
Um oceano, uma falésia ou uma montanha. Olhamos, contemplamos e sentimo-nos pequenas e pequenos. A guerra, a crise climática ou a pobreza. Pensamos, vivemo-las, por vezes, e sentimo-nos pequenas e pequenos. Não raras vezes, perante desafios societais complexos, quais oceanos, falésias ou montanhas de problemas, sentimo-nos desincentivadas e desincentivados por não acreditarmos terem resolução possível ou por não nos percebermos capazes de contribuir para a sua resolução. Porém, assim não creio ter de ser. Não apenas acredito que têm resolução possível, como acredito no papel imprescindível da ciência psicológica e no contributo fundamental de cada psicóloga e psicólogo, com a sua prática profissional e de cidadania.
Penso-o assim no que se refere à erradicação da pobreza e, particularmente, da pobreza extrema. Pobreza que tudo impacta. A possibilidade de bem-estar, desde logo. A dignidade, quando limita ou impossibilita o acesso a condições e necessidades (básicas) de vida. Os direitos humanos, quando restringe ou impossibilita a pessoa, entre outros, de se cumprir. É, por isso, um importantíssimo determinante da saúde e, como cada vez mais investigação comprova, pode ser causa, mas também consequência, de problemas de saúde psicológica, nomeadamente a ansiedade, a depressão e o stresse, que se associam em ciclo com as situações de pobreza. Acresce que a pobreza tem também uma forte relação com as iniquidades e a exclusão (e a perpetuação dos seus ciclos), além de interferir e condicionar (pelo “efeito túnel” e pela escassez que impõe nos recursos afectivos e cognitivos) a capacidade de autocontrolo, planeamento e tomada de decisão das pessoas e de poder conduzir a processos de estigmatização e culpabilização, num e noutro caso também das próprias pessoas sobre si próprias. Aliás, diria, que se há algo que toda e qualquer pessoa, qualquer que seja o seu papel, formação ou circunstância, pode rapidamente fazer para apoiar a solução deste problema é deixar de culpar, e contribuir para que outras e outros deixem de culpar as pessoas pela sua situação de pobreza.
Porque hoje sabemos muito mais sobre as múltiplas causas destas situações e sobre os seus múltiplos impactos. Porque hoje a ciência psicológica aporta contributos a esta compreensão e, particularmente, à forma como poderemos mitigar e prevenir estes problemas. Porque a erradicação da pobreza é, não por acaso, o primeiro dos 17 Objectivos do Desenvolvimento Sustentável e que, por via da pandemia por COVID-19 e da Guerra que hoje se vive na Ucrânia, sofreu recentemente um retrocesso significativo no caminho percorrido nas últimas décadas. E, porque a sociedade espera de nós, enquanto profissão, um contributo decisivo na estratégia nacional de combate à pobreza em curso – a nossa Ordem dos Psicólogos Portugueses lançará publicamente amanhã a campanha “. Final à Pobreza”.
Uma campanha que pretende, através do desenvolvimento e promoção de um conjunto de iniciativas e recursos, disponibilizados neste portal, promover um debate amplo e participado com as psicólogas e os psicólogos no sentido da recolha de contributos (também através deste formulário que convido a preencher) para o desenvolvimento de um plano estratégico de acção nesta matéria assente em quatro dimensões:
a) Sociedade civil: promovendo literacia sobre a pobreza nas suas causas, consequências e possibilidades de erradicação, bem como sobre o potencial contributo da psicologia;
b) Decisoras e decisores: contribuindo com conhecimento e evidência da ciência psicológica para o desenho e para a efectividade de políticas e intervenções nesta área;
c) Profissão: estimulando e apoiando com recursos e ferramentas a prática profissional, a formação inicial e contínua e a investigação científica neste âmbito;
d) Cooperação nacional e internacional: afirmando e promovendo redes colaborativas de reforço do contributo da psicologia para a erradicação da pobreza em Portugal e no Mundo.
Investigando, advogando e praticando a psicologia, nós, psicólogas e psicólogos, fazemos do princípio A do nosso Código Deontológico (“Respeito pela dignidade e direitos da pessoa”) razão e motivo maior da ciência e profissão que nos une. Pela dignidade, pelos direitos (humanos) e pela possibilidade de autodeterminação das pessoas, só possíveis numa sociedade de equidade, bem-estar e coesão social. Contem comigo e connosco, conforme conto e contamos convosco para, juntas e juntos e com um chão e um tecto comum, caminharmos nesse sentido, também pelo nosso contributo para um “. Final à Pobreza”.
Mailing Ordem dos Psicólogos Portugueses [23.06.2022]
Tiago Pereira