O termo “balada” remete no binómio música-literatura para uma música ou canção com forte carga sentimental e para uma forma narrativa poética de lendas. A “Balada do lado sem luz”, composta por Gilberto Gil e interpretada por Maria Bethânia (que vos convido a ouvir) é um excelente exemplo de uma balada de nome balada que o sintetiza na metáfora (“lado sem luz” vs “lado com luz”) e na mensagem de que devem as pessoas do lado sem luz, “subterrâneos gelados do eterno esperar (…) navegar, descobrir outro dia, outro sol”.
“Balada da Escassez”, 12º artigo da rubrica “Ao redor…” (Revista Sábado) parte da ideia de balada “à boleia” dos filmes Urso de Ouro (longa e curta-metragem) no Festival de Berlim de 2016 – Fogo no Mar, Gianfranco Rosi (Itália), sobre as interfaces e a vivência das e dos habitantes da ilha de Lampedusa e das e dos migrantes que chegam à ilha, em condições de enorme vulnerabilidade, através de travessias do Mediterrâneo; Balada de um Batráquio; Leonor Teles (Portugal), sobre um fenómeno que nos confronta com mal-entendidos e discriminação dissimulada, mas nem por isso menos ostensiva e normalizada, acerca da comunidade cigana a partir de uma superstição feita barro distribuído por montras e portas país fora – os desconcertantes sapos verdes que não mais pretendem que assinalar quem é e não é bem-vinda e bem-vindo.
O artigo (que vos convido a ler) reflecte sobre o que une as e os migrantes que “arriscam” a travessia do mediterrâneo – a escassez – para procurar pensar as suas implicações: impelir a pessoa a viver em exclusivo o momento presente, condicionando o bem-estar e qualidade de vida; ocupar a “largura de banda cognitiva” disponível da pessoa condicionando significativamente a sua capacidade cognitiva e o controlo executivo, impactando a tomada de decisão e de planeamento.
Aborda também a forte e cíclica associação entre pobreza e exclusão e a ausência de saúde psicológica, considerando que as situações de exclusão e pobreza são geradoras de ansiedade, stresse e depressão e que as pessoas com níveis mais elevados destes problemas e dificuldades de saúde psicológica estão mais vulneráveis e por isso mais expostas a situações de precariedade, pobreza e exclusão.
Procura, ainda, pensar a exclusão e sobre como também a ciência, também a psicológica, tem afirmado o seu papel no ciclo de “desaproximação” e de polarização de grupos, gerando mais ciclos de exclusão, de dificuldades de convivência e da ausência de espaço para a criação das importantes penumbras sociais.
Termina reflectindo sobre o momento que vivemos – e como também ele nos fixa ao presente e exponencia desigualdades e o potencial global de pobreza – e sobre como é fulcral responder ao mais básico do mais básico das necessidades dos seres humanos, promovendo-se a confiança nas pessoas e potenciando a sua capacidade, autonomização e inclusão, interrompendo os acantonamentos e os ciclos de reprodução da escassez, exclusão e dos problemas e dificuldades de saúde psicológica.