
Quem me é mais próximo sabe que guardo momentos da minha vida e das minhas experiências de vida, sob a forma de pequenos papéis (faturas, bilhetes, cartões), no interior dos livros que estou a ler. Marcam, pelo posicionamento, páginas com passagens significativas dos livros. Marcam, no tempo, momentos significativos da minha vida. São fragmentos que me constroem e que fazem de mim o que sou.
Nas últimas décadas, a ciência psicológica e a investigação em Psicologia consolidaram-se um pouco por todo o mundo, pelo seu crescimento significativo e por uma mais evidente aplicação a diferentes fenómenos e contextos de vida. Creio que, em Portugal, embora mais tardio, este desenvolvimento se intensificou recentemente. A partilha da ciência psicológica e a sua aplicação por mais de duas dezenas de milhares de psicólogos, por todo o país, constroem uma Psicologia, hoje, mais acessível aos cidadãos (embora ainda de forma insuficiente), nas suas diferentes etapas desenvolvimentais, nos seus diversos contextos e aquando dos seus mais significativos acontecimentos de vida. Constroem uma Psicologia que pode e urge informar mais as políticas e os decisores e mobilizadores sociais, visando o bem-estar de pessoas e comunidades e a promoção da equidade e coesão social. Dezenas de milhares de psicólogos que, na investigação, na docência e formação, na promoção da literacia e na sua prática profissional quotidiana, multiplicam e disseminam fragmentos que compõem uma Psicologia ao serviço das pessoas e colocam a ciência psicológica como ciência essencial, na resposta aos complexos desafios societais contemporâneos.
Desde o passado dia 11 de março – data da então aguardada declaração, pela Organização Mundial de Saúde (OMS), da passagem da epidemia de COVID-19 a pandemia, resultado dos “níveis alarmantes de propagação e inação” –, vivemos um momento histórico, que será amplamente estudado e recordado. Momento marcado pela exigência, associada à adversidade, à incerteza e às crises de saúde pública e socioeconómica global, e pelo grande desafio com que as pessoas, em especial as mais vulneráveis, se confrontaram e confrontam. Coletivamente, partilhamos imagens, sensações, emoções, comportamentos, frases do período que vivemos. São fragmentos que definem o que vem sendo apelidado de “novo normal”.
Nas páginas que antecedem estas palavras há uma síntese do que atrás refiro. De como vivemos um momento excecionalmente desafiante. De como a ciência, não apenas a ciência psicológica, mas com fortes contributos seus, e os profissionais, não apenas os psicólogos, mas com fortes contributos seus, se organizaram para, rapidamente, apoiarem as pessoas, pelo estudo e pela intervenção, particularmente as mais vulneráveis, nesta grave crise que vivemos e neste desafio societal global que, de rompante, nos interpelou. Duas dezenas de textos, em torno de diferentes fenómenos e contextos, associados à COVID-19, reunindo um conjunto de pessoas que, a partir de diferentes papéis, emprestaram o seu conhecimento, a sua determinação e o seu empenho aos cidadãos, às comunidades e ao país. Fazem-no agora, uma vez mais, disponibilizando estes fragmentos, que constroem um importante contributo para a reflexão, para a literacia e para o desenvolvimento de narrativas (individuais e coletivas), essenciais à mudança e à adaptação ao momento que vivemos. Fulcrais à viagem.
