Ontem, Dia de São Valentim, vimos (sentimos?) nas ruas mais manifestações visíveis de carinho, afecto e amor. Talvez algumas destas nos tenham estimulado a evocar uma célebre fotografia de um beijo nas ruas de Paris de R. Doisneau (1950). Esta foto, parte do nosso imaginário, fez muito pela ideia romântica da cidade Luz e foi um marco da carreira de um fotógrafo que, como poucos, retratou a vida social e uma “cultura de rua”, também de crianças e jovens de diferentes origens sócio-económicas, o que lhe valeu existirem muitas Escolas em França com o seu nome, celebrando-o.
Noutra evocação, esta pessoal, trago Doisneau porque o associo, em virtude da forma como fotografou as crianças nas ruas e nas Escolas, a um outro momento/retrato que acompanho há uma década com interesse pessoal (cidadão) e profissional (a partir da ciência psicológica): a publicação pelo CNE do Estado da Educação. A edição de 2021, a cuja leitura/consulta convido retrata um 2020 com indicadores positivos, de um caminho de décadas que tem vindo a ser feito na Educação em Portugal, mas fortemente desafiados pelo impacto do 1º ano de pandemia, particularmente nas crianças e jovens com maiores vulnerabilidades. Neste sentido, além dos tradicionais indicadores, uma componente significativa do Estado da Educação 2020 nas suas partes II (Educação em tempo de pandemia: Estudos do CNE), III (Testemunhos) e IV (Reflexões) trata os impactos da pandemia na Educação (e não apenas), tendo a parte IV um artigo (A saúde mental dos alunos e dos profissionais na escola: Escolas como ecossistemas de bem-estar, saúde e aprendizagem) da responsabilidade da Margarida Gaspar de Matos onde participo com o Osvaldo Santos e a Sofia Ramalho.
Na página oficial de Doisneau são partilhadas respostas suas a um questionário de Proust com décadas (faleceu em 1994). À pergunta “O que mais gosta nas/os amigas/os?” responde “A cumplicidade incondicional”. Também aqui tratamos uma cumplicidade incondicional entre (possibilidade de) bem-estar – saúde – aprendizagem. Cumplicidade apenas cumprível com um contínuo investimento, hoje de urgência reforçada, na prevenção, promoção e recuperação, quando necessário, de cada um dos vértices deste importante – também longitudinalmente – virtuoso triângulo da Educação. Apenas cumprível se assumirmos as conclusões da Summit de Saúde Mental de Atenas (organizada pela OMS em Julho), partilhadas por vários países Europeus (incluindo Portugal), que reforçam a necessidade de colocar a “saúde mental no coração da agenda de recuperação pós-COVID-19”, “repensando os seus serviços no sentido de abordagens holísticas e humanas”, assegurando práticas “participadas” e de “elevada qualidade” e, não menos e importante, priorizando “crianças e jovens, particularmente impactadas com disrupções nos seus processos educativos e vida social”.
Sejamos, tanto quanto possível, incondicionais neste investimento e nesta urgência.