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Pobreza e Desigualdade Psicologia

Um robalo… Um simples robalo.

Um robalo… Delicioso, é certo, mas num local simples, construído pela mão e sonho de quem pesca o peixe que ali se vende. Comemos ontem um robalo, delicioso, num simples (mas bom, como tantos) restaurante deste nosso país com 1860 km de costa (continente e RA dos Açores e Madeira). Porém, comemos o que, infortunadamente, tantas famílias em Portugal não poderiam ter comido ou que para o fazerem teriam que fazer um conjunto de escolhas exigentes e difíceis. Um país onde muitas e muitos não conseguem comer um robalo num restaurante simples. Não podem ir a um restaurante simples. Um país onde a pobreza (e exclusão) afectam, ainda, uma percentagem muito significativa de pessoas. Onde 1,9 milhões de pessoas viviam em 2020 em risco de pobreza, 18,4% da população face a 16,2% em 2019, aumento em parte explicável por uma pandemia que continuou em 2021 e, embora noutro grau, se cruza hoje com a Guerra que vivemos.

Perda, incerteza, imprevisibilidade a que se soma perda, incerteza e mais imprevisibilidade. Uma taxa elevadíssima de risco de pobreza que a todas e todos deve confrontar e mobilizar; outras vulnerabilidades económicas e sociais; problemas de saúde física com detecção e intervenção precoce diminuta nos últimos anos; problemas de saúde psicológica mais presentes, frequentes e graves; eis como chegamos à crise de inflação e que, embora ainda não previsível, poderá a médio prazo transformar-se numa inquietante estagflação – conjugação da inflação com (a embora para já não previsível) estagnação económica.

“O dinheiro não traz felicidade”, costumamos ouvir, senão dizer. Parece, efectivamente e de acordo com a ciência disponível, não trazer bem-estar mas (e este mas é muito importante) apenas a partir de um valor de rendimento disponível das pessoas e das famílias bastante acima do limiar de pobreza. Antes desse valor, traz. Bem-estar e saúde, incluindo, naturalmente, saúde psicológica. Porque, viver em situação de pobreza (de escassez) ou de risco de pobreza (risco de escassez), acresce significativamente o risco de doença, de problemas de saúde psicológica, de perda de anos de vida com qualidade. Que, por sua vez, acresce significativamente risco de pobreza, criando um ciclo nada virtuoso e um dos principais e mais complexos desafios societais contemporâneos.

O trabalho “Impacto da pobreza na saúde” da jornalista Rita Caetano (SABER VIVER; Março de 2022) refecte este ciclo. Nele afirmo que “diminuir os determinantes das situações de pobreza é promover a saúde mental e vice-versa”. Nele afirmo que a pobreza condiciona a “possibilidade de desenvolvimento pleno da pessoa, de bem-estar e até em algumas situações da sua dignidade”. Assim considero, conforme considero que, sendo difícil e complexo, temos no país, condições, competências e recursos que permitem uma acção determinada no combate à pobreza e à exclusão. Conforme considero, ainda, que é tempo desta ser prioridade absoluta do país, porque tudo e todas e todos impacta. O presente e o futuro.

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