
Como viveremos juntos? A pergunta que a tantas e tantos inquieta é o mote da 17ª Bienal de Arquitectura de Veneza, a primeira pós-COVID-19 que decorre até Novembro próximo. A Bienal trata a arte e a arquitectura, ingredientes fundamentais à experimentação e à contemplação, e permite um contexto de questionamento propício à reflexão sobre o que (e como) vivemos e o que (e como) viveremos. O seu curador, Hashim Sarkis, afirma que lhe parece igualmente válida a questão “e se?” face às questões “como?” e “por que?” enquanto, ao sublinhar que “um contrato espacial pode ajudar a inspirar um contrato social”, estimula as arquitectas e arquitectos a “imaginarem espaços em que possamos viver de forma generosa e juntas e juntos”.
Penso-o movendo-me do complexo e desafiante mote da Bienal para o “Pê de pai”, livro escrito por Isabel Minhós Martins, belissimamente ilustrado por Bernardo Carvalho e que, de forma simples e desconcertante, mas não menos simbólica, aborda a relação de pais com filhas e filhos, convidando a “descobrirem-se juntos, ao virar de cada página”. Ao virar de cada página, como ao virar de cada esquina, de cada espaço. Aos “pê de pai avião” e de “pai travão”, de “pai sofá” e de “pai boia”, de “pai carrossel” e de “pai túnel” do livro, acrescento, o pê de pai motorista.
A arte e nossa construção e/ou “confronto” com ela, permite-nos, a partir das novas leituras da realidade que proporciona, nomear e, por vezes, (re)significar o que sentimos. Nos últimos dias, com poucas horas de diferença, permaneci à porta de uma Unidade de Saúde aquando de um exame do meu filho mais novo e à porta da Escola aquando da reunião de preparação deste ano lectivo do meu filho mais velho. Neste meu “confronto” com as regras destes espaços e as suas consequências em mim e na minha família, outro “confronto”, este com a arte, ajudou-me a nomear o que sinto (a tal ideia de pai motorista) e, particularmente, a significar o que sinto (a forma como o contrato e as regras dos espaços condicionam e influenciam o contrato social).
Não esqueço que vivemos um momento ainda muito desafiante e que, pese embora todos os avanços (na imunização da população face ao vírus SARS CoV-2 e até no tratamento da COVID-19, na disponibilização e acesso mais simples a equipamentos de protecção individual, na melhor preparação dos espaços e na literacia da população relativa a comportamentos pró-saúde e pró-sociais), a pandemia ainda determina a necessidade de, em termos comportamentais, assumirmos cuidados de auto e hetero-protecção. Tal qual nos impõe perguntas para as quais não temos e não existe resposta definitiva e nos brinda com incertezas, dúvidas e até inseguranças face ao futuro próximo e menos próximo. Mas também não posso esquecer que estas minhas inquietações não são exclusivas do momento que vivemos, bastantes são prévias à pandemia, como é exemplo, para referir apenas um que muito me impactou, o facto de não me ter sido permitido estar as duas primeiras noites de vida do meu primeiro filho a seu lado e ao lado da sua mãe.
Sinto que, pré-pandemia, em pandemia e quando sairmos desta pandemia, temos o dever de, enquanto sociedade, garantir que as regras e contratos espaciais, particularmente os relativos aos espaços e serviços públicos, promovem o que consideramos mais importante do contrato social, ainda que isso nos coloque dificuldades de gestão e, por vezes, até exponha as organizações ou instituições a maiores exigências e riscos (desde que devidamente “controlados”). Sinto que, se defendemos uma sociedade que promova a equidade e combata as desigualdades (de género, pertença comunitária ou cultural, nacionalidade, idade, …) e que promova a coesão social e o desenvolvimento de relações e vínculos entre pessoas, temos que ter regras para o espaço público e para o acesso a serviços públicos que disso sejam facilitadoras.
Se isto é verdade sempre, creio que todas e todos percebemos a sua urgência no momento que vivemos e viveremos. Momento em que, compreendendo-se as restrições ainda necessárias, é fundamental um especial empenho e esforço para intencionalizarmos a promoção da possibilidade de relação como factor fundamental à saúde psicológica e bem-estar, presente e futuro. Nas Escolas, nas Unidades de Saúde, nas Casas de Acolhimento de crianças e jovens, nos Centros de Dia ou nas ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas). Onde quer que uma pessoa esteja, e onde quer que a parentalidade e o cuidar das outras e dos outros se expresse, a segurança, o cumprimento de necessidades básicas e os laços que se estabelecem são essenciais e isso deve ser encorajado e não obstaculizado. Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de crianças e jovens, e comprovadamente preventivo de riscos de problemas físicos (como a obesidade, por exemplo) e psicológicos (ansiedade, por exemplo). Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de adultas e adultos mais velhos, e comprovadamente preventivo de riscos de problemas físicos (como problemas cardíacos, por exemplo) e psicológicos (perdas cognitivas, por exemplo). Isso é um factor fundamental na promoção de saúde psicológica e bem-estar de mães, pais, cuidadoras e cuidadores, pela possibilidade de acompanhamento de marcos fundamentais do desenvolvimento das pessoas a seu cuidado e de não retrocedermos num caminho que deve ser acelerado e aprofundando de partilha de responsabilidades nas famílias.
É momento de investirmos na melhor compatibilização e conciliação de medidas sanitárias com medidas de promoção da saúde psicológica, afirmava a Ordem dos Psicólogos Portugueses já no Verão de 2020 defendendo “equilíbrio (e proporcionalidade) entre as medidas sanitárias, essenciais ao controlo epidemiológico, e os impactos psicológicos e emocionais dessas mesmas medidas”. Era, é tempo e será no futuro, também como preconiza o Plano 21|23 Escola+, criado com “vista à recuperação das aprendizagens e procurando garantir que ninguém fica para trás” e que tem no “investimento no bem-estar social e emocional” e no “envolvimento de toda a comunidade educativa” dois dos seus objectivos estratégicos. Envolvimento este fundamental no desenvolvimento competências sociais e emocionais, abordadas num recente trabalho da OCDE que comprova, não apenas a sua importância e os seus impactos longitudinais relevantes para os desafios que se colocarão às pessoas no futuro, mas também o papel do envolvimento parental no seu desenvolvimento.
É, portanto, necessário fazer mais e melhor. É possível fazer mais e melhor. É tempo de fazer mais e melhor.
Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, promover a participação de todas e todos nos processos educativos e de cuidado implicará revisitar os contratos espaciais hoje definidos que impactam os contratos sociais, a saúde psicológica e a possibilidade de bem-estar. Hoje e amanhã, num contexto de “maior divisão (política) e de desigualdade económica (crescente)” como refere Hashmin Sarkis, necessitamos de arquitectas e arquitectos, mas também de decisoras e decisores e de cidadãs e cidadãos a “imaginar(em) espaços em que possamos viver de forma generosa e juntas e juntos”. “E se” for mais difícil? “E se” falta(re)m condições e recursos? Ainda assim. Numa priorização e exigência que tem que ser de todas e todos e de estímulo e apoio à participação de todas e todos. Para que mais que pê de pai motorista sejamos “pai motor”, como no livro.
Tiago Pereira
in Sábado (Ao redor…); 21.09.2021
https://www.sabado.pt/opiniao/convidados/tiago-pereira/detalhe/pai-motorista