelo valor (baixo) era a que mais usávamos para fazer os fios que trazíamos ao pescoço. Íamos, normalmente de bicicleta, até às proximidades das estações dos Riachos ou Entroncamento (preferencialmente) e avaliávamos pela localização (antes ou depois da paragem) o melhor local para as colocar na linha para que, depois, o comboio passasse sobre elas, não as projetando para onde não as encontrássemos. Desse encontro (moeda na linha-comboio) resultava a moeda espalmada que, um furinho depois, virava esse fio com história própria, pelo tipo de comboio, velocidade, lugar. Não havia duas moedas espalmadas iguais. Dois fios iguais.
Tínhamos uma relação especial com o comboio. Levava-nos a Lisboa. A Coimbra. Ao Porto. Não mais saiu do meu imaginário. Em Portugal. Fora de Portugal. Também por isso, quando penso numa associação entre transportes e Casa Branca, penso na estação-interface que conecta as linhas ferroviárias de Évora e Beja. Nos últimos dias, porém, vi Casa Branca associada ao transporte rodoviário e enquanto stand de veículos de uma marca específica e um Presidente da República dos EUA vendedor (e comprador) de carros.
Não vivi – aqui em Portugal, no meu tempo de vida – um processo de passagem de uma democracia (mesmo com desafios) a uma autocracia, como outras pessoas com outra idade viram em Portugal e outras pessoas da minha idade vive(ra)m noutros países. Sei, porém, e pelo que hoje vamos vendo e sabendo deste Mundo, que neste processo tendemos, enquanto seres humanos, a colocar sucessivos limites, dizendo para nós próprios que dali não passam, que aquilo é o limite inultrapassável. Parte disto é explicado por um viés cognitivo, o viés da normalidade que, grosso modo, determina que tendamos a normalizar situações, mesmo quando mais extremas. Viés que resulta da dificuldade do nosso cérebro em processar mudanças abruptas e imprevisíveis, o que conduz à sua negação e/ou desconsideração de riscos/sinais.
Muitas e muitos pensam-no hoje sobre Trump ou os avanços de algumas forças políticas na Europa que, dizendo-se salvíficas, não mais pretendem que alterar os pressupostos da sociedade para que possam beneficiar do caos e prosperar no imediato, mesmo que isso signifique destruir um caminho de procura de maior equidade e dignidade de todas as pessoas e a coesão social a médio/longo prazo.
A este viés associa-se muitas vezes o do optimismo… A crença, não raras vezes irracional, de que o de menos bom é mais provável noutras pessoas/contextos do que connosco/no nosso país.
Estamos num tempo em que inacreditáveis acontecem todos os dias. Ontem, hoje, amanhã, certamente. Reconheçamos os nossos vieses e não naturalizemos os inacreditáveis. Reconheçamos os nossos vieses e não consideramos que a nós/cá não chegará. Reconheçamos os nossos vieses e mobilizemo-nos para, juntos, resistirmos e defendermos a democracia e uma sociedade coesa e de direitos. Hoje, amanhã, pelo futuro de todos.