
Uma nota prévia: O que em seguida se pode ler comporta sete simplificações que julgo importantes e que procuro serem cuidadosas e simples, mas não simplistas.
Vigotsky nasceu ainda no século XIX numa cidade da actual Bielorrússia. Viveu menos anos do que os que eu já vivi (37) mas, quando em 1934 faleceu, deixou uma importante e transformadora obra, parte dela apenas integrada no conhecimento científico décadas mais tarde, também devido à censura de que foi alvo. Foi um psicólogo pioneiro na teorização da importância da comunicação e das relações e condições sociais no desenvolvimento infantil. Entre outros contributos, deixou-nos o importante conceito de zona de desenvolvimento próxima, enquanto potencial de desenvolvimento que uma criança/pessoa possui a cada momento, a partir do seu desenvolvimento real e se apoiada em relação com alguém mais “desenvolvido”. Grosso modo (simplificação 1), o espaço que dista entre o desenvolvimento real (A) e o desenvolvimento potencial (B), sendo que A e B, a cada momento do desenvolvimento, se vão alterando. Deixou-nos, ainda, o conceito de mediação, que elabora no seu trabalho enquanto elemento intermédio e fundamental no binómio estímulo-resposta, sublinhando, também, a importância da linguagem e do simbólico na mediação.
A agressão física de Will Smith a Chris Rock na cerimónia dos Óscares e o crescimento e ascensão a posições de decisão de partidos populistas, radicais ou extremistas, são apenas dois exemplos no debate em torno da normalização da violência, num caso, ou de ideais e propostas políticas cuja prioridade e quadro de valores não assentam nos direitos humanos ou justiça social. A zona de desenvolvimento próximo de Vygotsky oferece-nos duas importantes pistas (simplificações 2 e 3) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. O papel de outras e outros nos processos de “normalização”, num tornar real o que apenas era potencial, por exemplo no admitir, no legitimar, no considerar, por alguns e algumas, como “bela e romântica” a agressão física como resposta. O facto de quando o outrora apenas potencial se torna real, automaticamente se criar outro potencial, mais distante. Quando se torna “real” Trump e outras e outros próximos, Maduro e outras e outros próximos, criam-se, automaticamente, “novos potenciais”, cada vez mais distantes do outrora real, porque o desenvolvimento e a sociedade, como as ideias e os ideais são vorazes – embora, protectoramente, possamos pensar o contrário, podem sempre ir mais longe.
“Sei que um grande número dos nossos compatriotas votaram hoje por mim, não por me apoiarem, mas para fazerem barreira à extrema-direita”, disse Macron aquando das últimas eleições presidenciais Francesas. Cada vez mais assistimos (sentimos?) uma participação pública e política menos motivada pela mobilização e adesão a projectos, e mais pelo “combate” e barreira a outros, em simultâneo com a utilização de emoções como a raiva, o ressentimento ou o ódio a outras e outros como estímulo. A mediação e a importância das condições sociais, conforme reflectidas por Vygotsky, oferecem-nos três importantes pistas (simplificações 4, 5 e 6) para pensarmos este fenómeno, hoje particularmente relevante. A primeira, a forma como a quebra de mediadores externos e sociais (jornalistas, por exemplo) “entrega” a intermediação do estímulo–resposta à linguagem e simbólico de cada pessoa ou, quando muito, de cada grupo de pertença, seja ele uma associação ou clube, ou, hoje, de uma rede social. As segunda e terceira, a forma como as condições de vida e aspectos sociais o influenciam, nomeadamente a forma como as redes sociais determinam o fluxo de informação e influenciam a formação de opiniões e, até, identidades. Bem como a forma como a quebra generalizada de confiança (nas e nos outros, nos e nas decisoras e nas instituições) desafia a saudável separação entre factos e opiniões, questiona a ciência e factualidade, dificulta a discussão construtiva e a mobilização das pessoas para a causa pública.
Tudo num caminho de maior normalização do que antes nos parecia distante. Tudo a polarizar, a criar um nós vs. outras/os e a afastar-nos. Tudo a concorrer para a fragilização dos princípios democráticos e das democracias, enquanto sistema que vive da partilha de princípios comuns fundamentais, assentes no reconhecimento de direitos (e deveres) partilhados. Tudo a colocar em causa o sistema que, com as suas vulnerabilidades, mais permite e promove o envolvimento de todas e todos e procura o desenvolvimento de uma sociedade inclusiva e aberta, assente na equidade e na coesão social e promotora de saúde, incluindo saúde mental, bem-estar e possibilidade de desenvolvimento e autodeterminação. Tudo a justificar porque, há já mais de uma década, mas com especial incidência nos últimos anos, invertemos o caminho de maior disseminação da democracia e das garantias de liberdade e direito no Mundo e caminhamos para um maior encerramento, nacionalismo e para mais autoritarismo.
Normalização, polarização, democracia. NPD. Sigla pela qual, em inglês, é conhecida a perturbação narcísica de personalidade. Independentemente se ao nível de “perturbação” (simplificação 7), não raras vezes, quem tem este objectivo e promove estes movimentos, fá-lo a partir de uma aura salvífica capaz de respostas cabais, simplistas e imediatas para todo e qualquer problema, independentemente de serem, por vezes, complexos e multidimensionais. Não raras vezes pessoas que, vivendo da necessidade permanente de reconhecimento, se consideram melhores que outras e outros, se sentem incompreendidas no seu valor e que assumem papéis de liderança de projectos que, mascarando vulnerabilidades, procuram a polarização e a normalização. Que usam das vulnerabilidades e dos receios de algumas pessoas para legitimar, quando não promover, posições contrárias ao reconhecimento de outras e outros, da sua possibilidade de participação e autodeterminação, dos pilares do sistema democrático.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, devemos reflectir sobre os processos de normalização e de como dependem de todas e todos nós. Como conduzem à polarização e ameaçam os princípios democráticos. Como, a coesão social e a defesa dos valores democráticos, dependem de travarmos “avanços de A para B que criam sucessivos C e D”. Compreendamos, escutemos e empatizemos com quem vota. Criemos, em conjunto e com compromisso, políticas que respondam às necessidades e expectativas e atendam às vulnerabilidades económicas, sociais e psicológicas das pessoas. Façamos da saúde mental e do bem-estar prioridades globais, conforme o mote do Dia Mundial da Saúde Mental comemorado a 10 de Outubro. Se o fizermos estaremos, também, a contribuir para a confiança, para a credibilidade das instituições e qualidade da democracia e, dessa forma, a garantir melhores condições para a promoção da saúde e para a possibilidade de bem-estar de todas e todos.
NPD – Normalização, polarização, democracia
in Sábado (Ao redor…); 12.10.2022