Quase 70 anos depois, é ainda célebre o discurso onde Eisenhower, ex-presidente dos EUA, disse: “Eu tenho dois tipos de problemas: os urgentes e os importantes; os urgentes, não são importantes; os importantes nunca são urgentes.” Anos mais tarde, Quino revisitou esta dicotomia através de uma tira onde a sua Mafalda se aproxima de dois homens que abrem um buraco e pergunta: “Andam à procura das raízes nacionais? | Não menina, de uma fuga de gás | Como sempre, o urgente não deixa tempo para o importante”, acaba por dizer.
“Importante Vs. Urgente – O sofrimento psicológico nas crianças e jovens em Portugal”, 34º artigo da rubrica “Ao redor” (Revista Sábado) reflecte sobre esta dicotomia transportada para prática da psicologia nas Escolas em Portugal, hoje. Sobre como a importante “promoção de competências socioemocionais; de uma cultura de apoio e suporte, de não-violência e não-discriminação e de um clima de Escola promotor de saúde, bem-estar e aprendizagem de todas e todos” é condicionada pela urgência das “situações de crise, conflitos violentos e problemas de saúde psicológica sem resposta ou intervenção no sistema de saúde”.
O artigo pensa as rápidas e profundas transformações dos últimos anos na prática da psicologia em contexto escolar, particularmente pelo maior capital social e reconhecimento da psicologia; pelo crescimento significativo do número de psicólogas e psicólogos nestes contextos; e pelas alterações conceptuais na sua intervenção, de intervenções quase exclusivamente remediativas para uma prioridade a intervenções de índole preventiva e promotora. Transformações infelizmente não totalmente cumpridas porque a “ausência de resposta aos problemas de saúde mental das crianças e jovens nos serviços de saúde” não permite, muitas vezes, o foco da intervenção no importante e nos novos referenciais dos contextos escolares. Mais quando 1 em cada 3 alunas e alunos manifestam sofrimento psicológico, segundo dados de um estudo coordenado por Margarida Gaspar de Matos (com o apoio da Ordem dos Psicólogos Portugueses).
António Costa disse recentemente ser necessário um “grande investimento” com vista à “capacitação dos diferentes estabelecimentos de saúde na resposta aos problemas de saúde mental”. No fundo, às situações hoje já problema, permitindo intervir-se no que é importante em contexto escolar, preparando crianças, jovens e comunidades para melhor lidarem com a adversidade futura e apoiando o desenvolvimento de competências, de ferramentas e a mobilização de recursos para não virem a engrossar o número de “urgentes” mais tarde”.
O Dia Mundial da Criança evoca a Declaração Universal dos Direitos das Crianças que no preâmbulo afirma, bem, que a “humanidade deve à criança o melhor dos seus esforços”. “Devemos-lhes, hoje ainda mais que ontem, usando da melhor ciência e evidência disponível e da colaboração interinstitucional, fazer o importante urgente, com a inquietação sábia e a inspiração da Mafalda de Quino.”