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Ao redor... (Revista Sábado)

Autárquicas 2021 – Por um Portugal de ABC (Ao Redor; Sábado; 05.05.2021)

De repente olhamos pela janela e as ruas estavam vazias. A televisão, os telemóveis, os jornais e as revistas mostravam-nos incessantemente imagens de ruas outrora repletas, agora desertas. Os lugares, as cidades em pausa. O impensável concretizava-se às mãos de um vírus e de uma pandemia que nos obriga a repensar e a recuperar. Que nos permite uma, até aqui improvável, rápida mudança que pode concretizar-se já a partir deste 2021.

Com o avançar do ano juntaremos à melhoria da situação sanitária do país – com maior imunização e melhor adaptação das pessoas e da sociedade à (con)vivência com o vírus – o provável início da implementação do plano de recuperação e resiliência, o resultado no Mundo da eleição de Biden (e da derrota de Trump) e a construção, debate e sufrágio dos programas para as autarquias, pela relevante coincidência de 2021 ser ano de eleições autárquicas em Portugal. Creio que a importância destas eleições no momento que vivemos é ainda insuficientemente saliente no debate público, algo desalinhado com o seu papel no repensar e no recuperar a que estamos obrigados e na mudança que daí pode e deve resultar.

O desafio que enfrentamos, também porque expõe mais claramente as vulnerabilidades, as iniquidades e a forma como intrinsecamente se relacionam, reforça a importância da proximidade e a pertinência da adaptação e “personalização” das respostas/medidas em crises às características, necessidades e aspirações das pessoas, grupos e comunidades. Reforça também a importância da intervenção precoce ao surgimento dos problemas e do investimento em agendas de futuro, com resultados a médio e longo prazo. Já a pausa a que fomos forçados permite-nos reiniciar e, ao reiniciar, voltar ao mais básico do que queremos das cidades e dos territórios – a possibilidade de fruição dos mesmos por todas e todos que os habitam ou visitam. Permite-nos, sem tabus, aspirar a um Portugal de ABC – Autarquias de Bem-estar e Coesão social.

As equipas candidatas nas próximas eleições autárquicas têm assim um papel importante no presente e futuro do país e que será tão mais consubstanciado quanto intencionalizem e promovam, com sucesso, a mobilização das populações para participarem neste processo eleitoral. Esta participação deve decorrer, não apenas da possibilidade de serem candidatas ou da participação eleitoral propriamente dita, mas também do envolvimento activo no desenho dos projectos para as autarquias, possibilitando a identificação nos mesmos das expectativas e aspirações das pessoas e promovendo o envolvimento colaborativo futuro para sua concretização. Mais, as equipas candidatas devem potenciar uma dimensão interdisciplinar neste processo, recorrendo a contributos de diversas áreas científicas que apoiem, operacionalizem e complementem o processo de participação atrás referido, entre as quais a ciência psicológica.

A cidade e o território são os espaços micro onde se espalham a realidade macro. É neles que as necessidades, das mais básicas até as que nos permitem cumprirmo-nos integralmente, devem ser preenchidas. É neles que a pandemia ganha nome das pessoas que afecta e a quem impacta. Que a pobreza se expressa. Que a iniquidade se concretiza. Que existem pessoas em abandono escolar, em situação de desemprego ou em situação sem-abrigo. Que se vê e vive a exclusão. Que a crise climática resulta em períodos de seca e alterações ambientais, em inundações ou incêndios florestais de grandes dimensões. É neles que o bem-estar ganha forma e a coesão pode ser impulsionada.

Há muito definida enquanto estado completo de bem-estar, a saúde é absolutamente essencial por ser transversal a estas necessidades e pelo impacto que tem na coesão social, particularmente num país onde o seu Serviço Nacional de Saúde é ainda um dos principais factores de inclusão e de produção de riqueza. Neste sentido, é fundamental que os projectos para as autarquias assentem numa visão de promoção da saúde das populações e prevenção da doença, numa perspectiva em que a saúde não se limite à dimensão física, integrando a dimensão psicológica, condição essencial à saúde física e garante da possibilidade de fruição e da capacidade de adaptação e resiliência (pessoal e comunitária) à adversidade e aos desafios societais e da cidade, presentes e de futuro.

O papel da ciência psicológica não se esgota nas dimensões directas da saúde. Para o bem-estar e coesão social, questões como a educação e a forma como aprendemos e aprenderemos no futuro, a habitação, a mobilidade, a demografia, as instituições e suas lideranças, o ambiente, o emprego e a forma como trabalhamos e trabalharemos, a conciliação de papéis sociais das pessoas (vida pessoal-profissional, por exemplos) e dos territórios (relação turismo-habitação, por exemplo), a cultura, a confiança, a capacidade de resposta a crises, a equidade e inclusão ou o desporto são cruciais e áreas onde as autarquias assumem preponderância e onde contributos da ciência psicológica são fundamentais.

Através dela podem compreender-se melhor as motivações que conduzem a vivências significativas dos e nos lugares. Podem facilitar-se os processos de mudança necessários à adaptação das populações a territórios em rápida transformação. Pode promover-se a inclusão de todas e todos, garantindo não apenas que as pessoas são ouvidas aquando dos processos de tomada de decisão, mas que têm a informação e desenvolvem as capacidades e a motivação necessárias à mudança e a uma cidadania activa e plena.

As psicólogas e os psicólogos podem contribuir localmente para o que o país, como um todo, terá que fazer, não deixando “ninguém para trás” e não permitindo que autarquias com menos recursos, densidade populacional ou com desafios específicos sejam preteridas neste processo, penalizando populações já de si penalizadas pelos mesmos factores e prevenindo a lógica de “super-autarquias” que, com mais recursos possam desenvolver projectos que captem mais pessoas e recursos, aprofundando o fosso e reforçando iniquidades neste âmbito.

Na verdade, aqui e ali, no Mundo ao redor, é tempo de repensarmos as cidades e os territórios envolvendo os cidadãos e de os recuperarmos pela recuperação das pessoas. É tempo de construirmos projectos que lhes permitam florescer para que as pessoas com eles e neles floresçam. Assim se prevenirá o efeito negativo da “urbanidade” e de condições específicas do território na saúde mental e no bem-estar das pessoas. Assim se promoverá, em proximidade e na e pela relação, a sustentabilidade e a resiliência pessoal e comunitária para os desafios e crises que nos esperam e que as autarquias esperam. Assim, com um Portugal de ABC, aproximar-nos-emos de um país de bem-estar e coesão social.

https://www.linkedin.com/pulse/aut%25C3%25A1rquicas-2021-por-um-portugal-de-abc-tiago-pereira

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