Categories
Ao redor... (Revista Sábado) Democracia Política Psicologia

Eleições: Lá como cá, a relatividade do ganhar e do perder (Ao redor…; Sábado; 08.05.2022)

Como eu, certamente já acompanhou noites eleitorais. Um rodopio de resultados regado com comentários e declarações dos e das candidatas e principais apoiantes. Tudo em busca da identificação e comunicação de quem venceu e de quem perdeu, signifique ganhar e perder ter mais ou menos votos que as e os adversários ou apenas “um bom ou mau resultado”.

Foram, grosso modo, 13 milhões e 300 mil as francesas e franceses que votaram no passado dia 24 de Abril em Marine Le Pen, 41,46% do total de votantes. Mais quase 8 milhões face aos 5 milhões e 500 mil votos (17,79%) que o pai, Jean-Marie Le Pen, havia obtido aquando da sua surpreendente passagem à segunda volta das presidenciais francesas de 2002. Daí para cá a Frente (hoje Reagrupamento) Nacional obteve 6 milhões e 400 mil votos na primeira volta das eleições de 2012 e 10 milhões e 600 mil na segunda volta em 2017, assegurando três segundas voltas em cinco eleições nos últimos 20 anos e aumentando 145% o seu resultado de 2002 a 2022. Noutra geografia, e noutro contexto, Donald Trump obteve 74 milhões e 200 mil votos nas eleições presidenciais americanas de 2020, mais de 11 milhões de votos mais do que havia obtido nas eleições de 2016 que fizeram dele Presidente, a maior votação de sempre de um/a candidata/o à presidência com excepção dos votos de Joe Biden que ganhou essa eleição (a melhor votação de Obama – presidenciais de 2004 – foi inferior a 70 milhões de votos). Dois simbólicos exemplos de derrotas, incluindo a de um incumbente, a que poderíamos juntar a outras próximas em Espanha ou Itália, que nos estimulam a reflectir sobre a complexidade do momento que vivemos e sobre a relatividade do ganhar e do perder (em) eleições, dado os enormes impactos e ganhos de quem “perdeu”.

Não sendo um fenómeno exclusivo de uma direita mais nacionalista, populista e antissistema (veja-se o efeito dos partidos “verdes” nas últimas 2/3 décadas na mudança de programas políticos dos partidos de centro direita e esquerda na Europa Central e do Norte e do Bloco de Esquerda no programa do Partido Socialista em Portugal), um dos ganhos associados às derrotas destes partidos em diferentes países mas com resultados crescentes e significativos, é a generalização da política do ódio e do e pelo medo. Dizia um conjunto de historiadoras e historiadores franceses que Zemmour mente sobre o passado para as pessoas odiarem o presente. Ódio que, a par do medo instigado face a tudo o que é novo, diferente, diverso, facilmente se propaga ao ritmo dos desafios societais e da complexidade crescente que enfrentamos, das mudanças e adaptações que o quotidiano nos exige e que se espalham e alimentam em grupos e redes sociais cujos algoritmos beneficiam mensagens assentes em emoções intensas e polarizadoras.

A polarização extrema, daqui resultante, alimenta-se do confronto claramente distendido de visões de sociedade e da transformação de adversários e adversárias em inimigos e inimigas. Rompem-se pontes, classificam-se “pessoas” e não apenas posições / ideias (“deploráveis”, nas palavras de Hillary Clinton face a “metade das e dos eleitores de Trump”) ameaçando a harmonia necessária em política, a possibilidade e a crença de mudança, perpetuando e reforçando ciclos de extremismo e a cristalização de dois polos, altamente magnéticos, não conciliáveis e que vivem, também, uma união baseada na repulsa do outro polo e não apenas na identificação com as pessoas e ideias do seu polo.

Com este “fosso” entre grupos cada vez maior, a narrativa do medo e do ódio ganha espaço mesmo quando os e as candidatas que a usam e a propagam perdem eleições. Com ela instala-se o que podemos apelidar de crise de direitos e da democracia, ou seja a interrupção e retrocesso recente a que assistimos de um caminho de maior generalização e incondicionalidade de direitos básicos humanos no Mundo e de diminuição progressiva de sistemas e regimes políticos autoritários no Mundo.

Parte da inversão deste caminho resulta de uma centração permanente no caso ou exemplo particular de uma situação, seja ela uma dificuldade ou vulnerabilidade de uma pessoa ou grupo ou uma situação dúbia ou mesmo criminosa que serve de farol para classificações do tipo “nós” vs. “outras/os” ou “país real vs. país das e dos políticos ou dos privilegiados”. Serve também propósito de colectivização da culpa, recentemente abordada no parlamento português e, por vezes, de promoção ou legitimação de discursos e comportamentos xenófobos ou homofóbicos. Acrescenta, então, à crise da representação, uma crise de confiança onde pessoas crescentemente desconfiam de instituições, de outras pessoas e, até, de si próprias e da possibilidade do seu futuro. Crises que funcionam como estímulo para uma maior procura e aceitação de decisões ou propostas simples, simplistas, que atendem exclusivamente ao presente e ao local, por vezes salvíficas e personificadas numa pessoa, para questões ou problemas especialmente complexos, abrindo espaço a discursos altamente apelativos que oferecendo “soluções” e “melhorias” rápidas atingem facilmente pessoas e grupos mais vulneráveis ou psicologicamente a eles mais predispostos.

