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Psicologia

Palavra(s)…

Era uma vez um rei amigo de um cozinheiro humilde. Cozinheiro que, com vergonha, recusou o convite do amigo rei para o seu casamento. O rei aborrecido escreveu ordenando “Levem-no à forca!”. Uma cedilha ausente, a palavra, a interpretação e (o seu impacto no triângulo) comportamento-sentimento-pensamento.

Este “era uma vez” foi-me contado por um amigo. Um amigo “rei da palavra”. Trabalha com e a partir delas e reflecte (muito e muito bem) sobre o seu significado.

Recordo-a no dia em que passam 20 anos do Conselho da Europa que criou o Dia Europeu das Línguas (hoje comemorado a 26.9) visando a valorização e preservação da riqueza e diversidade linguística da Europa e a promoção da proficiência linguística das pessoas para uma participação efectiva na cidadania democrática. Recordo-a dias depois da morte de Lawrence Weiner, um artista conceptual, amigo do “rei” Julião Sarmento, que ancorou as suas obras artísticas na linguagem e na reflexão que suscitava a partir de palavras impressas como as que partilho (no original [foto] e numa tradução possível e difícil): “Muitas coisas deixadas nas margens de um rio | Inevitavelmente arrastadas na corrente.”

Vivemos um tempo em que a percepção do impacto da linguagem e da palavra (das que existem e não existem; das que se usam e porque se usam e das que não se usam e porque não se usam) está muito presente nas nossas vidas. Na minha vida.

Não definem todo o pensamento, mas, na relação com os contextos e com as pessoas, através do simbólico, inevitavelmente “arrastam-nos na corrente”. Não definem toda a emoção, mas a palavra condiciona a narrativa emocional (também com a literacia emocional de cada um/a), impactando a dimensão afectiva (a sua partilha, comunicação e interpretação) e a nossa cidadania. Não definem todo o comportamento, mas, na relação connosco, com outras e outros e com o que nos rodeia, impactam-no, bastando observar como em situações de elevada incerteza (por ex. num rapto) a possibilidade de negociação (interacção) com o/a raptor/a pela equipa de negociação aumenta se lhe for sugerido “falar” ao invés de “conversar”.

Vivemos um tempo em que se discute mais a palavra nos processos de reconhecimento e de inclusão/exclusão mas, muitas vezes, sem se atender a que a palavra se concretiza no contexto e na relação sendo, portanto, diversa (e por isso rica) pessoa a pessoa, momento a momento. Tempo em que, não esquecendo a máxima que (alguns) actos (potencialmente) valem mais que mil palavras, devemos reflectir quanto valem milhões de palavras, sempre usadas, sempre repetidas. Tempo de não esquecermos que parte importante da relação e entendimento humano decorre da reparação, pelo diálogo, de mal-entendidos, erros e de dificuldades de comunicação e do que isso representa na construção e nos distingue das máquinas, cuja comunicação sem estes erros, mal-entendidos e sem o incerto não o permite.

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