“Não negue à partida uma ciência que não conhece.” Imagino que parte das pessoas que me lê tenha presente no seu imaginário esta expressão. Usada por Alcina Lameiras, no momento áureo do esoterismo via linhas de valor acrescentado e/ou televendas, peca(va) pela referência à ciência face a práticas não científicas mas tem uma base que creio devermos considerar – não negarmos algo (apenas) porque não conhecemos.
Interessarmo-nos, conhecermos, compreendermos os fenómenos e dinâmicas que decorrem ao nosso redor e que têm impacto nas nossa vidas, nas vidas de outras e outros (pais, mães, irmã(o)s, pares, filhas/os) e na comunidade de que fazemos parte. Um exemplo: a nossa relação com a tecnologia e como isso influencia a relação das nossas filhas e filhos com smartphones e outros dispositivos com impacto no estabelecimento e dinâmica das relações (sociais), na comunicação e no acesso e partilha de informação.
Em concordância com a ideia de ser necessário que conheçamos e compreendamos, a direcção do Agrupamento de Escolas Fernado Casimiro Pereira da Silva (Rio Maior), a par da sua equipa de psicólogas (obrigado Tania Santos pela confiança) organizou o debate “Ligações Reais”, para o qual teve a amabilidade e gentileza de me convidar a partilhar reflexões. Do seu conjunto, partilho convosco quatro:
1) Persiste o desafio – comum a outras situações – de estabelecer ligações causais entre a utilização excessiva de dispositivos electrónicos e condições na área da saúde mental/outras dificuldades (resultados académicos, …). Há, no entanto, dados abundantes que associam o menor e o maior tempo de utilização a condições de saúde mental e outros indicadores negativos e recomendações internacionais insuficientemente cumpridas (desde logo, a não exposição de bebés a ecrãs de proximidade);
2) A forma como as importantes aplicações de controlo de utilização por parte das/os cuidadores têm algum “ricochete” na menor capacidade de auto-regulação das crianças/jovens;
3) A necessidade diminuir a exposição a ecrãs / redes sociais nos períodos nocturnos, considerando a importância do “descanso” e processamento emocional e o impacto nas alterações no sono, problema que parece agudizar-se nas crianças e jovens com múltiplas e significativas consequências negativas;
4) Finalmente, outro “ricochete”. Devemos, enquanto sociedade, reflectir sobre os limites da privacidade e a forma como, o facto de muitas vezes as/os cuidadoras/es advogarem-se do direito de tudo ver nos dispositivos das crianças/jovens para as/os proteger, poder passar uma mensagem incorrecta sobre a não-necessidade e direito à privacidade, com reflexos nas relações e, particularmente, em dimensões de violência nas relações e no namoro.
Esta última, um pouco em contraciclo com o que naturalmente poderíamos esperar em gerações onde os direitos humanos e a igualdade de género poderiam estar mais “inscritas”.
Urge discutir estes temas e os seus impactos. Os que já sentimos. Os que viremos a sentir.