Que Portugal? Quem me ouve e/ou lê sabe que me (pre)ocupa uma inquietante ligação entre a desconfiança, o autoritarismo e a aculturação.
Como hoje, no Mundo mas também cada vez mais em Portugal, sem pudor, se exploram casos e pessoas, instigando o medo e/ou o ódio, polarizando para, de forma mais eficaz, gerar e propagar desconfiança, fragilizando outras pessoas e instituições com fins políticos.
Fins que começam e acabam no desrespeito e na ameaça aos valores da liberdade, da equidade, da democracia e do bem-comum e que conduzem, hoje, também a um interromper num caminho de maior democratização dos sistemas de governo no Mundo com o regresso ao autoritarismo tácito, que acresce ao conjunto de manifestações da progressão do autoritarismo implícito.
Mas não termina aqui. Este “tudo posso” e esta ausência de “limites” e de “respeito e consideração pelas e pelos outros”, sejam pessoas ou países, traz a necessidade de mais e mais, de crescer, expandir, aumentar e de aculturar tudo e todos e todas. Traz o desejo da “América novamente grande”, da “Rússia se reerguer” ou da “China Global 2049”. Traz as significativas implicações destas ambições para a Paz, para a possibilidade de bem-estar no Mundo e para uma ideia de cooperação e partilha entre países pelo planeta e pelos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável.
Mas, que Portugal neste Mundo? Um Portugal de, inexistentes mas persistentes, “raças”, na crença e no sentir de algumas pessoas? Um Portugal que nada deve e tudo lhe é devido? Um Portugal que “culpa” as pessoas pelas suas circunstâncias, por exemplo de pobreza? Um Portugal em que cada pessoa julga e desconfia de outra pessoa e com “medo de existir”?
Não. Não. Não. Espero e luto para que não. Antes, por um Portugal que, sensível às vulnerabilidades e crente no potencial das suas pessoas, não tenha o “medo de existir” que o seu José Gil tão bem define. Um Portugal a inscrever todo o seu passado, na celebração e na reparação, para compreender e actuar no presente e se projectar no futuro. Um Portugal na antítese de uma ideia de grandeza que, em bom rigor, vive da desconfiança, do autoritarismo e da tentativa de aculturação de tudo e de todas e todos.
Um Portugal de equidade, inclusivo, aberto a si e ao Mundo… Um Portugal, qual, “grito que vem de longe e ainda não se calou” que Saramago descreveu na sua “Viagem a Portugal”.
Um Portugal com passado, de presente e para o futuro. Um Portugal, também, farol do Mundo.