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COVID-19 Desafios da Psicologia

Caça-Mitos: Álcool e COVID-19 (TSF; Sem medo do Medo; 08.04.2020)

Em tempos dados a memórias – de tantas pessoas nos lembramos nos dias que correm – socorro-me do imaginário da minha geração e apelo a uma memória de um jovem Bill Murray na pele de Dr. Venkman sentado numa escadaria de garrafa de licor na mão. Garrafa esta partilhada com o Dr. Stantz enquanto discutem a criação de uma nova startup – Ghostbusters (Caça-Fantasmas). Um pequeno pormenor que, pouco lembrado, é significativo num filme que a todos toca.

Recentemente a Organização Mundial da Saúde lançou o Mythbusters (Caça-Mitos) como contributo para o combate à desinformação paralelo ao combate à pandemia COVID-19. Entre caricatos mitos (“se conseguir suster a respiração 10 segundos sem tossir não tem COVID-19”; “tomar um banho quente ou comer alho previne a COVID-19”), surge a resposta factual para o mito que associa o consumo de álcool a uma propensa protecção contra o vírus: “beber álcool não protege contra o vírus…” acrescentando “…e pode ser perigoso”. E, se pode ser perigoso em quaisquer circunstâncias, pode sê-lo especialmente quando consumido em excesso ou sem controlo aquando de uma pandemia baseada num vírus com forte poder de propagação e infecção que por estes dias nos ‘obriga’ a um isolamento quase generalizado.

Ao contrário do referido mito, a evidência científica disponível indica que a imunidade diminui com o consumo excessivo de álcool, tornando a pessoa mais susceptível ao vírus e às suas consequências (nomeadamente ao nível respiratório). Depois, as situações de crise e de isolamento e os sentimentos de incerteza e solidão que podem despoletar, surgem associados ao aumento do consumo e do consumo excessivo de álcool. Consumo este, por sua vez, associado a fenómenos como a violência doméstica, problemática também especialmente sensível em situações de confinamento. Finalmente, os muitos portugueses com consumos problemáticos de álcool estão entre os grupos populacionais mais vulneráveis no enfrentar da pandemia. Parte deles mais velhos e alguns muito isolados, podem vivenciar este momento com significativa ansiedade, com perda de suporte social ou com síndromes de abstinência, por dificuldade de acesso, que acrescem às restantes consequências da pandemia. Em todas estas situações é essencial o apoio e a não estigmatização da família, cuidadores e comunidade, a promoção da ajuda a partir de canais de comunicação simples e eficazes com profissionais de saúde / serviço social (por exemplo a Linha 1414) e um compromisso ético-profissional de manutenção da relação de apoio e suporte quando já existente.

Noutro prisma, importa sublinhar que alguma evidência parece apontar para que quem tem consumos de álcool esporádicos e de baixo risco (tipicamente, uma unidade nas Mulheres e cerca de duas nos Homens) possa beneficiar da manutenção desse comportamento em período de isolamento. Não que quem habitualmente não beba o deva passar a fazer ou que quem esporadicamente o faça deva passar a fazê-lo regularmente, ainda que em quantidades de baixo risco. Antes, que potenciais consequências do isolamento como a tensão, a raiva, a exaustão emocional ou o stresse possam ser ligeiramente atenuadas, com consumos esporádicos e de baixo risco em pessoas que já o faziam e que mantêm autorregulação desse comportamento na situação que vivemos onde factores externos podem condicionar a percepção de risco e controlo relativamente ao consumo. Portanto, se por vezes brindamos com amigos ou em família, que o mantenhamos controladamente e respeitando o isolamento actual, quem sabe se para ‘selar’ a startup CovidBusters.

Álcool, um pequeno pormenor que, pouco lembrado, é significativo na COVID-19 que a todos toca e que, juntos e só juntos, venceremos.

TSF (Sem medo do Medo); 08.04.2020; Áudio aqui

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