A habitação “é, hoje, uma preocupação central e transversal da sociedade portuguesa, da população mais jovem à menos jovem e não apenas das pessoas e famílias com menores rendimentos.” A crise da habitação relaciona-se “com outros importantes desafios do país, que vão desde a crise demográfica e de natalidade à dificuldade de colocação de diferentes profissionais ou fixação de populações em algumas cidades, das migrações à saúde mental, do ensino superior aos problemas da solidão e isolamento.” É assim fundamental “ampliarmos a relevância do tema na sociedade e mobilizarmos participação cívica e contributos da sociedade civil e compromissos de decisores sobre as dificuldades e desafios nesta matéria.”
“Habitação, Saúde e Bem-estar e Democracia”, 55º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado; link abaixo) aborda o quão central a habitação é nas nossas vidas, considerando que nela vivemos parte significativa dos 80 a 90% de tempo de vida que se estima que passemos em ambientes construídos. É um dos “factores principais na análise do bem-estar das pessoas e dos países” e elemento-chave aos sentimentos de pertença, privacidade, segurança, identidade e de suporte social essenciais à qualidade de vida. É, ainda, fulcral nas dimensões da saúde e da saúde mental, porquanto as “más condições habitacionais aumentam consideravelmente a probabilidade de mortalidade precoce a níveis próximos de doenças como a hipertensão ou a obesidade” e a instabilidade ou precariedade habitacional, “com a pressão dos valores das rendas, ausência de controlo e impossibilidade de personalização da casa-lar, estão relacionadas com problemas como o stresse, a ansiedade e a depressão.”
O artigo propõe “que o debate que decorre na sociedade seja mais cientificamente informado, incluindo pela ciência psicológica, e que proporcione mais insight, literacia (…) e agência neste tema”. Que se “reforcem e complementem outros programas existentes de recuperação e reparação do edificado, minimizando constrangimentos que impactam a saúde e (…) se apoiem pessoas e famílias, particularmente também quando em processos de transição”. Ainda, que se criem condições, e também se necessário apoios mais substanciais, para acesso à “habitação inicial” para a população jovem e um estímulo a soluções que se adaptem a novas necessidades de maior alteração, mobilidade e migração (incluindo interna), nomeadamente de co-living (viver “conjuntamente”) e co-working (trabalhar “conjuntamente”). Finalmente que se associem medidas na área da habitação à promoção de competências transversais nas pessoas e, quando necessário, de suporte emocional e apoio psicológico, permitindo maior resiliência em períodos de maior incerteza e instabilidade.
Hoje, “investir na habitação é mais que investir no edificado. É e será investir nas pessoas e nas famílias, no nosso SNS, na nossa Segurança Social, na nossa Economia. É e será investir na equidade, na coesão social, na Democracia e, portanto, no nosso futuro.”