Quem me é mais próximo sabe que gosto de viajar e de, em viagem, ler sobre viagens. Há exatamente um ano – agosto de 2019 –, lia, no Viagens [1], uma interessante passagem, que sugeria as três perguntas do viajante (quando um encontra outro): “De onde és?”; “De onde vens?”; “Para onde vais?”. O momento viagem é, assim, descrito como uma etapa, uma transição, onde a história (és), o momento que a antecede (vens) e sucede (vais) são caracterizadores e identitários. Nos últimos meses, tenho (creio que, de uma ou de outra forma, todos temos) refletido bastante sobre esta etapa que vivo, suportado na minha história, no ponto em que me encontrava pré-pandemia e em como me vejo nas próximas semanas e meses. Nessa reflexão, uma constante: o propósito, elemento fulcral da viagem e da adaptação, não apenas, mas também a partir do meu papel, enquanto coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), e do meu pequeno (mas comprometido) contributo para o já menos pequeno (e igualmente comprometido) contributo da OPP, no momento que vivemos. Contributo expresso em múltiplas iniciativas, dirigidas a cidadãos (com a publicação de mais de duas centenas de produtos, no âmbito da promoção da literacia, ou o apoio à criação da linha de aconselhamento psicológico do Serviço Nacional de Saúde – SNS24), decisores e mobilizadores sociais (com contributos na área da comunicação de risco e crise, desinformação e bem-estar ou com a criação de uma rede de agentes, para a promoção de comportamentos pró-saúde e pró-sociais), psicólogos (com reforço de medidas de autocuidado e com a disponibilização de diversos produtos de apoio à prática, reflexão e formação) e a outras entidades nacionais (com apoio à linha de aconselhamento psicológico da Câmara Municipal de Lisboa, ou da Ordem dos Farmacêuticos) e internacionais (com apoio a iniciativas em Cabo Verde ou São Tomé e Príncipe).
Cerca de 50 dias depois de ler as perguntas do viajante, a “psicóloga viajante” Olga Tokarczuk era galardoada com o prémio Nobel da Literatura de 2019. Depois da Economia (Daniel Kahneman, em 2002) e da Medicina (Edvard e May-Britt Moser, em 2014), um terceiro Nobel para psicólogos(as), nas últimas duas décadas. Como uma simbólica confirmação da saliência do conhecimento da Psicologia e da sua aplicação a diferentes contextos, suportada pela sua história, pela sua evolução e que já a definia pré-pandemia. História e evolução assentes, creio, num propósito: a procura e o reforço da identidade dos psicólogos que, como Miguel Ricou, Presidente da Comissão de Ética da OPP, recentemente assinalava numa edição da OPP[2], “facilite a comunicação com todos, (…) evite expectativas irrealistas, desmistifique a intervenção psicológica e facilite o cumprimento do papel dos psicólogos”.
Cerca de 2 meses após o anúncio do Nobel da Literatura de 2019, eram conhecidos e, depois, comunicados os primeiros casos de COVID-19. A história, as experiências anteriores e todo o conhecimento científico e tecnológico já disponível foram insuficientes para travar uma evolução que nos trouxe à pandemia, à grave crise, ao confinamento, ao sofrimento, à incerteza dos próximos meses e a um antes e depois do novo coronavírus. Contudo, trouxe também uma oportunidade para outro reconhecimento da ciência e dos profissionais de saúde, para a promoção da literacia em saúde (e em saúde psicológica), para o reconhecimento da importância do comportamento e dos processos de tomada de decisão, e para a necessidade de promover a coesão social e o apoio aos mais vulneráveis.
A Psicologia da Pandemia permite-nos, igualmente, pensar a nossa história e refletir sobre o ponto em que estamos e para o qual podemos e devemos caminhar. Pleno de oportunidade e propósito, pensa a pandemia nas suas consequências múltiplas, com enfoque na ciência e na ciência psicológica, em particular, e nos contributos dos psicólogos na advocacia e informação, junto de decisores, e na elaboração de políticas, na prevenção e no papel que podem assumir na resposta a este e a outros desafios, a partir dos seus diversos contextos de intervenção (quer seja na saúde, na educação, nas empresas, nas estruturas residenciais para pessoas idosas ou outras instituições sociais, nos estabelecimentos prisionais, nas associações ou clubes ou em instituições comunitárias). Pleno de oportunidade e propósito porque surge num momento de maior reconhecimento da Psicologia e da importância da promoção da saúde psicológica e mental para o bem-estar. Um momento de afirmação da Psicologia como principal ciência do comportamento e das ciências do comportamento como área principal na resposta aos desafios societais. Um momento de afirmação da Psicologia na saúde pública. Um momento de afirmação da Psicologia na equidade, coesão social e bem-estar, os seus propósitos últimos.
Tiago Pereira
Coordenador do Gabinete de Crise COVID-19 da Ordem dos Psicólogos Portugueses
[1] Tokarczuk, O. (2019). Viagens. Lisboa: Cavalo de Ferro.
[2] Matos, M. (2020). O futuro de quase tudo. Lisboa: Ordem dos Psicólogos Portugueses.