“Porque caem tantas árvores durante as tempestades?”, interpela-nos Helena Freitas, num título de um texto que escreveu a propósito de “nos últimos anos Portugal [ter] assistido a um aumento significativo da queda de árvores durante tempestades intensas”, referindo-se – também – aos papel do solo. “Um dos fatores críticos [para tal] é o estado do solo [em Portugal]. Durante períodos de chuva intensa ou cheias, os solos ficam saturados de água e perdem grande parte da sua resistência. A água acumulada nos poros do solo reduz o atrito e a coesão que mantêm as raízes firmemente ancoradas. Nessas circunstâncias, árvores que permaneceriam estáveis em solos secos podem tombar mesmo sob ventos moderados. Este mecanismo é uma das explicações mais bem documentadas para a queda de árvores associada a tempestades”, escreve.
Este é momento para todos nos associamos à dor da perda e ao sofrimento do conjunto de pessoas impactadas pela forte tempestade da última semana e pelas condições meteorológicas dos últimos (e, eventualmente, próximos) dias e suas terríveis consequências.
Sendo-o, é fundamental, diria até por respeito a este sofrimento, que não saltemos deste fenómeno para um outro futuro sem espaço de reflexão na sociedade civil e decisoras/es sobre o que podemos fazer para prevenirmos, na medida do possível, e estarmos mais preparados e resilientes para enfrentarmos, enquanto comunidade e país, este tipo de fenómenos climatéricos, que infelizmente tudo indica tenderão a ser mais intensos e frequentes.
Também em texto de opinião, Pedro Adão e Silva refere que a Agência Europeia do Ambiente estima que, desde 2000, Portugal tenha perdas anuais de cerca de 630 milhões de euros (acima da média europeia) derivadas de fenómenos climáticos extremos (incêndios, inundações, tempestades). Podemos e devemos portanto perguntar-nos sobre o que podemos fazer e mobilizarmo-nos nesse sentido. Um caminho possível? Pensarmos o solo e internacionalizarmos os objetivos da nova directiva europeia que, desde Novembro, insta os países membros a monitorizarem os seus solos e promoverem um conjunto de ações no sentido de os tornar mais saudáveis e resilientes como factor-chave para a segurança alimentar, qualidade da água e ambiente. Acrescento, para a prevenção e resiliência face a fenómenos climatéricos extremos.
Este (novo) olhar para o solo, para a sua actual degradação e para a sua (potencial) regeneração, tem tanto de fundamental quanto de possível e desejável.
Como Thomas Oudman e Charles Mann referem, “pensando as práticas ancestrais” e, com ciência, trazendo-as para a contemporaneidade a partir de “culturas que previnam a desertificação e poluição e promovam a biodiversidade, trabalhando com a natureza e não contra a natureza.”
Como, na Fundação Mendes Gonçalves procuramos contribuir, a partir do programa Regenerar, para maior investigação e conhecimento, literacia, advocacia e para estimular mudanças de práticas para solos mais saudáveis e resilientes.
Para leituras aprofundadas e/ou complementares:
. Helena Freitas | Porque caem tantas árvores durante as tempestades? | https://www.linkedin.com/posts/hfreitas_porque-caem-tantas-árvores-durante-as-tempestades-activity-7422962653251371008-QX3A/?originalSubdomain=pt
. Pedro Adão e Silva | As tempestades, a Kristin e a aprendizagem coletiva | https://www.publico.pt/2026/02/01/opiniao/opiniao/tempestades-kristin-aprendizagem-coletiva-2163188
. Directive (EU) 2025/2360 of the European Parliament and of the Council of 12 November 2025 on soil monitoring and resilience (Soil Monitoring Law) | https://eur-lex.europa.eu/eli/dir/2025/2360/oj/eng
. Thomas Oudman e Charles Mann | The future of agriculture lies in the past | https://thecorrespondent.com/835/the-future-of-agriculture-lies-in-the-past
. Fundação Mendes Gonçalves | Nota Conceptual – Programa Regenerar | https://fundacaomendesgoncalves.org/wp-content/uploads/2025/07/NC-003-FRE-Nota-Conceptual-Regenerar_Funda‡AEoMendesGon‡alves-0_VF_CAPA.pdf