“Não, acho que os tempos eram outros (…) Vivíamos em tempos sem medo do futuro. Com uma grande expectativa em relação ao que poderia vir do futuro.” Recentemente, num podcast, ouvi a Eurodeputada Marisa Matias dizê-lo”, após explicar um dia-a-dia particularmente exigente, como um momento da sua vida. “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E perspectiva.
“Desenvolver perspectiva e construir esperança como antídoto para os desafios do presente e do futuro”, 63º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) parte do quanto mudou desde “o tempo em que a geração de 70 pensava o futuro quando adolescentes e jovens adultas/os”.
O quanto “mudaram as circunstâncias, a rapidez com que mudam e como nos impactam. Mudou a forma como acedemos e comunicamos as circunstâncias.” (…) O quanto hoje “tendemos para o presente, como que estimulados por media e por redes sociais que reforçam a propensão humana de considerarmos mais o caso que a tendência, mais o negativo que o positivo.” (…) O quanto isto concorre “para que o medo emerja e se propague” (…) e nos impele “para nos comportarmos, nos movermos, nos mobilizarmos mais pelo evitamento do que não queremos, do que não gostamos, do que não acreditamos, de quem não queremos que pela procura do que queremos, do que gostamos, do que acreditamos, de quem queremos (…) Para, fundamentalmente, descrermos das outras e dos outros e da sociedade. Para desacreditarmos de nós. Para perdermos a perspectiva.”
Mas, também no podcast, conta-nos que o seu pai acordava todas as noites para, de madrugada, a ir buscar a Coimbra, podendo assim trabalhar à noite enquanto estudava (…) “Sem medo do futuro. Com uma grande expectativa”. E esperança.
Uma esperança possível (…) não um desejo passivo. Não forças que ilegitimam as dúvidas, as dificuldades, a sobrecarga. Antes uma esperança enquanto energia que nos activa, pela agência (…) que previne que nos movamos pelo evitamento.
“Uma esperança possível e que, também pela ciência que a estuda, sabemos que se desconstrói quando, perante a adversidade, a raiva ou a fúria bloqueiam objectivos perspectivados (…) Mas, ao contrário, que se constrói, que se pode promover, ensinar, educar. Uma esperança que depende de identificarmos um caminho e de navegarmos através dele com sentido de agência e de controlo (…) Uma esperança, individual e colectiva, que nos pode activar, enquanto indivíduos e sociedade, e se sobrepor ao medo e ao evitamento.”
“A perspectiva e a esperança são antídotos poderosos para os impactos negativos dos complexos desafios do presente e do futuro. São veículos essenciais para navegar o Mundo actual e as suas circunstâncias, para a nossa adaptação e bem-estar. E, se forças existem que os desafiam, são também possíveis de ensinar, de educar, de desenvolver e, particularmente, de construir. Também pela ciência. Também com psicólogas e psicólogos, como motor junto de indivíduos e da sociedade.”