Há exactamente uma semana, a Fundação Francisco Manuel dos Santos disponibilizou um trabalho da autoria Carlos Farinha Rodrigues intitulado Portugal Desigual. Resumidamente assinala o positivo da recuperação nos indicadores de pobreza (18,4 para 16,4%) e desigualdade (33 para 32% no coeficiente de Gini) em 2021, após em 2020 termos assistido à inversão de um caminho de melhoria destes indicadores. Assinala o negativo, porém, do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento de 2022 (resultante de dados do 1º semestre e, nesse sentido, ainda não incorporando o impacto total da inflação em 2022) assinalar a contração de rendimentos reais pela subida de preços e o aumento de famílias que indicam não ter capacidade para aquecer adequadamente a casa e fazer uma refeição de carne ou peixe no mínimo de 2 em 2 dias.
Quinze dias antes, na rúbrica “O Psicólogo Responde” (colaboração CNN Portugal | Ordem dos Psicólogos Portugueses) que aqui partilho, respondi à pergunta “Existe uma relação entre ter baixos recursos financeiros e a saúde mental?”. “Sim, existe (…) viver em situação de pobreza e de exclusão, tantas vezes a ela associada, é um dos principais determinantes de doença, incluindo doenças mentais. Nesse sentido, a vulnerabilidade económica provoca stresse e sofrimento psicológico e afecta a saúde mental e o bem-estar”. Assim disse, acrescentando que “importa, porém, sublinhar que esta relação não é unidireccional, antes bidireccional (…) conforme a vulnerabilidade económica pode potenciar problemas de saúde mental, também problemas de saúde mental, como o stresse, a ansiedade ou a depressão, podem conduzir a uma maior probabilidade de se viverem situações de precariedade, desemprego ou pobreza” e, atendendo também À urgência dos dados e desafios acima, que “investir na promoção da saúde e da saúde mental também é garantir um mais eficaz combate à pobreza e à exclusão.”
Esta semana, num local particularmente significativo para mim (Póvoa de Varzim), terei participações no 37º Congresso da EFPSA (European Federation of Psychology Students’ Associations) sobre este ciclo. Primeiro moderando um debate com intervenções do Eldar Shafir, do Francisco Branco e da Raquel Corval com o mote “Poverty: The oldest challenge of humankind”. Depois, dinamizando um workshop sobre contributos da psicologia para um ponto final à pobreza. Congresso em 2023, 20 anos após o de 2003 no Porto, em que participei enquanto estudante de psicologia.
Agradeço, também por isso, à Carolina Garraio (que primeiro me falou de trazer de volta a Portugal o Congresso da EFSPA) e à Gabriela Silva, pelos temas, qualidade e riqueza do programa que construíram e por todo o cuidado e empenho colocado na organização. Nelas, a toda a equipa. Parabéns, obrigado e que seja uma óptima semana de uma EFSPA que nasceu também do impulso de estudantes de psicologia portugueses em 1987 e cujo legado outras/os e as/os actuais procuram manter.