“…Sempre me fascinou, pelo seu lado simbólico, a forma como a igreja católica durante séculos resolveu a dissonância resultante da impossibilidade de acolhimento no céu de um bebé ou criança sem baptismo pela referência ao limbo, um lugar intermédio, de suspensão entre o céu e o inferno (…) Quando em 2007 essa interpretação se alterou, “o fim do limbo correspondeu a uma outra forma de resolução da dissonância”. No artigo, sugiro, porém e noutra área (laboral), “que seja a introdução do limbo uma outra forma de resolução de uma dissonância.”
“Os contactos laborais fora do horário de trabalho: Um elogio ao limbo”, 96º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista SÁBADO) trata “a nossa intenção de “despacharmos” assuntos, ainda que não urgentes, muitas vezes problemas, de nós para outras/os face a sabermos que não o devemos fazer em períodos em que essas outras e outros não estão em horário de trabalho.”
Sublinha que a “forma tradicional de se resolver esta dissonância – quando existente porque em culturas organizacionais com poucos limites nem chega a existir – é a racionalização que se a outra pessoa está fora do horário de trabalho “não irá ver” essa informação/comunicação ou, numa alternativa mais sofisticada, “se vir não era a isso obrigada e foi porque assim desejou”.
Ora, no artigo convoco “o limbo como uma outra forma, mais positiva creio, de resolver a presente dissonância.”
“A possibilidade de, de facto, “despacharmos” o trabalho, muitas vezes os problemas, de nós, porque o consideramos importante para nós, mas não os enviarmos nesse momento para outras pessoas, quando fora do seu horário de trabalho. Ferramentas simples como programar envios de emails ou de outras comunicações (face a enviar imediatamente) ou agendar reuniões onde se parte de um memorando já feito, mas que aguarda feito por esse momento para ser comunicado, ajudam nesse sentido e são um importante contributo que, se todos adoptássemos mais, apoiaria significativamente a possibilidade de conciliação de todos”.
“Seria um movimento de responsabilidade partilhada e de respeito de quem envia a mensagem ou comunicação não expor quem a recebe, ao mesmo tempo prevenindo a possibilidade de quem a recebe voltar a enviar para outra pessoa ou mesmo para quem inicialmente enviou, entrando-se num ciclo que (inter)fere (com) a saudável divisão entre tempo e espaço pessoal e familiar e laboral e que pode determinar a cultura de uma organização, estimulando a que diferentes pessoas na organização sintam que o correcto será contribuir para esse comportamento e ciclo.”
Creio que “podemos todos beneficiar de introduzir mais limbo e limbos nas nossas comunicações em contexto laboral. Podemos todos beneficiar do tempo e espaço que esse limbo nos dará estando mais disponíveis para nós, para nos compreendermos melhor e para compreendermos melhor o que e quem nos rodeia. Para sermos mais pessoa e, assim, mais e melhores profissionais. Para contribuirmos para um Mundo melhor para todos.”