Além das vitórias na narrativa o caminho de crescimento, mesmo aquando das derrotas, torna o horizonte de vitória mais possível, próximo, por vezes até provável, com três consequências significativas: a) a institucionalização progressiva e a naturalização de ideias e figuras políticas no espectro nacional e internacional, alargando-se mais o seu espaço mediático e sua capacidade de condicionar o debate público; b) o maior crédito e a maior penetração, discussão e propagação de ideias e de posições não verdadeiras, não factuais ou não baseadas em ciência, com cada vez maior partilha de desinformação, de fake news e teorização conspirativa que sustenta a ideia de necessidade de “fim de regime”, “fim de ciclo” ou apenas de “autovitimização”; c) com a institucionalização e o crescente assumir de lugares de relevância, decisão e poder, mais personalidades e empresas se predispõem a associar-se a estes partidos e pessoas, profissionalizando as suas estruturas e, particularmente, a sua comunicação, usando mais e com maior eficácia estratégias de reforço, de segmentação e de mediatização das mensagens e das pessoas em questão.

Outro efeito “ganhador” destas derrotas resulta da mudança e da influência nos discursos e nas práticas de partidos vencedores ou potencialmente vencedores. A este propósito vejamos o impacto das posições mais populistas da campanha do “Leave” (pela saída) no referendo que discutiu a continuidade do Reino Unido na União Europeia nos partidos Conservador e Trabalhista, como o Partido Republicano normaliza posições, comportamentos e atitudes de Donald Trump justificando-as como “a sua compreensão da frustração das comunidades americanas brancas mais pobres” ou como Valérie Pécrese, candidata presidencial dos Republicanos em França, abordou logo no seu primeiro comício a suposta “grande substituição”, bandeira dos partidos da direita nacionalista, populista e antissistema, que entrou no discurso e programa do partido de centro direita, apesar de claramente contrária aos seus princípios básicos (de factualidade, da não discriminação e do não incitamento ao ódio e violência), também por isso ameaçando-os e a prazo colocando-os em risco.

Por cá, como por lá, tivemos um candidato presidencial em 2021 que usou da expressão “pessoas de bem”, tão utilizada por Salvini em Itália ou Marine Le Pen em França (aliás presenças nas suas campanhas eleitorais), para nacionalizar a expressão no seu “portugueses de bem”. Arrogando-se de decidir quem o é ou não é, mesmo dirigindo-se apenas a parte das eleitoras e eleitores, obteve cerca de 500.000 votos de portuguesas e portugueses (11,90%) depois de uma campanha de legitimação de ódios, de utilização despudorada do medo e onde acabou pronunciado por desobediência e condenado por agredir uma família.

Como por lá, por cá, a Psicologia, no seu desenvolvimento como ciência e na sua prática, não pode ignorar esta realidade. O seu objecto – aprofundar e generalizar os direitos humanos, prosseguir a possibilidade de autodeterminação e bem-estar das pessoas e grupos e a equidade, inclusão e coesão social das sociedades – depende não apenas de dimensões individuais, mas do contexto e de dimensões políticas e sociais do mesmo. Mais, a ciência psicológica é essencial a determinantes desta crise da democracia e dos direitos. Porque informa sobre a importância e promove a relação, a curiosidade, a cooperação e a resolução não violenta de conflitos, essenciais à abertura à e ao outro e à prevenção dos fenómenos de ódio e à utilização do medo. Porque é central na promoção da saúde mental, na possibilidade de florescimento e de bem-estar, factores essenciais à confiança no presente e para o futuro, à adaptação às adversidades e à gestão dos anseios e frustrações. Porque é essencial ao desenho ajustado às pessoas, ao seu comportamento e à tomada de decisão, de políticas públicas fundamentais à mitigação das vulnerabilidades, à resposta aos desafios do presente e do futuro e à crença no sistema democrático como capaz de responder às necessidades e expectativas das pessoas.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, o chão comum da democracia e dos direitos humanos far-se-á com todas e com todos, com participação, envolvimento e mobilização capazes, não apenas de vencer eleições, mas de vencer ideias, narrativas, simplificações e mistificações. Capazes de vencer a utilização (e legitimação) do ódio e do medo, em benefício de projectos e ambições políticas de pessoas e de grupos. Capazes de recuperar e construir confiança e de acreditar no futuro, de cada pessoa e de todas as pessoas. Como cidadão, e como cidadão psicólogo, aqui e ali, no Mundo ao redor, preocupam-me mas mobilizam-me estes desafios e o nosso tempo. E a si?

 

Tiago Pereira

in Sábado (Ao redor…); 08.05.2022

https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/eleicoes-la-como-ca-a-relatividade-do-ganhar-e-do-perder

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *