O “12 angry men” de S. Lumet onde 12 jurados discutem um assassinato, é um dos filmes que mais me marcou. Por múltiplas razões das quais aqui destaco o uso da coincidência (e o papel que tem na nossa vida, desde a formação de convicções ao lidar com a dúvida) e o modo como explora a culpa (e a reflecte a partir das idiossincrasias dos jurados, exploradas ao pormenor das suas interações).

Neste momento da pandemia em Portugal a culpa é “personagem”.
Pelo que significa para quem possa ter tido um papel na infecção de outros. Um pouco como a dor e o medo, culpa que quando adaptativa é importante, por natural e estímulo para acções, mas que pode, dependendo das circunstâncias e vulnerabilidades, ter consequências significativas na saúde psicológica/mental e sobre a qual reflicto (com o Eduardo Carqueja) na última edição da Visão.
Pelo que significa a culpabilização ter hoje espaço no discurso público/político pela suposta ilegitimidade do cansaço da pandemia ou quebra de contrato de confiança (Natal). Comunicação negativa contraproducente pois maior culpabilização gera(rá) menor adesão às recomendações.
Nas próximas (e complexas) semanas evitemos culpar o outro e naturalizemos, aceitando, sentirmos culpa porque, como Lumet mostrou, humanos que somos, todas/os cometemos erros.