
Uma menina de cara redonda vira a esquina, aproxima-se de dois homens que olham para um buraco que abrem no passeio e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais?”. “Não menina, de uma fuga de gás”, responde um dos homens. “Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, vemos na imagem seguinte a Mafalda pensar. Décadas passaram sobre a publicação desta sempre actual tira que suscita em cada um e uma de nós, ou em nós em diferentes momentos, um ímpeto para substituir “raízes nacionais” por um qualquer problema, desafio ou prática e “fuga de gás” por outro qualquer problema, desafio ou prática. Hoje, “raízes nacionais”, evoca em mim a promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos. Já “fuga de gás” situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde. Em bom rigor, hoje a tira de há algumas décadas que questiona a Argentina da Mafalda faz-me pensar a prática da psicologia em contexto escolar em Portugal, hoje.
É verdadeiramente significativa a mudança que ocorreu desde que iniciei (ainda enquanto estagiário, em 2005) ou mesmo desde que interrompi (em 2013) funções como psicólogo com intervenção escolar. É verdadeiramente significativa, particularmente, no potencial impacto destes profissionais junto da comunidade educativa. Esta mudança decorreu, essencialmente, a partir de três grandes e relativamente rápidas transformações: o capital que a psicologia tem hoje na sociedade, o que representa e o seu (re)conhecimento e valorização; o crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos com intervenção em contexto escolar; a transformação conceptual dos referenciais e do seu papel, de intervenções tipicamente remediativas, apenas directas e junto de crianças e jovens com algum problema para intervenções de índole preventiva e promotora, também de consultadoria e junto de todas as crianças e jovens, professoras e professores, direcções, outros profissionais e assistentes e toda a comunidade educativa.
Impacto potencial que advém deste caminho de transição de uma intervenção quase exclusiva com as dificuldades de aprendizagem, a que se somava a orientação e desenvolvimento vocacional, para a intervenção em todo o contexto, apoiando e estimulando a criação de ambientes promotores de aprendizagem e desenvolvimento. Do caminho de intervenções quase exclusivas nos problemas de saúde mental para uma acção promotora da saúde (e da saúde mental) e do bem-estar. Impacto, apenas potencial por não totalmente cumprido. Porque, se antes não existia este referencial de actuação. Porque, se antes também, já existindo referencial, não existiam profissionais em número mínimo. Porque hoje, mesmo existindo referencial e profissionais num número mais significativo, a ausência de resposta aos problemas das crianças e jovens nos serviços de saúde explica o fosso entre o potencial instalado e a forma como, concretamente, as práticas ocorrem.
É que se já pré-pandemia – também em resultado da crise social e económica do início da década anterior e da não mobilização de respostas contingentes na área da saúde mental – existia uma prevalência de dificuldades e problemas de saúde psicológica nas Escolas portuguesas, a pandemia veio agravar este cenário e acrescentou sofrimento psicológico significativo a muitas crianças e jovens, particularmente as com maiores vulnerabilidades. Esta realidade foi recentemente reforçada com um importante estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos que, além do sofrimento nas crianças e dos jovens (1 em cada 3), evidencia-o também nas professoras e professores (1 em cada 2). A propósito destes indicadores, e validando as propostas de acções sugeridas no estudo, o Ministro da Educação voltou a assumir o facto das psicólogas e psicólogos serem “necessidades permanentes” das Escolas, a comprometer-se com a continuidade dos profissionais contratados nos últimos anos e a reforçar o “compromisso para com a saúde mental”, assumindo que ainda “não se investiu tanto quanto se devia”. Fê-lo tal qual António Costa havia feito, há semanas e numa conferências sobre o futuro da Europa, quando assumiu a necessidade de ser concretizado um “grande investimento” e a “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para poderem responder” aos problemas de saúde mental e disse ser necessário cumprir um programa “que está a ser desenvolvido, com muito lentidão neste caso, de introdução de psicólogos na Escola de forma a poder haver um melhor acompanhamento, uma melhor protecção e melhor resposta aos problemas de saúde mental entre os jovens”.
Ora, não poderia estar mais de acordo. Ao cumprimento do programa de reforço da psicologia em contexto escolar e transformação progressiva das suas práticas, alinhando-as com a melhor evidência científica disponível, deve corresponder a capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde para responder às situações hoje já problema. Isso é essencial para assegurar que existem recursos dirigidos às “fugas de gás”, podendo estas ser intervencionadas onde devem sê-lo (em contexto e com setting clínico, particularmente nos cuidados de saúde primários) pós-sinalização, entre outros, do próprio sistema educativo. Isso é essencial para se libertar recursos para que as “raízes nacionais” sejam “procuradas” e neste caso existam recursos disponíveis para intervir preventivamente onde isso mais deve e pode acontecer – nas Escolas e acompanhando todo o percurso educativo das crianças e jovens. Esta complementaridade porque permitiria também a articulação interinstitucional entre serviços, melhoraria a resposta e torná-la-ia mais eficiente. Permitiria que a “urgência” de responder na Escola a problemas não intervencionados fora dela, por escassez ou ausência de recursos, não invalidasse a oportunidade de se intervir no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde.
Mais isto é fundamental num país ainda de forte exposição da sua população mais jovem aos principais determinantes socioeconómicos dos problemas de saúde mental (pobreza, exclusão e instabilidade nos contextos familiares). Mais isto é fundamental quando sucessivos estudos confirmam a importância do envolvimento das e dos alunos com a Escola e do seu gosto pela Escolar. Vejamos, por exemplo, resultados recentes de um novo estudo com o grupo de pais, mães e crianças que é longitudinalmente seguido desde 1991 (Avon Longitudinal Study) que demonstra que o “gosto pela Escola” de um ou uma estudante aos 6 anos é sensivelmente tão preditor do sucesso escolar aos 16 anos (10 anos depois) quanto o seu nível socioeconómico. Esta conclusão é uma importante pista para a intervenção visto ser, teoricamente, muito mais simples promover o gosto pela Escola quando comparado com a promoção de mudanças estruturais nos níveis socioeconómicos das famílias (ainda que pudessem ser desejáveis). Pista esta que se associa a outra conclusão do estudo (esta menos surpreendente), a forte relação entre o gosto pela Escola das e dos estudantes e a opinião que têm dos seus e das suas professoras, algo que sublinha a amplitude de benefícios de se avaliarem e prevenirem os riscos psicossociais dos profissionais na área de Educação e de se desenharem planos de desenvolvimento das pessoas nesta área.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, comemora-se, por estes dias e desde 1950, o Dia Mundial da Criança. Dia que pretende assinalar a importância da defesa dos direitos das crianças num Mundo onde tantos milhões de crianças e jovens são ainda deles privadas. Dia que hoje evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços” para que “tenha uma infância feliz e possa gozar, em seu próprio benefício e no da sociedade, os direitos e liberdades aqui enunciados”. A humanidade deve-o às crianças e, devendo-o, não pode apenas responder ao urgente, mas, no seu melhor interesse, também ao importante. Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 08.06.2022